O Judas

A semana santa era uma época de inúmeras brincadeiras para uma rapaziada residente no bairro da Boa Vista no Recife. Dentre outras destacavam-se o "Serra Velhos" e o "Judas".

Assim, alguns dias que precediam as comemorações da semana santa pela Igreja Católica, os rapazes se reuniam no sentido de programar quais as pessoas que deveriam serem "serradas" naquele ano, exatamente na quarta-feira de trevas bem como onde deveriam colocar o "Judas" na sexta-feira que se seguia. Era uma verdadeira patuscada.

No intúito de renovar o espírito da brincadeira resolveram, de comum acordo, inovar no que dizia respeito ao "Judas", sendo tudo planejado nos seus mínimos detalhes a fim de que fossem evitados quaisquer imprevistos.

Nas proximidades do antigo Hotel Central localizado na Avenida Manoel Borba naquele bairro, existia uma praça de automóveis de aluguel ----- época quando ainda não existiam os táxis -----onde alguns profissionais do volante faziam ponto atendendo com os seus serviços a demanda de passageiros na sua maioria constituídos pelas famílias residentes na área como, também, servindo aos diversos hóspedes do referido hotel. Os rapazes, desta feita, capricharam na confecção do Judas. Cada um, na medida do possível, deu a sua contribuição. Calça, paletó, camisa, gravata, sapatos, chapéu tudo dentro do melhor estilo. Todo o vestuário foi usado com esmero no sentido de que o Judas se apresentasse com a mais fiel aparência de uma pessoa. Até um par de óculos foi posto no mesmo conferindo-lhe um ar de austeridade. Uma vez pronto, somente lhes restava aguardar a tão esperada noite de sexta-feira, véspera de sábado de aleluia.

Dentre os motoristas que fazim ponto naquele local havia um conhecido pela alcunha de Zá Vinagre. Homem já entrado nos seus sessenta anos de idade, mulato, de estatura mediana, careca e, sobretudo, mal educado; de uma irritabilidade à toda prova, razão pela qual lhe haviam posto tal apelido. Era mesmo um homem dito azedo.

Já nas proximidades da meia noite daquela sexta-feira os rapazes na espreita há alagum tempo, perceberam Zé Vinagre sentado no interior do automóvel diante do volante roncando a sono solto. Pé ante pé, eles se acercaram pela porta trazeira do automóvel tendo o máximo cuidado para que fosse evitado qualquer ruído que porventura viesse despertá-lo. Abriram a porta e, sorrateiramente, acomodaram o Judas no assento. Isto posto, um dos rapazes agachado ao lado de fora rapidamente fecha a porta, dizendo:

----- boa noite; Olinda por favor.

De certo modo assustado, Zá Vinagre prontamente olha para trás de relance percebendo, então, como se fora alguém já acomodado no assento tendo solicitado os seus préstimos. Aciona o motor de partida iniciando a corrida. Vale ressaltar que os seus companheiros de profissão sabiam previamente que que estaria para acontecer com seu colega.

No dia seguinte, já em pleno sábado de aleluia, Zá Vinagre não aparecera para trabalhar o mesmo acontecendo no domingo.

Somente na segunda-feira, o mesmo chegara logo cedo pela manhã com uma cara de poucos amigos. Daí os colegas lhe perguntarem qual a razão da sua ausência nos dias anteriores, uma vez que o mesmo era de uma assiduidade à toda prova. Se lhe houvera acontecido algo ou mesmo com alguém da sua família. Ao que o infeliz respondias bruscamente:

----- Não aconteceu nada. E se virando, resmungava: ainda vai acontecer uma desgraça por aquí.

Nessa altura dos acontecimentos os rapazes, um por cada vez, telefonava para a referida praça e quando Zé Vinagra atendia perguntava-lhe no maior descaramento:

--- Seu Zé, quanto custa uma corrida para Olinda transportando um Judas ?

Zé Vinagre possesso da vida, destilando raiva por todos os poros, respondia uma série de impropérios, culminando com aquelas ofensas à mãe do interlocutor. À medida que os telefonemas iam se repetindo e cada vez com maior frequência, a sua ira ia se tornando mais contundente. Isto posto, não suportando guardar por mais tempo stal segredo que o vinha tornando cada vez mais irascível, resolve confessar a um dos seus colegas mais próximos o que na realidade lhe acontecera naquela noite. No auge da sua irritação, tropeçando nas palavras e na iminência de ser fulminado por um ataque cardíaco, relata:

--- Foi um daqueles moleques filho de uma puta que não tendo em que se ocupar, teve o descaramento de colocar um Judas no interior do meu automóvel. Eu estava cochilando quando, de repente, a porta do mesmo foi fechada e alguém, dando boa noite, solicitou uma corrida para Olinda. Prontamente, ao me virar, percebí como se fora um passageiro já acomodado no assento traseiro. Sem nada desconfiar rumei para o local indicado. Ao me aproximar de Olinda e como o pseudo-passageiro se mantinha em silêncio, dirigi-me a ele perguntando qual seria o local exato desejado. Como nenhum resposta obtivera supus que o mesmo havia dormido durante o percurso. De imediato, estacionei o automóvel e, desta feita, olhando para o mesmo com mais atenção percebí que era um Judas que haviam colocado e, finalmente, no logro que havia sido vítima. Por isso lhe asseguro por tudo que há de mais sagrado nesse mundo: uma grande desgraça está prestes a acontecer. Se descobrir o autor dessa bandalheira não hesitarei em despechá-lo para o outro mundo. Não terei a menor piedade. Essa desgraçado não perderá por esperar.

Daí, não suportando mais a inominável humulhação pela qual passara, Zé Vinagre desapareceu daquela praça de automóveis sem que ninguém soubesse o seu paradeiro.

Quando ciente do resultado daquela patuscada a rapaziada exultou.

wellmac
Enviado por wellmac em 10/11/2010
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