Diário de um deprimido - dia 5
Com uma frequência absurda, as pessoas têm me dito que preciso lutar, que tenho que vencer, que essa angústia e tristeza, sintomas de uma depressão tardia diagnosticada, não podem prevalecer. Pudera eu ter tamanha escolha, não estaria assim. Não mesmo. Eu, que sempre mantive ideias brilhantes e fantásticas nessa minha mente fértil, já imaginei inúmeros cenários pelos quais eu poderia, futuramente, me orgulhar. O fato é que essa batalha é contínua; tenho tentado dribá-la, preenchendo esses dias vazios com funções e afazeres demasiados, todos antes insossos para mim. Não tenho faltado à igreja, apesar de sair e entrar da mesma forma. Não tenho deixado de ver amigos e pessoas, conversar, cumprir meus deveres. Essas ações cotidianas têm me custado, e chateia-me quando, em crise de tristeza, eu desmoro no meu íntimo e os demais vêm me dizer "você precisa ser mais forte que as suas vontades!". Ah, como eu gostaria que pudessem me enxergar com os olhos atentos na profundidade das minhas dores. A quem vou recorrer? Minha mente cansada não tem vigor para soltar um brado de agonia que me engole todos os dias. Aos poucos, vou perdendo parte de mim, quando na verdade eu queria resgatá-la, salvá-la, curá-la. Pode ser que amanhã tudo isso melhore, e torço para que não piore. De qualquer forma, só por hoje eu não desisti. Por hoje eu continuei. Mas amanhã, como dizia Fernando Pessoa, eu não sei o que amanhã trará.