A LINGUAGEM DO CONTEMPORÂNEO

(Para Lígia Leivas, a propósito do internetês e os visitantes virtuais)

Cada vez mais me convenço de que o nascimento da Literatura, particularmente o da Poesia, não é questão de “sensibilidade aflorada” e, sim, de inteligência para conectar a sensibilidade do leitor.

Quem me suscitou isto foi o impagável mestre Fernando Pessoa, o maior cutucador que encontrei em todo o lido, ruminado.

Também não é menos verdadeiro que há dias em que este fato ocorre mais nítido, perceptível! Esse afloramento que não sei de onde vem... E nem de que escaninhos da memória...

Nestes momentos ficamos mais atilados para a percepção e se torna mais fácil a construção do texto, seja na prosa ou no verso. Mas é no poema, na palavra metaforizada, que este aprisionamento do Belo fica mais palpável.

Quando isto ocorre, a palavra vem mais límpida, mais ajustada ao que se quer realmente dizer. Tudo flui melhor e mais rapidamente. Aquilo que há alguns anos chamávamos de “ao correr da pena”.

Talvez seja a tal “inspiração”, com a qual tanto brigo, porque hoje sou pertinaz no trabalho, disciplinado no ofício de escriba.

Diferentemente do período em que – diletantemente – comecei a escrever e em que ficava à espera de que brotassem as idéias.

Longas horas a capturar a inspiração e suas diabruras. Aquela capetinha dos períodos de ócio ou de reflexão. Quanta insistência, por vezes...

Atualmente, com mais de trinta e cinco anos de leituras sobre a Poesia e o poema, percebo que tudo é mais fácil no rodeio do palavrório.

Não devemos nada a ninguém e, portanto, escrevemos o que nos apraz e da forma que nos satisfaz. O leitor assíduo nos dará alguma pista, porque é ele que ruminará nossas loucuras.

De há muito perdi os pruridos castiços. Lembrei de Manuel Bandeira: "... língua errada do povo, língua certa do povo..." ou alguma coisa assim...

A descontração no escrever faz parte de nosso tempo. Do andamento rápido do modo de viver e fruto aprazível das tecnologias disponíveis aflora a concreção no tratar e no falar.

De novo o intertexto, à conta do mestre Fernando Pessoa na parte final de Tabacaria, em 1928: "... A certa altura morrerá a tabuleta, depois de certa altura, morrerá a rua onde esteve a tabuleta, e a língua em que foram escritos os versos... Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu...".

Vamo-nos, portanto, à palavra de entendimento, rápida como a centelha quase moribunda...

Se não a pegarmos, o carro de Apolo se vai pras estrelas...

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre Prosa e Poesia, Porto Alegre: Alcance, 2008, p. 188:90.

http://www.recantodasletras.com.br/cartas/211392