POSSIBILIDADES DO MUNDO!

Na minha visão do outro, sinto que algumas pessoas são mais especiais pra mim, essas geralmente me dão muito mais trabalho no trato, outras eu quero mergulhar no seu interior, essas em geral sentem a dor de confrontar o seu espelho, clareado com a minha visão, geralmente não gostam, se sentem agredidas, invadidas, ficam com muita raiva de mim. Sigo com a certeza que fiz meu melhor, as vejo como minhas plantas, que cultivo as sementes, preparo a terra, enriqueço com adubo e depois planto, imagino que haja dor, pois o ato de germinar, rasga, quase que apodrece, para depois surgir as primeiras folhas, assim vejo as pessoas amadas que a vida me presenteou, com elas, só com elas, perco meu tempo para olhar mais fundo, me dou ao trabalho de tocar nas feridas, tento cuidar, se elas deixam, em geral não deixam, se fazem irritadas, então as deixo, me afasto um pouco, para dá espaço para o crescimento, nesse momento me recolho para uma autocrítica, em geral percebo que as vezes exagerei um pouco, que cobrei demais, que errei um julgamento, mas na média fui bem, os resultados imediatos são quase nulos, mas antes de desistir e seguir em frente, dou uma última olhada, então percebo sutis comportamentos que parecem com pequenas mudanças internas, são tão normais que a maioria das pessoas não percebem, mas o meu olhar focado e crítico é capaz de perceber, sorrio e me parabenizo.

Conviver em sociedade pra mim é um pouco cansativo. Os comportamentos de grupos, geralmente me incomodam, vou lá apresento um trabalho qualquer, tanto no teatro atuando, ou em coros cantando, ou dançando... Sinto uma alegria grande em apresentar o resultado de muito estudo, ensaios para aquele público específico, ao término não quero nada além dos aplausos, a socialização final essa me incomoda, saio dali e retornar para o meu canto interno, longe da badalação, das bebidas, fumaça, cheiros...

Esse comportamento, em geral incomoda os outros, que não entendem porque o melhor da festa, pra eles, não me interessa.

Ontem fui assistir uma linda apresentação de um coro numa igreja no Centro do Rio, ao final tive que passar pela Praça Tiradentes, Lapa, então vi e ouvi, bares cheios, cada um apresentando sua música ao vivo ou tocada em caixas de som, as pessoas sentadas comendo, bebendo, conversando alegremente, no meio da música, me veio uma vontade de correr para chegar logo no meu carro, ir para o meu refúgio, onde tenho uma rede, minha música, uma luz azul suave e o silêncio da natureza, que tem seus sons noturnos, esse sim me alegram. Nesse lugar de convívio diário comigo me sinto apta a voltar a estudar e a criar coisas bonitas que num futuro momento me fará sair, subir num palco e apresentar de novo, de novo, de novo... Esse é meu convívio com os outros e meu amor externo. Mas aqui dentro há um amor maior por mim, uma grande admiração e principalmente um grande entendimento e auto perdão.

Ao longo da minha vida já atuei para grandes públicos, geralmente crianças, durante muitos anos trabalhei como a Emília de Lobato, nos anos oitenta eu subia no palco do Maracananzinho, nas ruas da cidade, em salões de festa de aniversários, de filhos de famosos e anônimos, era uma moda sempre ter um personagem desses em seu aniversário, eu vivia desses cachês, cheguei a animar a festa da neta da Zilca Salaberri, que era a vovó Benta da TV Globo, eu era uma boa Emilia!

Com as crianças dei e ainda dou meu melhor, alegrando, dizendo não, apresentando o mundo do faz de contas. Para os adultos também, mas esses foram em menos quantidades.

Escrevendo, atuando, cantando, dançando, sempre pensando em oferecer o presente da ARTE, para um público desacostumando desse tipo de cultura, infelizmente!

Sou atriz e professora, duas profissões ligadas a cultura e totalmente desrespeitada, as vezes vejo declarações de políticos, responsáveis de alunos, que me deixa triste, questionam nosso trabalho, nossas férias, nossos rendimentos ao aposentar é uma vergonha! Temos enormes perdas e ainda tem o imposto de renda, olhamos para o salário e os auxílio de políticos e outros cargos públicos privilegiados e percebemos o quanto esse país é desigual, o quanto o povo é explorado, esse mesmo povo que muitas vezes não consegue ganhar nem o mínimo para viver.

Olho essa gente sofrida, onde me incluo, percebo o quanto ainda vivemos na escravidão, o quanto temos que ver as classes dominantes nadando em privilégios e dizer amém! Continuar pagando impostos caros, e dizer amém! Não ter informações básicas de economia nas escolas e dizer amém! A vida no Brasil sempre foi e infelizmente continua sendo um eterno amém! Aí de quem discordar! Da minha infância nos anos de chumbo, pra cá, tivemos grandes revoluções mundiais, a internet foi a maior delas, nós permite acesso ao ouro da vida, a informação, que bem garimpada, pode nos fazer crescer de fato, basta usar com alguma inteligência própria. Agora sim um ser de cor de pele escura, pode finalmente acessar um conteúdo didático que antes só os seres de pele branca, com muito dinheiro, obtinham nas suas escolas caras e passeios pelo mundo, isso agora mudou, qualquer pessoa pode ter acesso as informações, basta filtrar, direcionar aos seus interesses e crescer.

Eu nunca pensei, lá na minha infância, que seria testemunha de tantas modificações! Tudo começou com a transmissão do primeiro homem na lua, eu era muito pequena, vi numa televisão com imagens ruins, preta e branca, de alguma janela, passando na rua, me lembro que vovó e eu paramos para ver aquelas imagens, alí começou o real progresso da humanidade, dos anos sessenta pra cá, vimos o mundo se transformar de forma tão radical que está criando esse texto no meu celular, hoje uma coisa tão normal! Era um sonho que jamais ousei, Publicá-lo para qualquer pessoa em qualquer país... Isso é fantástico! Há o mundo e suas possibilidades!