AS HISTÓRIAS

Nossa casa, à beira do Rio Paraíba do Sul, metade de alvenaria e outra metade pau a pique.

Os quartos e a sala assoalhados, o restante em chão batido. O fogão a lenha enfeitado com os embutidos produzidos em casa, perfumavam o fumeiro o dia inteiro. Bolão de fubá, broa de milho feita na fornalha, doces caseiros abasteciam a despensa todo o ano.

 

A vida da criançada sempre voltada a alguma traquinagem... escalar as árvores até o cume , caçar passarinhos, descer os barrancos perigosos, andar sobre os trilhos da ferrovia, visitar a beira do rio, passear de canoa ou bote...

Das brincadeiras... pular corda, roda, passar anel, pique esconde...

 

Às dezoito horas a Radio Nacional do Rio de Janeiro apresentava a contação de histórias do "Tio Janjão no tempo em que os bichos falavam".

Poderia chover ou sol se esconder... as histórias eram ouvidas no radinho movido a eletricidade, mas cheio de válvulas intrigantes. Momento mágico!

Na nossa casa não existia um livro...

 

Quando alfabetizados, eu e os primos, passamos à leitura das histórias em quadrinhos nas revistas doadas pelo chefe da estação do trem. Eu adorava o Pafúncio e Marocas, sempre brigando e Marocas jogando as panelas no marido.

 

Penso que a minha motivação para textos ilustrados tenha nascido dessa experiência com a literatura cheia de desenhos

e algum colorido. As cores não faziam parte do cenário das letras que chegavam até as crianças.

 

Desenhar a linha do tempo faz pensar.

Nossos rios estão morrendo à míngua.

Sem água... o Planeta fenece!