O Poeta Nu e o Verso Esquecido

O poeta estava nu, sem métrica e sem rima

Diante da plateia, sem toga ou pantomima

Súbito gritou, em febril desatino:

"Um poema! Um poema! Meu reino em Pasárgada eu assino!"

 

Mas Pasárgada dormia em berço de brisa

Não havia cavalo, nem coroa precisa

Somente o vento, impassível e magro

Levava-lhe as sílabas para um destino vago

 

Eis que surge um arauto, com olhar enfastiado

— Meu caro, teu verso foi ao mercado,

Venderam-no junto a quinquilharias,

Por um preço menor que sinas vazias.

 

E então, como Hamlet sem calças na aurora

O poeta urrou: "Ó musa traidora!"

Mas as Musas, rindo, jogaram-lhe um manto

Tecido com versos de um épico pranto.

 

Assim ficou ele, entre o fado e a lenda

Nu de palavras, coberto de emenda

E se um dia encontrares sua rima tardia

Saibas que um rei trocou Pasárgada por poesia