Dois tempos, dois homens

E depois de tudo, aconteceu, de repente, aparecer um clarão que ofuscou a vista. Na contraluz, como se viesse de um túnel ou caverna, a silhueta de um indivíduo. Era alto, só se podia vislumbrar que era alto e esguio. Ficou parado, imóvel como se averiguasse o local.

Eis o admirável mundo novo!, recepcionou o homem parado, a voz do outro lado da caverna/túnel. E em seguida, como se estendesse um tapete vermelho a uma celebridade ou autoridade, o anfitrião, fez reverência monárquica. Não houve aproximação. O homem alto continuou imóvel, só olhava. Sem pronunciar nenhum som, apenas olhava. A distância entre ambos, parece, aos olhos de cada qual, uma distância causada por um tempo que ambos ignoram. 1984 ou 2540, tanto faz. 1984, um tempo passado que não traz lembrança.

Um tempo sem tempo definido. Um tempo de olhos às portas. De ouvidos atentos e olhares suspeitos. Tempo de dedo em riste. 1984, incerto porque sem memória, um tempo desfalcado de si. Órfão de afetos. Sem solidariedade, sem companhia. 2540. Um tempo distante, longínguo. Um tempo futuro, sem cara, sem cor. Tempo desconhecido. 2540, tanto quanto se pode imaginar, um tempo por vir, esperado, porém, igualmente insólito. A sensação, o estranhamento dos dois homens resulta mais da incompatibilidade de afinidade que de familiaridade temporal. São dois seres estranhos por si. Um, ou melhor, de um, só se tem a silhueta à contraluz de uma caverna, ou um túnel. Ali, em tempos idos foi um túnel do metrô, e também, uma caverna de morcegos. Do outro, postado defronte a este, só se sabe que pertenceu a uma nobre família e que, a despeito das orientações dos pais, não seguiu carreira jurídica. Sujeito sem história definida. Então quem era aquele sujeito tão estranho, e indefinido de intenções, quanto o outro parado à contraluz? Dois sujeitos estranhos de si. Sujeitos que se olham, se examinam, como se fossem feitos da mesma matéria, do mesmo átomo.

O sujeito do túnel/caverna, não esboça aproximação, está estático, como se soubesse que o próximo passo signifique seu fim. Somente olha. Seu observador, igualmente, fica inerte. É como se ambos, embora, curiosos um do outro, evitassem o primeiro passo. Dar o primeiro passo, pra quê?, são dois seres que ignoram a existência alheia, dois seres que, a despeito de qualquer conjectura possível, não arriscam o primeiro passo porque, embora, e sem saber as razões, sabem que ignorar o outro é a garantia de se manter vivo. Entretanto, o que os fazia pensar da maneira que pensavam? Não trocaram nenhuma palavra, nenhum sinal, então, como dizer que sabe o que se passa na cabeça do outro porque sempre foi do jeito assim. Quimeras. Apenas quimeras que nada explicam. À contraluz da caverna e defronte a mesma, dois seres, talvez, sobreviventes de um tempo já esquecido. Àquele que só se tem a silhueta, a esperança, a aposta, a roleta russa a girar, como o anúncio ou o prenúncio de um novo homem. Um homem depositário de todos os sonhos e de todos os desejos. Um homem, quem sabe, sem limites na busca por um novo devir. Um homem amalgamado com as matas e rios e pássaros. Um homem, talvez do futuro ou o mesmo homem instituído de novos saberes. Não era possível saber. A certeza, se é que alguma certeza havia, a certeza estava apenas na possibilidade de entender que ambos os homens, nenhum deles, daria o primeiro passo. A voz metálica do homem às portas da caverna/túnel, não alcançou os ouvidos do outro, na frente oposta. A mesma coisa desse para aquele que permanecia parado. Dois olhares. Dois homens estranhos de si, porém, unidos pela curiosidade de saber do outro o que em si está submerso, sem, contudo, dar o primeiro passo.

E assim, como se o tempo transcorresse numa lógica e velocidade próprias, tornava ambos os homens sujeitos e reféns de seus tempos. Homens tão diferentes e tão iguais. 1984 ou 2540. Tanto faz, quando o que se busca e não se encontra, a despeito de vontades, está a imponderabilidade da vida. Dois homens. Dois destinos, duas histórias. Qual delas a que melhor representa nossas esperanças? Qual delas, cada qual, a seu tempo e modo, sem subterfúgios, sem maquiagem, nos traz a valiosa experiência da possibilidade da troca?

Perguntas e mais perguntas. Qual resposta, se há resposta, satisfará nossa intrínseca curiosidade? 1984. Um passado, porém, não esquecido. Um tempo que à memória cravou sua marca. 2540. Um futuro que não se sabe o que será. Admirável mundo novo!? Ora, ora, quem saberá a resposta.

Huxley, Orwell. Dois homens. Dois seres do mesmo tempo e espaço, porém, separados; um, homem do passado, o outro, de um futuro que o que oferece é apenas a possibilidade da esperança, qual dos dois você prefere? Os dados foram lançados.