CULTURA POPULAR: UMA VISÃO ANTROPOLÓGICA

Quero através deste artigo, tecer alguns comentários acerca do folclore nacional, com destaque para as manifestações culturais da minha querida Pirapora, encravada na região norte de Minas Gerais, às margens do Rio São Francisco. Inicio a minha explanação mensurando a formação étnica do povo brasileiro.

A miscigenação racial no Brasil, de forma distinta, pelo negro, o branco, o índio, antevê a possibilidade de que a identidade sociocultural do povo brasileiro foi sem dúvida, a condição suprema para a nossa formação, principalmente no conjunto de valores culturais tão importantes e que marcam a nossa condição histórica, inclusive, no seu fundamento à homogeneidade cultural e lingüística.

Muito antes da sua emancipação política e administrativa em idos de 1912, o município de Pirapora era habitado por indígenas da Tribo Cariri, que viviam da pesca abundante e da caça. Tanto o é, que o topônimo pira (salto), poré (peixe), ou “onde o peixe salta” representa através desta raça, a pujança do lugar.

Contudo, vale salientar que Pirapora, motivada pela “saudosa” navegação do Rio São Francisco, sofreu uma grande intervenção sociocultural, enfaticamente de nordestinos, na sua maioria retirantes e aventureiros que procuravam terras férteis e prosperidade econômica satisfatória.

Esses grupos dentro do contexto das relações sociais representam os estudos etnológicos, feitos por pesquisadores que acima de tudo, procuram desenvolver com exatidão não só o teor antropológico dos indígenas, como a própria formação do nosso povo, de forma sistematizada e generalizada, ou seja, através da análise e interpretação sucinta da nossa história singular.

Mas, o que vem a ser a cultura popular? Segundo o Professor Antônio Henrique Weitzel da UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora, a cultura popular é tida como “...a cultura associada ao povo, ou seja, ao contrário da cultura erudita, não está ligada ao conhecimento científico, mas como parte integrante o conhecimento vulgar ou espontâneo, o popular senso comum. Considerada também como arte do povo, o tipo de linguagem acontece como uma espécie de luta pela sobrevivência e pode ser de massa ou tradicional”.

Mas, o homem começou a se desenvolver culturalmente através das suas necessidades básicas, como o alimento para saciar-lhe a fome e o abrigo do corpo. Para fins didáticos, pode-se afirmar que a cultura nasceu com o homo sapiens.

Nesse prisma, os grupos humanos se expandiram progressivamente, ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta, a partir de uma origem biológica comum. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis, não obstante a constatação de certas tendências globais.

Todavia, não devemos hierarquizar a cultura, até porque não há como conceber que haja uma cultura superior. Há culturas diferentes, não havendo nenhuma distinção quanto às suas características em face à realidade cultural de um povo ou de um grupo humano.

Sendo a cultura a dimensão do processo social, é imprescindível que cada realidade cultural tenha sua lógica interna, sendo necessário relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos.

A contribuição no estudo das culturas advém da construção do fundamento histórico, seja como concepção ou como dimensão do processo social, sendo a cultura um produto coletivo da vida humana.

E a tradição, como se aplica nesse contexto? Ora, a falsa idéia que se tem, é que a tradição é tudo aquilo que é velho e/ou antigo, mas esse é um conceito falso, vez que é aquilo que está sendo entregue ou transmitido, ou seja, a herança cultural, passada de uma geração pra outra, as crenças e técnicas.

A cultura se divide em dois grupos distintos: a cultura de massa e cultura tradicional. A cultura de massa é aquela, onde as instituições dominantes têm de prover, e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos, da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas, já a cultura tradicional, é tida como aquela que temos a necessidade de conhecê-la profundamente, dando-a a importância devida, até porque, representa a sabedoria de um povo, a sabedoria vulgar, ou a pedagogia da experiência, sendo regional e universal ao mesmo tempo.

Na cultura popular reside a maior fonte de sabedoria do homem, do povo, é através dela, que iremos nortear e encontrar os fatos folclóricos ou manifestações folclóricas.

O fato folclórico, por sua vez, compreende as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservados pela tradição popular e pela imitação, dedicado à renovação e conservação do patrimônio histórico científico humano ou afixação de uma orientação religiosa ou filosófica. Sendo caracterizado face aos aspectos tradicional, funcional, vulgar ou popular, espontâneo, anônimo e oral, bem como a sua aceitação coletiva.

São os diversos agrupamentos das espécies folclóricas, tendo em vista o seu futuro aproveitamento nas escolas, tais como: a literatura oral e linguagem popular; música folclórica; festas populares; recreação: arte, artesanato e técnicas populares; medicina popular; religiões, crendices e superstições; usos e costumes e alimentação.

Porque citei Pirapora? Como um amante e estudioso da história local, e profundo conhecedor das raízes culturais do Alto Médio São Francisco, posso reafirmar a importância da cultura popular num contexto sociocultural e humano da nossa gente.

Danças como o “Carneiro”, “Gamba”, “Lundu”, “Marujada”, e manifestações de louvor, como as “Folias de Reis” e “São Gonçalo”, além das lendas, mitos, contos, fábulas, parlendas, ciranda e causos, e claro o nosso artesanato em madeira, com destaque para as “carrancas”, dentre outras peças de renomado valor, representam a singularidade da nossa tradição, que vem sendo cultivada pelos ribeirinhos como uma rica demonstração da nossa potencialidade.