LUIZ GAMA, UM CASO DE REBELDIA INDÔMITA

     Às vezes eu me pego pensando no que pode mover homens e mulheres a enfrentarem toda sorte de contratempos para defenderem suas ideias quando é muito mais fácil o acomodamento, a adaptação a um sistema excludente que massacra os dissidentes e busca subjugá-los por todos os meios, inclusive com contadas migalhas que caem das mesas patriarcais. Lembro-me disso quando penso em Lima Barreto, João Cândido e mesmo em personagens improváveis, como Capitu, de Machado de Assis. E um desses homens dignos de admiração é Luiz Gama (1830-1882), um rábula, advogado provisionado, que foi impedido de estudar pela elite do Brasil Imperial, mas que não conseguiu impedi-lo de lutar.

     Luiz Gama nasceu livre, em Salvador, filho de uma escrava com um homem branco. Aos 10 anos, foi vendido como escravo pelo próprio pai no Rio de Janeiro. Conseguiu se alfabetizar e, aos 18 anos, comprou a própria alforria. Frequentou aulas do curso de direito no Largo São Francisco, em São Paulo, na condição de aluno ouvinte, uma vez que sua inscrição foi recusada por ser negro, ex-escravo e pobre. Adquiriu os conhecimentos necessários para fazer a defesa de cativos rumo à alforria e há estimativas de que tenha conseguido libertar em torno de 500 deles. Somente num processo, que chegou ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) do Império, obteve a libertação de 217 que eram alvos de uma ação procrastinatória de suas liberdades concedidas por testamento pelo dono das terras e que a família não queria aceitar. Além de advogar, também foi escritor, poeta e jornalista. Casou-se com Cláudia Gama e teve um filho.

     Recentemente, empreendeu-se um processo de reabilitação de Luiz Gama. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) reconheceu-o postumamente como advogado e ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de São Paulo (USP). Também foi lançado um filme sobre a sua profícua e acossada existência. O avultado racismo no Brasil teve em Gama um oponente à altura. Todas as honras que se-lhe fizerem ainda serão mesuras incompletas.

 

Jornal Nova Folha, Guaíba-RS, 15.7.2022.

Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 21/07/2022
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