A saga do cross deck noturno VI

Esta saga é um simples exercício de ficção; qualquer semelhança com nomes e fatos da vida real é mera coincidência.

O MELANCÓLICO FIM DO CROSS DECK NOTURNO

O tempo se encarregou de resolver o problema. Em de maio de 1990, a Diretoria responsável recebeu uma nova edição do Manual de voo. O recebimento desta edição, com alterações significativas quanto ao cross-deck veio, embora tardiamente, reparar o grave erro (que custou caro) cometido pela própria US Navy, na edição de 1983, que vinha sendo, até então, utilizada pelo EsqHS-16.

Este erro, no entanto, foi especificamente detectado naquele mesmo ano pelo próprio EsqHS-16, através de um estudo técnico-profissional que o comparava à edição então usada no Esquadrão, que datava de 1979. Este estudo concluiu que o cross-deck no período noturno continuava proibido e continuava sendo autorizado apenas o diurno (e com uma série de restrições).

A nova edição do Manual de voo da US Navy era de 1988 e continuava cerceando o emprego da manobra cross-deck. Este manual determinava que a utilização do cross-deck não devia ser feita em detrimento da operação normal de pouso e decolagem na pista ou no convés em ângulo, e mais, o seu emprego só devia ser feito se a pista ou o convés em ângulo não estivessem disponíveis ou, então, em caso de necessidade operativa. A grande alteração é a determinação de que o cross-deck poderia ser realizado, mas somente em operações diurnas.

No Manual substituído o desenho que se referia ao cross-deck tinha a palavra day only embaixo do gráfico (envelope de operação do helicóptero). No Manual substituidor constava (erradamente) uma figura trazendo as palavras day/night embaixo do envelope de operação. As páginas do Manual que tratavam das condições de vento para pousos e decolagens cross-deck não sofreram qualquer alteração desde a change 0 até a change 7 do novo Manual, inclusive.

Portanto, não houve nenhum fato novo referente às operações cross-deck no Manual de voo do SH3, desde a data do seu recebimento em 1984 até o acidente em 1989.

Embora a Diretoria responsável tenha recebido regularmente desde 1983 as alterações do Manual de voo nenhuma delas, em momento algum, trouxe modificações sobre o cross-deck em relação ao que existia desde a edição original; permaneceu, então, desde aquela época (1983), o fatídico erro (day/night) que na nova edição (1988), foi corrigido para day ops only. É interessante colocar que esta novíssima edição do Manual de Voo só chegou ao Esq HS-1 após o terremoto do cross-deck noturno...

Embora tardia, a correção determinada pelo Manual de Voo veio comprovar o acerto das decisões dos oficiais do EsqHS-1 no trato dispensado ao cross-deck noturno, e mais, resgatou o extremo profissionalismo dos oficiais aviadores navais daquele Esquadrão de elite.

Observando a edição, percebe-se que ela é de 1988, portanto, não tão nova assim; ela é, inclusive, anterior à data do acidente. É lamentável que só muito tempo após a sua edição é que ela tenha sido recebida, pois, tantos dissabores e tantas dores poderiam ter sido evitados.

A Diretoria Técnica se pronunciou e suspendeu as determinações de se voar o cross-deck noturno.

Mas, na verdade, foi a própria Marinha séria e profissional que deu o golpe final no cross-deck noturno e o colocou no lixo. E com ele foram para o lixo da Aviação Naval aqueles que não souberam escrever Marinha com dignidade, fidalguia e coragem.

A verdade foi restaurada de modo integral em cada palavra, gesto, atitude. Qualquer outra coisa como interpretação, inferências, escudo, foram criações da cabeça e do ser de quem se descobriu pela ausência, pelo feito ou até pelo não feito.

Assim, nunca a Verdade esvaziou tão bem tanta prepotência e tanta força bruta...