CARTA DE DESPEDIDA - ONTEM EU MORRI

Ontem foi meu último dia de vida! Eu acordei tarde e me senti muito bem. Levantei da cama por volta das 10 da manhã; e como de praxe, tomei banho e já saí para trabalhar; e isso, sem me dar conta que estava bastante atrasado para os primeiros compromissos matinais. Atendi algumas pessoas e depois que fui almoçar, voltei ao escritório e fui embora pra casa. Eu precisava cumprir meu último compromisso do dia, que na verdade, só correu a noite.

Vesti meu paletó negro e rumei para completar meu último compromisso ainda vivo. Entrei naquela sala estranha, e das poucas pessoas que enxerguei, a maioria eram desconhecidas. Fiz o que tinha que fazer e lá estava eu mortinho da silva. Um grupo de pessoas havia matado o “eu” que habitava meu corpo há décadas. Uma morte programada; um falecimento como muitos que ocorrem todos os dias; e o velho “eu”, sucumbia a verdade dos fatos; passava desta para melhor!

Antes de ontem, meu dia foi tenso; cheio de enigmas pragmáticos que precisei resolver ao longo do dia. Muitas ligações, algumas visitas; e o dia não rendeu como deveria, mas transcorreu tão normalmente como em todos os outros dias anteriores, pois sempre precisei matar um elefante por dia; e muitas vezes, tive que me alimentar de lebres.

Preciso tentar lembrar do dia de meu nascimento. Uma primavera quente, típica dos Sertões; e lá estava minha mãe parindo aquele menino; o seu primeiro garoto. Não posso dizer ou afirmar que fui tão bem amado ou mal amado; o fato é que logo, quando eu despertei para a vida, meus pais fizeram uma viagem rumo ao desconhecido; eles resolveram apartar o amor e seguiram sozinhos, um para cada lado; e eu tive que, praticamente, escolher com quem seguir andar; e confesso que a decisão não foi a mais sensata, mas o remédio, para a época, me fez seguir aquele que reunia melhor condição.

Passei anos a fio entre a escola, que aliás, posso testemunhar meu protesto de agradecimento, pois frequentei boas escolas; tive bons professores e excelentes colegas no corpo discente de cada instituição que passei...

Minhas viagens começaram numa boleia de caminhão. Eu via o mundo passando pela janela e cada quadro que minha cabeça pintava, vendo tudo aquilo que passava, me inspirava a conhecer cada palmo adiante do que meus olhos podiam enxergar. Desde cedo eu ganhei o mundo e comecei fazendo isso com meu pai, um aventureiro obrigatório. De minha mãe, tive acesso à leitura e a interpretação dos textos; e desta miscelânea, aprendi que viver é bom, mas viajar é muito melhor; e minha morte, ocorrida ontem, me proporcionou uma outra viagem...

Aqui onde me encontro, tenho acesso a vultos históricos e fatos reluzentes. A morte de minha alma no patíbulo, não foi tão dolorida o quanto imaginei. Na verdade, se fosse para escolher, eu jamais quereria morrer, afinal de contas, a vida é muito boa; e aqui onde estou, não há Alcorão, Bíblia ou Torá; não há Facebook, computador ou celular; mas eu não tenho do que reclamar, pois diversão também se pode traduzir em experiências novas.

Tenho que lembrar o ano 3345, ano de minha concepção espiritual nas sendas emblemáticas da Antiga Escola de Mistérios do Egito. Pensei eu, à época, que eu também deveria morrer. Na verdade, eu queria ter seguido as lendas, entrado num sarcófago e extraído cada resposta para todas as perguntas que atordoavam minha vida. No dia um do mês três; um pouco antes do sol, em sua trajetória pelo zodíaco, cruzasse a Linha do Equador Terrestre, e assinalasse o equinócio de outono no hemisfério sul, e o equinócio da primavera no hemisfério norte; e marca a saída do signo de Peixes, o último do Zodíaco, para o de Áries, o primeiro; eu estava ingressando num mundo novo; em um ano novo!

Aquele ano, em 3345; lá estava eu, quase um menino, sem nada conhecer e sem nada perceber; procurando um momento de harmonia com a natureza; tentando dar um fim ao Inverno no Norte e ao Verão no Sul. É como se fosse um réveillon astrológico, ideal para começar uma nova fase com o pé direito, querendo tomar deliberações para o período seguinte, e em singular cerimônia, assumi o compromisso de manter os elevados ideais, bem como o de servir altruisticamente à humanidade. Uma decisão que marcaria para sempre minha vida, mas que não me fez morrer, como morri ontem!

Esta coisa de morrer até que não é ruim! A gente nasce, cresce e sabe que um dia vai morrer mesmo. Muitos de nós nem nascem; outros morrem criança; muitos morrem na fase adulta produtiva; e alguns outros, após terem cumprido todas as etapas, morrem velhos e esquecidos; e no máximo, em todos os casos, fica uma lápide com a inscrição de seu nome, que durará no máximo 10 anos; e depois tudo se apaga. Foi-se a carne e também as lembranças. Saudades se encerram; e novas gerações, cheias de vigor, preenchem as lacunas do “lembrar eterno”; mas o que jamais pode morrer na vida de todos os homens, são seus feitios de enobrecimento humano; suas atitudes ímpares que contribuíram com a evolução de uma única raça. A raça humana!

Outro dia, não faz muito tempo, saí de Brasília e voltava pra casa de carro, fato raro, pois sempre fui ao Distrito Federal de avião, mas naquela semana, eu queria ir de carro; e na volta, num piscar de olhos, notei vindo em minha direção outro carro, que do nada, colidiu-se contra o meu; e me fez rodar feito pião, parando ileso no acostamento de um posto. Pela porrada exacerbada, não era para eu ter ficado vivo, mas graças a Deus, saí ileso para contar a história e ainda pedir auxílio para o outro motorista, muito ferido. Meu dia de morrer não era aquele; nem foi o dia do rapaz.

Há muito tempo atrás, quando eu veraneava numa praia exótica do Nordeste, encontrei uma alemã muito simpática que me convidou para nadar com ela numa praia deserta; e eu fui. Mas como nadar, se eu nem sabia boiar? Era o fascínio de menino pelo desconhecido; e também pelas canduras de uma mulher formosa!

Quando aquela alemã tirou toda a roupa e se atirou na água, na verdade eu vi uma seria de pele branquinha e um belo par de olhos azuis me chamando e repetindo: “Kommen sie schwimmen mit mir, meine Liebe! ” Seria uma Iara encantada me chamando para o prazer? Não! Era a morte se anunciando! Eu entrei na água e quando me dei conta, estava afogando! Eu vi um filme passando naqueles poucos segundos. Vi minha família, meus amigos se despedindo; e num raro momento, num fragmento de um instante, vi também meu corpo prostrado num féretro negro; e uma coroa de flores onde estava inscrito: Vai com Deus, garoto bobo que não fez nada na vida!

A vida de todos é feita de altos, baixos e médios. Na verdade, ninguém se lembra de contar os médios. Olhem para o que escrevi; até agora, só citei os altos dos baixos; e um pouquinho dos altos dos altos. Sequer parei para escrever sobre os níveis médios; que são aqueles que vivemos 90% do nosso tempo. Sim, porque quase ninguém vive somente os baixos ou somente os altos. Até o mais franciscano dos humildes tem seus momentos de altos; e o maior milionário dos ricos, também vive momentos de baixas frequências, seja com uma dor de dente, seja com a perda de um ente querido.

Gente como eu, e como a maioria, só aprende a escrever sobre as coisas muito boas, como por exemplo: - Puxa vida! Ganhei na loteria! Ou ainda: - Caracas! Ontem sai com uma mulher magnífica! Ninguém está doutrinado para escrever ou falar somente de coisas ruins; e quando adotam este padrão, em geral, querem atenção ou favores; ou ainda, querem se esquivar de ajudar outras pessoas!

Eu sou mais simples e comum do que a maioria imagina. Já pequei por excesso; já usei da iniquidade para andar; já tomei vários porres por amor; casei, tive filhos, plantei árvores, escrevi vários livros; e hoje, como poucos, morri ontem. Isso tudo me faz um sujeito comum; igual a tantos poucos; e muitos raros, que conseguem enxergar na sua morte, uma oportunidade para escrever e viver um pouco melhor; e por mais contraditório e paradoxal, é assim que funcionam as coisas da vida. O grande problema é que ninguém quer enxergar aquilo que está escondido numa gaveta do âmago; empoeirado e guardado para que ninguém possa traduzir; a nossa própria vida!

Todo homem precisa conhecer a verdade. Precisa conhecer alguns de seus limites, para que possa cavalgar pelos cumes da inteireza; e pelos vales da serenidade. Nossa consciência nos exige, cada vez mais, conhecimento; e muito embora esta exigência não se faça tão clara, na cabeça da maioria, é assim que tem que ser. Uns precisam interpretar, para que outros os cobrem sobre este glossário de enigmas.

Uma vez São Francisco de Assis revelou a um pobre incrédulo, em sonho, que ele deveria ir ao encontro de civilizações antigas misteriosas. O incrédulo esqueceu o sonho e foi dar rumo a sua vida; mas noutro belo dia, resolveu ir conhecer o Peru; e no alto dos Andes, quando tudo parecia-lhe lindo, veio uma nevasca e o fez ficar sem ar nos pulmões. Imediatamente ele lembrou-se de São Francisco de Assis; e mesmo incrédulo, confiou que aquele era o lugar onde já deveria ter ido há muito tempo; e sem sentir medo, atravessou as montanhas geladas, cumprindo seu destino. Voltou para casa silente e atento, pois a natureza é Deus e Deus se faz presente na natureza. Respeite-a, pois esta é a primeira lição que todo homem deveria ter aprendido...

O que pode levar o homem a morrer? Pergunta subjetiva, porque tudo nesta vida pode dar prazer e matar também! Drogas, fumo, álcool, pessoas, amores, dinheiro, aleives; tudo correlacionado a estes fatores dão prazer e morte; até o conhecimento, que gera curiosidade, pode te dar altar e túmulo; e comigo não foi diferente!

Diz a mitologia que Themis era a deusa grega arqueira das promissões dos homens e da lei, sendo que era costumeiro invocá-la nos exames perante as autoridades. Por isso, foi por vezes, tida como deusa da justiça, título atribuído na realidade a Dice, uma deusa romana. Dice é que é a mulher bela que empunha a balança, com que equilibra a razão com o julgamento. A espada é uma invenção que deu vida a outra invenção.

A vida é um alvitre humano; e dentro de uma vida concebida, milhares de outras vidas podem se formar. O caráter pode ser formado de modo maléfico; e também pode se regenerar; mas tudo que vive eternamente maléfico, infelizmente, morre danoso e sempre vai ser lembrado como tal. No início de cada vida, se faz preciso ensinar as doutrinas da balança e também da espada; e o único cuidado que se deve ter é com quem ensina, pois a balança pode pender antes mesmo do equilíbrio; e a espada pode ferir, antes mesmo de ser lidada com zelo e cautela!

A história de minha vida e morte é muito longa. E não pense você, leitor; que isso é uma carta psicografada; ou mesmo, ainda, uma carta de despedida. Esta epístola é atual e refere-se a minha morte, ocorrida ontem; e somente parei para escrever esta carta, porque amanhã terei novidades; e desejo conta-las todas, para que você fique sabendo e me ajude a viver neste período pós vida!

A visão que cada pessoa tem da vida, no meu ponto de vista, é como nos cultos à Themis. Uns celebravam-na em "mistérios" ou "orgias", o que a fez, por muito tempo, uma simples personificação da ideia abstrata de legalidade; enquanto deveria ser em nome da Terra, do enraizamento da humanidade em uma inabalável ordem natural.

Devemos escolher como viver; se entre enigmas ou entre crápulas; e depois disso é que se pode enxergar em qual caminho se está inserido, se na luz ou nas trevas. A cautela de viver é assim; ou você a desembaralha ou ela te engole!

Carlos Henrique Mascarenhas Pires

CHaMP Brasil
Enviado por CHaMP Brasil em 29/07/2014
Código do texto: T4901414
Classificação de conteúdo: seguro