Sobre Alma e Espírito
Foi acreditado pelos antigos que a alma é uma substância. Substância vem de subsistire, mas essa mesma palavra latina, que quer dizer: “o que está sob”, nos adverte que esse “sob” permanecerá sempre desconhecido para nós e qualquer coisa que descubramos de suas aparências deixará sempre esse “sob” por descobrir. Pelo mesmo motivo, o espírito que originariamente significa “sopro”, e que nos servimos para expressar pensamento, também está “sob” a matéria.
Mas mesmo que, por um prodígio que não devemos supor, tivéssemos alguma ideia do que venha a ser substância da alma e do espírito, não teríamos progredido; pois nunca poderíamos adivinhar como uma substância recebe sentimentos e pensamentos. E isso é segredo da natureza e ela não o revela a ninguém.
Sabe-se que alma é aquilo que anima, não sabemos muito mais do que isso. Os primeiros filósofos do ocidente disseram coisas sobre alma e espírito que nivelam os dois termos em um só: vês que as duas coisas podem ser sopro, fogo, éter, quinta-essência, espectro, enteléquia, dasein, números, símbolos, linguagem.
Finalmente, para nos encher de confusão, Santo Tomás, extraindo de Aristóteles alguns conceitos, acabou por dividir o ser em alma, espírito e corpo. É ele quem diz em milhares de páginas que a alma é uma forma substancial por si mesma, que está toda em tudo, que a sua essência difere de sua potência e que a forma da alma é imaterial quanto às operações e material quanto ao ser e que a memória das coisas espirituais é espiritual. Santo Tomás, com a clareza aqui descrita; escreve como pensa, confusamente, e não prova coisa alguma. Deve ser por isso que recebeu o título de Doutor.
O labirinto e o abismo da alma que foi um caminho novo para Aristóteles, de quem recebemos um método possível para se compreender; começou com Platão, o seu precursor nessa atividade. Em sua metafísica, Platão, caminhou a largos passos até o infinito, mas deteve-se às suas margens. Descartes, no século XVI, foi o primeiro a fracionar, por uma divisão perpétua, o corpo da alma. Nietzsche, já na primeira vista do século XX, considerou tudo isso um excesso de irrazão. Milorde Freud, para dar sustentação à sua teoria psicanalítica, nivelou a alma ao estado de inconsciência. Depois de Nietzsche e Freud cruéis inimigos da alma ousaram protestar sobre a sua existência material e imaterial. Esses perseguidores da inocência, bem sabeis, fundaram o materialismo, o capitalismo, o existencialismo, o protestantismo evangélico, este último, conforme atesta Marx Weber.
Mas, amigo meu, amiga minha, como é que o ser chamado alma, a que damos um nome material pode significar algo imaterial? Embora confiando na palavra de Deus e nos padres da igreja, acreditamos na alma corporal, mas é impossível que nós, criaturas limitadas, saibamos pela razão o que só se pode sentir pela emoção. Foi assim comigo, o mais humilde dos filósofos, que, como outrora Pascal, sentiu antes de pensar.
Um dia senti a alma de uma moça cujo único pecado foi tentar muito fortemente existir e se esquecer de viver. Mas foi a alma mais bela que já conheci onde a variedade e a flexibilidade confundem e encantam. Alma de inteligência tão versátil em adaptar-se igualmente a tudo que, o que quer que empreenda, diremos que nasceu unicamente para aquilo. Alma e sorriso aberto, olhar simples, longínquos e cheios de segredos - como as estrelas – que no seu mistério não se podem medir, mas sentir.
E como a maioria dos espíritos precisam de matéria externa para desentorpecer-se, o meu corpo serve de assento para essa minha alma confusa e apaixonada que tenta afainá-lo com todas as forças. Por esse motivo prejudica minha saúde. Mas vou sobrevivendo. Pobre matéria, dela a alma se vinga; ri em santa paz de seus esforços vãos; ilumina, quando quer, e pelo sentimento ensina suavemente, calmamente, nossa razão. Os homens, embrutecidos pela concretude do mundo, ainda que mais semelhantes a ele, não podem viver sem uma alma. É isso que sinto.