André Bessa, um poeta sergipano

Ler o André Bessa de ontem, o da década de 60, quando era apenas um menino de 12 anos de idade, (*) transmite uma sensação muito boa e que tem cheiro e gosto de Aracaju. Tem a juventude inesquecível que alegrava o imponente Atheneu. Tem a lembrança da Arcádia desse colégio (um centro de irradiação de cultura), e da Academia de Pequenos Escritores Sergipanos.

Ler estes textos de André Bessa equivale a flutuar no tempo e vencê-lo, recuperando aqueles dias, revivendo aqueles momentos eternizados nas mentes dos privilegiados alunos da Instituição que deixou seu nome inscrito na história da educação sergipana e brasileira também.

O poema ONDAS é um mágico que, retirando de sua cartola estes versos molhados, salgados e também doces, traz aos olhos da imaginação cenas da Rua da Frente. Podemos avistar o Rio Sergipe sob o sol e também sob o luar; o Iate Clube de Aracaju com seus baquinhos de regatas. Até ouço O BARQUINHO, de Bôscoli e Menescal:

ONDAS (1963): As ondas rolavam, lutavam.../Depois, desfeitas em espuma,/Corriam à praia e a beijavam,/E voltavam ao mar, uma por uma./Depois saltavam, acrobáticas,/Em flocos de espumas douradas,/E mergulhavam, enigmáticas,/Caíam depois, esgotadas./Se a procelária corta os ares/Virão tempestades nos mares,/E as ondas passam a se agitar,/Vagando as espumas douradas/Pelo mundo até que, cansadas,/Decidam, talvez, regressar...

Ah, e também ouço o mavioso canto em homenagem à ATALAIA, que virou lei municipal:

ESTADO DE SERGIPE

PREFEITURA MUNICIPAL DE ARACAJU

LEI Nº 1.351

DE 05 DE ABRIL D 1988

TORNA OFICIAL A CANÇÃO INTITULADA

“ATALAIA”, COMO CANÇÃO DA CIDADE DE

ARACAJU, E DÁ PROVIDÊNCIAS CORRELATAS.

O PREFEITO DO MUNICÍPIO DE ARACAJU:

Faço saber que a Câmara de Vereadores aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º - Torna oficial a canção intitulada “ATALAIA”, com letra e música do Compositor Sergipano Antônio Vilela de Melo, como Canção da Cidade “A T A L A I A”: Quem te vê . . . nunca te esquece/Vive sempre, a sonhar/Teus encantos, são coisas raras/Onde o poeta vai se inspirar/ATALAIA/Sob um céu azul/Linda praia . . ./De ARACAJU/Em dias de sol/Deitadas na areia/Beijadas pelo mar/As lindas pequenas/De pele morena/Nos fazem sonhar/E o sol, parece dizer/Queimando-as com seu calor/ATALAIA.../Praia do amor/A T A L A I A ...

Art. 2º - Esta Lei entrará em vigor na data e sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Palácio “Inácio Barbosa”, em Aracaju, 05 de abril de 1988.

JACKSON BARRETO DE LIMA

PREFEITO DE ARACAJU

Dilson Menezes Barreto

Secretário Geral do Município

Lânia Maria Conde Duarte

Secretário Municipal de Cultura

Assim como se tivesse poder sobre as ondas, sobre as águas do oceano, o poeta André Bessa move com uma incomparável noção de musicalidade as ondas para lá e para cá. E nos embala esta melodia universal do mar, do Atlântico.

Conseguimos avistar o poeta sentado à beira mar, esperando o retorno das ondas. Elas não se arrependem e sempre voltam. E cada vez mais lindas, mesmo sofrendo as dores do progresso. Lindas ondas do Atlântico banhando a orla dos sergipanos.

Do Atheneu temos a firme recordação das aulas de Literatura e dos grandes poetas românticos pelo mundo inteiro. Além da Literatura Brasileira, tínhamos uma visão integral do Romantismo. A Professora Glorita (Maria da Glória Portugal) nos fez apaixonados pela literatura francesa. Ainda vive a charmosa mestra que transformava as salas de aula do Atheneu numa Paris em Aracaju.

Então, lendo os apaixonados poemas românticos _ de Amor e também de Morte, queríamos todos nos apaixonar loucamente até morrer. Queríamos a boemia e as noites nas tabernas. Desejávamos contrair o bacilo de Koch, viver em toda a intensicade o "mal du siècle". Nosso desespero era, quem sabe, maior, pois fervilhavam nossas cabeças de poesia extravagante de lirismo e de dramas enquanto vivíamos em uma cidade provinciana, acanhada e amante da moralidade e da tradição familiar.

De tal forma, este seu PRELÚDIO DA MORTE fala em nossos corações ainda dados ao platonismo e à ilusão do “amor maior” que alcançou o Modernismo com Vinícius de Morais. André tem gosto dos dois: de Álvares de Azevedo e de Vinícius. Tem o tom, a cor e o dom. Digamos que o estilo do parente do importante Gumersindo Bessa tem as nuances de todas as eras literárias, poéticas. (**)

_ Segundo o TJSE (2009, P. 1):

Gumersindo de Araújo Bessa nasceu a 02 de janeiro de 1859, no município de Estância e faleceu a 24 de agosto de 1903, na cidade de Nossa Senhora do Socorro, Sergipe. Concluído seus estudos iniciais, matricula-se no Seminário Arquiepiscopal da Bahia, contudo abandona a carreira canônica para abraçar, segundo Armindo Guaraná, uma que "harmonizasse as tendências naturais do seu espírito": o Direito. Assim, Bessa ingressou na Faculdade de Direito do Recife, recebendo o título de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, em 02 de outubro de 1885. Ainda estudante, já demonstrava o brilhantismo que permeou toda a sua vida pública.

No mesmo ano em que se bacharelou, Gumersindo Bessa foi nomeado Promotor Público da comarca de São Cristóvão-SE, chegando aos cargos de Juiz de Casamento, (Desembargador e Presidente do Tribunal de Justiça do Estado em 1891)

(***) VER ABAIXO NOTA DE ANDRÉ BESSA sobre GUMERSINDO BESSA:

Retomando ao poeta sergipano, cumpre, para ilustrar o que se dizia anteriormente a esta informação sobre Gumersindo Bessa, inserir a este texto o poema:

PRELÚDIO DA MORTE (1966): Petrifica-se de dor a noite, num grito,/Que lhe gela as profundas entranhas/Dissolvendo-se nas cores mais sombrias./Saltam vozes, amargamente despertadas/Pela língua de ferro da tragédia/Ressuscitando arcaicas recordações/Tragadas pela boca de bronze do Tempo./Sobem à tona, borbulhando o vermelho/Das lágrimas de sangue que deslizam/Numa forma desconhecida de saudade.../Um peso agônico que esmaga o cérebro,/Que estala e lança os olhos das órbitas,/E tudo afunda na névoa da solidão./Sempre fitando o escuro infinito/Luzidio manto salpicado de estrelas,/E assim o corpo quebrado dormiu/Debaixo do avião estraçalhado/E direto, o espírito estrelado saltou/Para se alçar nos ares outra vez/E em asas de luz lampejante se foi/Para além dos limites da noite mortal.

Em POEMA DO PROLETÁRIO (1964), é possível avistar todas as estrelas do poeta José Sampaio, o “poeta dos humildes” nascido no município de Carmópolis; os meninos pobres sem eira e nem beira; as mulheres do cais e toda sorte de miseráveis da Aracaju antiga. Danilo Sampaio, filho de José Sampaio é também poeta e herdou do pai a qualidade da poesia do sergipano apaixonado pelo seu estado.

_ Segundo o eminente pesquisador Luís Antônio Barreto,

“Em 1967 Jackson da Silva Lima organizou uma coletânea de poemas esparsos, lançando-a em solenidade no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em presença de alguns dos amigos mais próximos de José Sampaio, como José Augusto Garcez, Santo Souza, Antonio Garcia Filho, dentre outros. Vários críticos se ocuparam da obra de José Sampaio, destacando-se Austregésilo Santana Porto em Realismo Social na Poesia em Sergipe (Aracaju: Livraria Regina, 1960), Nunes Mendonça com o ensaio José Sampaio o homem e a mensagem (Aracaju: Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe/Livraria Regina, 1962) e Jackson da Silva Lima, que além de ser autor de livros e ensaios sobre a literatura sergipana, é uma espécie de curador das poesias e da prosa de José Sampaio, com vários textos introdutórios à obra sampaina”.)

POEMA DO PROLETÁRIO (1964) (soneto em decassílabos): O pobre trabalha para viver,/Portanto vive para trabalhar,/O trabalho que lhe dá o comer,/O trabalho que lhe vai sustentar./E no trabalho não pode pensar/Pois se pensar esquece seu dever,/E pensando em si, ele irá chorar/Pois o pobre não tem nenhum prazer./E pensará então mesmo em morrer,//E deste mundo ingrato se livrar.//Sabe que depois não irá sofrer/E não terá mais que ir trabalhar,/Pois poderá fazer o que quiser/Sem ter ninguém para lhe obrigar.

André é músico, poeta e artista plástico da palavra, como se pode notar em seus versos de paisagens, como em POEMA DE OUTONO (1965):

Pinta a tarde lenta nas árvores belas/Que vai, aos poucos, o tempo desfolhando,/Revestindo o chão de folhas amarelas/Que devagarinho o vento vai levando. (...)

Abro aqui um espaço para observar que o sergipano distante, vivendo atualmente na Suíça _ desde a juventude via em seus olhos cenários do outono europeu celebrados e eternizados por tantos outros poetas, descritos em tantos romances, mostradas em filmes. Os olhos do leitor vão seguindo a rota dos poemas bessianos quando, “ de repente, não mais que de repente”,

Petrificam-se no céu nuvens de sono,/Pairadas no vermelho vivo coral/O vermelho que fustiga os céus de outono,/Parece se extrair de um sangue imortal./O sol lá no alto é como uma fogueira,/Enorme, e que nunca cessa de arder/Rachando o chão, vai exalar a poeira (...)

Como se insatisfeito em buscar a perfeição da imagem dita com palavras, o jovem poeta em formação sob o sol de tantos outros poetas e sob o luar caprichoso que prateia o céu de Sergipe,

Olha o rio com vontade de o beber./Num galho distante canta o curió/E nas montanhas a urze morde a rocha/Já na estrada, o arbusto come o pó/E no rio, é o iguapé que desabrocha. (...)

Uma pincelada e o toque final. Até genial, se pode afirmar, do quadro mostrado aos olhos já coloridos do seu leitor:

E assim dilui-se lentamente a tarde/Como em um copo uma gota de tinta,/E no firmamento o sol já não mais arde,/E avança a noite feito sombra faminta. (...)

Desce suavemente o manto da rainha de todos os vates sobre os versos de Bessa e, então,

O céu agora é de ébano polido/E muitos broches de estrelas já despontam/Vem a noite com seu cetro enegrecido/Ouvir as fábulas que as matas nos contam.

Pouco eu disse sobre o conterrâneo. Que o digam mais e bem melhor os críticos da literatura. Nós, mortais leitores, dormimos com o cintilar de suas estrelas outonais.

ANOTAÇÕES DE ANDRÉ BESSA:

(*)

E talvez que vc pudesse (não sei, é só uma sugestão) sublinhar que aqueles sonetos e o poeminha foram escritos quando eu tinha 12 anos (1963), 13 (1964) e 15 anos (1966). A ingenuidade dos dois primeiros textos, principalmente, poderia confundir um leitor mais desavisado, quem sabe.

(**)

Em poesia, eu gosto muito do João Cabral de Melo Neto, do Bruno Tolentino, do Nelson Ascher, Duda Machado... mas, é verdade, são poetas mais recentes, e eu não os conhecia ainda nos anos 60.

(***)

Achei muito oportuno o apanhado que vc fez de situar um pouco da época daqueles textos meus e de ter citado o meu ilustre bisavô. Quanto a esse, apenas uma ressalva: a data de sua morte é 24 de agosto de 1913 (está lá 1903, quando ele ainda era vivo e empanhado na Questão do Acre).

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

http://www.infonet.com.br/luisantoniobarreto/ler.asp?id=46328&titulo=Luis_Antonio_Barreto

http://iaracaju.infonet.com.br/serigysite/ler.asp?id=402&titulo=Novidades

Observação: os textos são relíquias da década de 60, escritos em Aracaju e cedidos gentilmente pelo amigo André Bessa. Agradeço muito o carinho em me colocar nas mãos estas verdadeiras joias poéticas.

taniameneses
Enviado por taniameneses em 03/05/2011
Reeditado em 07/05/2011
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