POR QUE LEMOS TÃO POUCOS LIVROS?
Perto do meu escritório, no centro de São Paulo, conheço um japonês, Sr. Takeshi, dono de uma banca de revistas que vende somente livros usados. Ali me abasteço toda a semana de livros para mim, para minhas filhas e, sobretudo, para minha mãe, que aos 77 anos, lê um livro por semana. Na semana retrasada comprei o Caçador de Pipas por R$ 7,00. Este livro está na lista da Veja em 1° lugar entre os mais vendidos. Para minha filha mais nova comprei para trabalho de escola, um exemplar de Memórias Póstumas de Brás Cubas - do nosso melhor escritor de língua portuguesa - Machado de Assis - por módicos R$ 3,00 (edição popular). Para minha filha mais velha, adquiri por R$ 5,00 o livro O que toda mulher Inteligente deve saber de Stevem Carter, também na lista dos mais vendidos. E finalmente, para minha mãe, um romance destes açucarados, com 480 páginas cujo título me fugiu, por R$ 5,00. Ou seja, comprei quatro livros por R$ 20,00, o que lança por terra a desculpa de que livro é caro.
Toda cidade, por minúscula que seja, tem um sebo. Quando em férias, em Beberibe - interior do CE - comprei Os Diálogos de Platão em uma banquinha que ficava no meio de uma feira destas que tem de tudo. O curioso é que ao lado da referida banca havia um vendedor de DVDs piratas, a R$ 5,00 cada - e como vendia o danado! Nos trinta minutos que fiquei na feira, o sujeito vendeu, aos berros, mais de seis mídias. Ou seja, dinheiro para CD pirata da banda "Gaviões do Forró" tem, para comprar um livro do Jorge Amado, não. Dinheiro para garrafa de caçacha Sapupara tem, para um exemplar de contos brasileiros, não.
Tenho nítida certeza de que os grandes vilões desta história são os pais que não incutiram nos filhos o gosto pela leitura. A falta de dinheiro não se justifica, pois as pessoas gastam com óculos, com roupas, com mini aparelhos de MP3, CD de Funk, com pacotes e pacotes de salgadinhos, com correntinhas, etc... Mas não gastam com livros. Só aqueles que realmente tem amor ás letras e que o fazem. As pessoas, de maneira geral, consideram os livros como o supérfluo do supérfluo.
E o que dizer das Bibliotecas? Poucas pessoas fazem uso desta instituição. O quê? Eu vou deixar de ver fulaninha tomando banho no Big Brother para ler Dostoiewski ? Você está doente!
Anos atrás ajudei a montar uma biblioteca no conjunto residencial onde moro. Em dois anos conseguimos 4.000 exemplares - a maioria clássicos da literatura. Perguntem sobre a rotatividade dos livros? Saem quatro livros por mês para 1.500 moradores - e olha que hoje temos romances, auto-ajuda, técnicos. Assim, justifico a falta de leitores por falta de formadores de leitores. É uma questão cultural, mesmo. Ler dá trabalho, exige cultura mínima e o povo, sob justificativas mil, não quer saber de ter que espremer os neurônios.
Lembro-me até hoje do primeiro livro que ganhei, aos sete anos de idade de minha mãe. Era um livrinho de vinte páginas, com letras enormes e gravuras magníficas. Devorei-o em 15 minutos e o reli dezenas de vezes até adormecer com o presente nas mãos. Daí para frente, não parei mais e tive fases em que li 15 livros por mês. Hoje, passei o gosto para minhas filhas (17 e 21 anos) e minha casa é repleta de livros e revistas em todos os compartimentos (inclusive nos banheiros). Até no quebra-sol do meu carro tem livro.
Assim, devo a paixão pela leitura á minha mãe e é por isso que digo que os pais são fundamentais. Nem a Escola consegue inocular o vírus da leitura, a menos que o professor seja um amante dos livros. Quando muito, as crianças conseguem ler, sem entender aqueles clássicos chatíssimos para a idade e tomam ojeriza por livros. Agora, quando um filho vê seus pais lendo, pode ter certeza que será um leitor também.
Por fim, gostaria de comentar sobre mais uma facilidade para leitura, são os livros eletrônicos - os tais dos e-books- Tenho mais de 500 deles no meu Note-book. A maioria baixados da Internet gratuitamente - são coleções de Herman Hesse a José Saramago. Assim, meus amigos, só não lê quem tem preguiça. E tenho dito!
Roberto Lopes Jesus