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SÃO JOÃO DEL-REI, MG: INSTÂNCIA DE RELEVÂNCIA PRESENÇA ITALIANA NO COMÉRCIO E NA VIDA URBANA E RURAL


Jose João Bosco Pereira         Piracicaba, 2019
RESUMO
 Passaram-se 131 anos (1888-2019), a presença italiana tem um diferencial marcante na comunidade. Os produtos do mármore, dos hortigranjeiros, madeireiras, serviços em geral (engenharia, pedreiros, sacerdotes, arquitetos, decoradores, artistas, tradutores, pintores, cantores, etc.). A cultura local não seria a mesma sem a italianicidade que se adentrou às festividades e ao modo de vida, aos costumes locais e técnicas diferentes de cultivo e pensar e sentir a vida. Depois do Porto de Santos e Juiz de Fora, as primeiras levas de italianos se fortaleceram na vida são-joanense em 1888. Matozinhos, Colônia do Marçal, Bengo etc. são as expressões de um passado de distribuições de terra, cujo valor nós aquilatamos com sucesso do hibridismo ítalo-brasileiro, entre contradições e conquistas paulatinas dos descendentes dos italianos: Delvechios, Longattis, Bergons, Bertonis, Tortoriellos, Vianinis, Darvinis e tantos outros. Da língua, do Hino, da bocha, das culturas agropastoris, da religiosidade à miscigenação e à aclimatação, afastando-se das idiossincrasias radicais ao amainado sentimento de brasilidade, com esforço de adaptabilidade e investimentos pela dura sobrevivência. As forças expedicionárias brasileiras de são-joanenses contam a morte de heróis descendentes italianos (Orlando Randi etc., Monte Cassino e Castel Gandolfo, Itália, na II Grande Guerra Mundial).
Palavras-chaves: miscigenação, hibridismo cultural, genealogias

INTRODUÇÃO
De certo modo, o ditado popular pode ter seu valor e relatividade: “quem conta um conto aumenta um ponto”! Que seja ético e estético. Que seja academicamente plausível. Que seja coerente com os métodos adotados e metas a vislumbra. Quem conta a história, faz memória, seja coletiva, seja à luz dos das narrativas modernas do Observador benjaminiano (A História “a contrapelo” em “O narrador Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”   - 193ó), sobre as cidades modernas ou pós-modernas.). Coube bem a Jeanne Marie Gagnebin (2011) enfatizar as relações da pesquisa da História com as perspectivas aguçadas da narração em Walter Benjamin. Quem conta a História da Imigração deve ter a consciência histórica seriamente conduzida pela busca da verdade e das evidencias, para contextualização recente e fundamentada dos fatos para valorizar a memória coletiva dos imigrantes ítalo-brasileiros, do passado e do presente. Isso se encontra em E. BOSI: Memória e sociedade: lembranças de velhos.
“Historiografar” é, de certo modo, “inventar” (Eneida 2013), ou seja, reavaliar e redizer e redimensionar o real, sem fugir do das propostas e metas das pesquisas historiográficas, uma ficção da história com base na historiografia crítica e criteriosa, documentar e biográfica, bibliográfica. Quase crônica e depoimento, memória coletiva e recapitulação do cotidiano se entrelaçam na pesquisa historiográficas da voz das multidões e dos registros em jornais e histórias orais de comunidades e de famílias dos imigrantes e seus descendentes. Embora seja tudo isso interessante, não constitui o objeto formal de nossa preocupação aqui. Há esta preocupação na dissertação de mestrado de J B Pereira (2011) sobre Literaturas Comparadas e críticas da cultura à luz das memórias, coletiva e cotidiana, do poeta Sebastião Bemfica Milagre, o Lírico na modernidade..., contemporâneo de Adélia Prado, Divinópolis, MG, que cita alguns italianos de Divinópolis e famílias em seus poemas, trovas, prosas, minicontos, crônicas. Essa perspectiva pode ser vista também em Michel de Certeau (1994), em sua obra: A invenção do cotidiano.
Enquanto Derrida analisa o “Mal do arquivo” no ensaio: “Pharmácia” de Platão na coletânea La dissemination (A disseminação, 1972), Eneida Souza (2013) afirma, baseado em Giddens, pensador francês: “o mal da origem” para (des)contextualizar nossa dificuldade de retomar o passado completo ou inteiro, por isso o inventamos. Preenchemos lacunas, recriamos conceitos, dimensionamos a memória dos ancestrais, conversamos com os mortos-vivos dentro de nós, segundo P. Nora (1995), ao aproximar a memória coletiva aos estudos da história e realizar a problematização dos lugares dos deslocados como alteridade. Essa recriação ficcional e historiográfica se torna útil e saudável quando à luz da História oral, das segundas fontes e seu cotejamento das fontes documentais e primárias, preenchem o sentido-plus da história não linear cujas variantes assumem direções diferenciadas da historiografia oficial e oficiosa. Dizer ou escrever, “historiografar” ou conjecturar, pesquisar e categorizar a imigração italiana, configurar quem e quais são os italianos em cada geração diaspórica é falar dos mitos de origem, da significação da italianidade e da sua conjunção e hibridação com a invenção de brasilidades. Cada geração terá sua concepção de brasilidade, diferente de quem aqui é autóctone, de quem vive como brasileiro, mesmo que seja descendente dos italianos e de diferentes regiões da Itália. Ou de histórias de “italianos” diferentes e diferenciados a partir ou não da Unificação da Itália, dos contextos da Revolução Industrial Italiana, da Independência da Itália, das Guerras Mundiais e sua repercussão na Itália. Tudo isso, para tentar configurar o perfil ou as gestalts dos italianos e “italianíssimos” que vieram e estão entre nós desde o século XIX.
A presente pesquisa procura discutir essas configurações e as teorizações a partir da construção do mito da nacionalidade, da origem e da Nação e do Estado da recepção dos imigrantes (no caso Brasil, o Estado de Minas Gerais). A dialética da origem e distanciamento da origem, da acomodação e da resiliência dos migrantes e seus descendentes nos contextos de Minas Gerais, a construção da hibridização etno-hifenizada e sua desconstrução em função de adaptação geoclimática e socioeconômica e linguístico-cultural. O olhar do outro nos fascina e ameaça! Atrai pela novidade e nos ameaça talvez por níveis de estranhamentos.  Pretendemos seguir o método etnográfico-antropológico de A Invenção da brasilidade de Jeff Lesser (2015). Por um lado, o mesmo diz que toda identidade é hifenizada ou costurada entre avanços e resiliências de contextos específicos em conjunto de fatores identitários multifacetados que erigem a alteridade histórica dos migrantes e afrodescendentes. Por outro lado, é a desconstrução de nacionalidades e mitologias locais de J. Derrida.
É sabido entre os são-joanenses e os seus pesquisadores e historiadores como O. Trento (1989 e 2000) em Os italianos no Brasil, ainda J. F. Bertonha (2005) em Os italianos e Luigi Biondi na obra: Associativismo e militância política dos italianos em Minas Gerais na Primeira República: um olhar comparativo em jul. / dez. 2008. A presença italiana centenária hoje se vivencia sutil (nos subterrâneos da cultura local com afluência e influência de vertentes nacionais, regionais e internacionais) por sempre mais, e se vive social e politicamente na sua estratégia de inserção comercial e industrial (explicita e fortemente, nos mercados globais e transnacionais). Luiz Ruffato (2016) descreve bem os invisíveis italianos.
No passado, houve antecedentes da imigração propriamente dita, seja de visitantes ilustres pouco divulgados, seja em professores da divulgação da língua italiana no Brasil colônia e imperial, mormente em Minas Gerais. Contudo, o divisor de águas unânime dos pesquisadores é a ressonância da abolição da escravatura em que seu efeito logo se fez sentir. Os italianos recém-chegados ao Brasil vieram em 1888, lei da Lei Áurea e fim da escravidão no Brasil do ponto de vista formal. Contudo, ainda por anos e ainda hoje esse rastro de pisaduras e racismos nos macularam e estigmatizaram os africanos e seus descendentes, rechaçando sua cultura. Nesse contexto, os italianos vieram na disputa ombro a ombro nas minas, fazendas, cidades, comércio e serviços domésticos... Houve a Hospedaria da Baronesa, um dos mais antigos casarões com solar de São João del-Rei, situado no “Largo do Carmo” ou Praça Dr. Augusto das Chagas, n°17, centro dessa cidade, no período imperial, para cuidar e receber os italianos da “maleta” no século XIX. Atualmente, o prédio reformado é o “Centro Cultural da UFSJ” para encontros, exposições, audição musical, oficinas de literatura e teatro e palestras e sala de multimídias. A manutenção está sob responsabilidade da UFSJ – Universidade Federal de São João del-Rei - antiga FUNREI – Fundação Universitária de São João del-Rei, MG. (sepac@ufsj.edu.br e https://www.ufsj.edu.br/centrocultural/)
Diferente dos povos ou estados do Sul do Brasil, os italianos de Minas, pouquíssimas cidades, conservaram suas tradições civis, militares, pátrias. Contudo, no recinto da casa e das capelas e algumas colônias, o aparato se suavizou com costumes além-mar: a bocha, o Hino Nacional da Itália, a opereta, canções e danças de roda, as manifestações religiosas como procissões dos santos e civis pacíficas como desfiles ... O ar campesino do italiano tradicional e até urbano que migrou a Minas Gerais deslocando para São João del-Rei, hibridizou-se aos poucos e fortemente com o colono e o português autóctone e o negro aclimatado às terras serranas e prados verdejantes dessa municipalidade e sua história é recheada de histórias e memórias coletivas instigantes e emocionais. Era de se esperar uma conclusão fácil, mas não tanto assim. Porque em contexto tenso de imigração italiana e sua adaptação ou seu duro deslocamento e sofrência, há rica literatura cuja consulta os historiadores e curiosos vem se debruçando a quase um século e meio, rumo a celebração de seus dois séculos de presença e idiossincrasias itálico-brasileiras. M. Balbwachs (2003) fala dessa memória coletiva.
Urge, pois, destacar que ambas culturas tiveram aportes significativos e contraditórios, com jogo de forças desiguais, em se tratando de exploração de mão de obra italiana, morte de muitos, retorno a Itália a outros tantos por descontentes ante a propaganda brasileira ante a chamada à migração, sem dar os devidos suportes e encaminhamentos a contento. Os teimosos ficaram? Ou não tiveram tanta opção? Ou o dinheiro não deu para retornar à Pátria? E da Itália perderam tudo para sonhar e vir ao Brasil? O projeto do Migrante Italiano é o abismo em que se conjugam interesses e êxodo, buscas e perdas, riscos e ganhos. É preciso desconstruir e reelaborar as identidades-hifenizadas como nacionalidade ou brasilidades inventadas segundo Jeff Lesser (2015).
Nesse contexto, somos convidados por Bagno (2003, 2008 e 2015) a vencer as Intolerâncias linguísticas ou de sotaque. Este autor reflete sobre Variação, preconceito e intolerância linguísticas. A perspectiva invencionista e labiríntica da busca historiográfica e literária nos introduz à Ítalo Calvino, escritor falecido em 1985, em seu alto grau de destreza criativa e coragem catalítica de descritivismo dos processos históricos da urbanização e invenção da história e das histórias das cidades e das migrações, inclusive, depende do olhar de quem e como o lê. Para Ítalo Calvino, em 11 temas, são descritas cidades as mais diferentes possíveis: projetadas no céu, na terra, no deserto, no Hades, megalópoles cinematográficas, do passado Mil e uma noites árabes... “Leveza, profundidade, exatidão, rapidez”, sensibilidade na sua engenharia das cidades, que nos revelam tudo isso e muito mais! O leitor fica extasiado frente à novidade da escritura de Ítalo Calvino, na qual se tecem as teias da ficção com as da realidade histórica. Não nos pode faltam ao lado da Bíblia, da Imitação de Cristo, Cidades Invisíveis, Seis propostas para o novo milênio, Amores Difíceis, etc. A narrativas popular das narrativas pode ser vista em Thompson (1992).
1.HISTÓRICO REVE DA PRESENÇA ITALIANA EM SÃO JOÃO DEL-REI
A pesquisa historiográfica atual prevê três gerações diferentes a chegar a Minas Gerais: a do contexto da libertação escravista (1888–1900), a do contexto da Modernidade Tardia de 1910 (influência francesa e italiana no Brasil moderno industrial) e a gerações do contexto da (pós-) guerra Mundial de 1935-1945, até 1950. Uma parte se deslocou para Minas e outros Estados da República Federativa do Brasil e outra parte, para São Paulo, Bairro Brás, Bexiga e Barra Funda, nome inclusive do Romance modernista de Antônio de Alcântara Machado (1901 – 1935), publicado em 1944.
O olhar atento do investigador nos guia por uma câmara ou filmagem aos pontos mais significativos da presença italiana em Minas Gerais. Sua trajetória do Porto de Santos a São João del-Rei no século XIX. O foco vai mudando de cenário e as personagens vão tomando corpo e mérito a partir de sua chegada em São João del-Rei, Cidade dos Hinos e Sinos. O diálogo tenso e desigual com a cultura luso-colonial e o mineiro caipira das Serras das Vertentes com o Italiano do século XIX. O processo de exclusão social se verifica duplamente no negro recém “libertado” me formatação imperial latino-americana e o italiano recém-chegado em terras brasileiras cansado e esperançoso de se fixar e reconstruir seu projeto de vida pessoal, familiar e profissional. Rupturas e utopias se aprofundam no processo de desilusão e sofrência desiguais e contínuas. Afrodescendentes e italianos se esforçam por sobreviver no Novo Mundo, nas Américas, no Brasil Império.
Mas, nem tudo foi só negatividade, houve também momentos lúdicos e de humor itálico-brasileiro em brincadeiras, jogos, piadas, aventuras, namoricos, rezas, anedotas, tirinhas, futebol, bochas, desfiles, filmes, etc. Veja as agitações das gurizadas em “Gaetaninho”. Conto ou romance em Novelas Paulistanas (MACHADO, 1961).
O deslocamento de cristãos novos de outras nações europeias vinha do judaísmo e de outras religiões não cristãs, para o Novo Mundo, era a esperança contraditória de soerguer o projeto de vida e de família fora dos muros de sua nacionalidade. E as Américas e o Brasil têm esses curiosos e empreendedores personagens e atores de sua história: a história dos estrangeiros no Brasil e suas ousadas migrações.  Era um driblar censuras e perseguições, guerras e dominações de ducados da Itália em todas as latitudes e altitudes, dos Pirineus à Sardenha e à Cecília, ambas ilhas próximas à Itália, cuja forma é um pé de bota!
Eneida de Souza evidencia isso em Borges. E, Ítalo Calvino em Cidades Invisíveis – 1972 -(releitura das tramas complexas e descontínuas urbanas como: as cidades de areia” em Borges), para aprofundamento o tema, sugerimos um dos melhores livros de Eneida SOUZA (2012c), em parceria com outros escritores: E. C.; BRAGANÇA, I. F. S. (Orgs.). Memória, Dimensões Sócio-históricas e Trajetórias de Vida. Porque aborda de modo concreto essa metodologia da reescritura e a teimosia de conectar história e sociedades às trajetórias da experiência vivida como proposta de busca do sentido da lacuna lacaniana e na prospectiva de heurística e trazer à baila outras figuras e personas da história, não contempladas pela historiografia oficial.
2. INSTÂNCIA DE RELEVÂNCIA PRESENÇA ITALIANA NO COMÉRCIO E NA VIDA CULTURAL, URBANA
A região das Vertentes, que compreende, antigamente: A Vila do Pilar ou do Rio das Mortes (cuja guerra fora Emboabas) e a Vila de São José se emancipam (Tiradentes) desde o século XVIII, com a presença de italianos vários: interpretes, professores, sacerdotes, visitantes ilustres como Saint Hilary (Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire: botânico, naturalista e viajante francês), dentre outros. Com o passar do tempo, no século XIX, a base dos séculos anteriores foi consolidando paulatinamente. E seu ganho significativo representou não só o volume de rolos de fazendas de tecidos, fumo, manteiga, sardinha ou secos e molhados como essa o costume comercial da época das vendas. Como no campo ou meio rural, a presença dos italianos e seus novos lares e seus novos casamentos e famílias com brasileiros e brasileiros, mineiros e mineiras se fez sentir, forte e graciosamente, ou seja, lucrativa e avassaladoramente. Porque o comércio se tornou o ponto de estratégia não só de afirmação econômicas de famílias italianas e seus descendentes como também o contraponto de intercâmbio cultural e social. Ambiência propicia de sua sobrevivência familiar e adentrar nos meandros das culturas e famílias locais tradicionais mineiras. O comércio deixava se ancorar nos produtos de outros italianos das comunidades rurais que abasteciam a era dos verdureiros e leites vendidos na rua com latas e litro, outros com os doces e bolos em casa e rua com tabuleiros em ambulantes e a cavalo ou charretes. Esse intercâmbio possibilitou um apadrinhamento e crescimento ou aceitação dos novos italianos nas culturas e mentalidades arraigadamente tradicionais e mercantilizantes do roteiro denominado das serras de Minas como escoadouro dos produtos locais e seu abastecimento em trifurcação (ao sul para Campanha, Alfenas, Guaxupé, Castelo, Boa Esperança, etc., até Casa Branca e Palmeira dos Índios, São Paulo e a leste à Juiz de Fora e Rio de Janeiro) e ao norte: a capital Belo Horizonte ou “Curral del-Rei”).
Agora, uma descendente de Italiana, casa com outro descente. Dona Belina Longatti Faccion, cuja dissertação de mestrado de Michele Longatti (2011) procurou aprofundar a Histórias da vida de Belina Faccion: Formação educativa pelo Trabalho e ação social. Interessante observar que a mãe italiana se casou com brasileiro, ambos do meio rural. Vieram para a cidade de São João del-Rei, MG. Foram orientados pelos Padres Salesianos. Ela começou com 12 anos a trabalhar com a mãe e a aprender crochê e costura nas oficinas Dom Bosco na Rua Leite de Castro, Bairro Fábricas. Nesse local, os salesianos tinham o antigo seminário, que ainda existe. Depois de Belina casar com Sr. Albertino Faccion, operário têxtil, presidente do Comunitário Dom Bosco, motorista de confiança dos padres, mudaram-se para a Rua Alexina Pinto, onde ainda mora. O marido já faleceu. Com seus quase 100 anos, Belina tem atividade pastoral e vicentina, salesiana como cooperadora, ajuda na catequese e acolhe pobres nos morros. Seu diferencial é reconhecer o bem e fazer o bem a todos.  A vida de trabalhos intensos, respeito a todos, dedicação à educação de mulheres, incentivo à pratica da caridade e distribuição de bens, faz de Belina um exemplo vivo de cidadã. Uma descendente de italianos a indicar o fruto dos primeiros italianos que chegaram em solo mineiro nos idos do século XIX, no contexto do fim da escravidão negra.
3. INSTÂNCIA DE RELEVÂNCIA PRESENÇA ITALIANA NA VIDA AGROPECUÁRIA E   HORTIGRANJEIRO.
As comunidades surgiram logo após as primeiras doações de lotes da “31 de Março” (Hoje é o nome também da avenida de acesso a São João del-Rei de quem vem de Prados, Ritápolis, São Tiago, Morro do Ferro, Belo Horizonte, Divinópolis, etc.), rumo a Colônia do Marçal, logo depois César de Pina, rumo a São Tiago de Minas. Nessa paisagem, estão os descendentes dos antigos donos italianos que vieram em diferentes etapas desde o fim do século XIX. As famílias mais expressivas são os Giarola, Felizardos, Darwin, Longatti, Delvecchios, Bezamar, Tortoriello, etc. Cada família tendo sua gleba e campos de lavouras, dedicam-se durante todo o ano à produção agropecuária e de Granjas. Esta última ainda em formação. Os ovos e os frangos as verduras e os frutos da terra são obrigatórios para a sustentabilidade familiar agrícola.
Alguns lugares são tirolesa, em Minas vemos a tradição  nos abrem com novos iniciativas e roteiros turísticos como visitas a Tiradentes, Prados, Resende de Costa, São Tiago, Cassiterita, Nazareno, São Vicente de Minas, etc. Há e são a cavalgada com a chegada ao destino com o bom lanche, café sortido, pousada, queijo, pão de queijo, bolos diversos e saborosos, alimentos sem agrotóxicos e naturais, roscas, produtos da terra, do campo e leite gostoso do gado, gastronomia multifacetada bem mineira, bem italianíssima mineira! Não diferente ou tão diferente dos hábitos ou costumes dos mineiros que gostam de queijos, massas, bolos e carne, os italianos aprimoraram e variaram os modos de acesso e preço das mercadorias de cama, cozinha, carpina, adega, sucos e licores, produtos em goiabadas e marmeladas. Os mineiros e os italianos se apropriaram de modos semelhantes do passado remoto e próximo de valores e costumes comerciais e utilitários do campo, do lar e das minas como enxadas, pás, arados, etc. Na construção civil, precisavam de produtos como mármore, cal, cimento, tintas etc. E era preciso trocar alguns dos produtos do campo pelos da cidade. Aí vem as trocas primitivas de aquisição de bens desde quando a humanidade se entende de necessidades e carências para a alimentação, roupas, vasilhames em geral. Com a complexidade dos mercados e as ferrovias surgiram e novas oportunidade para todos, em especial para os italianos. Valorizo essa gente no poema Imigrantes em Momentos poéticos de 2006. Veja esta obra em Recanto das Letras, autoria de J B Pereira (2017).
Para Geertz (1973), em A Interpretação das Culturas, nos assevera de que não há culturas prontas e nem superioras. São construídas no tempo e nos espaços como temporalidades históricas, algumas efêmeras e transitórias, nem por isso inúteis e descartáveis. Se não há superioridade cultural, cabe ao historiador vencer-se ou convencer-se de sua arrogância ou autossuficiência para inserir-se e inserir com os outros da cultura do outro a fim de poder considera-la em sua abordagem contextualizante e, relativamente, intercambiante. Sim, intercâmbios desiguais e frágeis, ou fragilizados para sobreviver ainda no patamar das disputas de fronteiras e rotas comerciais. Os elementos de povo e elite, língua e barbárie, território e além-fronteiras, poder estrutural e projetos revolucionários, projetos sociais e históricos de emancipação e hibridismos vêm dizer e registrar das formas idiossincráticas de cada clã, tribo, reino, ducado, nação, cultura e civilização. Em Geertz (1973), o historiador deve conviver com a cultura. E no futuro, como fica os que não conhecem a tal cultura e se esta não existe? Para ele, a cultura deve ser conhecida em vivo, em primeira mão, e não por troca a distância. Contudo, isso muitas vezes se torna ideal e, na prática, será impossível dizer sobre a cultura de que não se conhece e jamais se viu e com os seus usuários ou falantes, jamais teve domínio da linguagem e seus contextos de vida e de pensar. E, vem em nosso auxílio, outros teóricos, sua pesquisa histórica dialoga com a antropologia e a arqueologia. Um deles, é Jeffrey Lesser (2015) em seu livro A invenção da brasilidade, em que mostra pela pesquisa histórica conjugada com a etnografia antropológica as hierarquias “hifenizadas”, ou seja, as hibridações entre ítalo-brasileiros, por exemplo. E a construção da nacionalidade e as hierarquias locais étnicas como identidades nas novas gerações ou de descendentes dos antigos migrantes. Isso é a Invenção da nacionalidade segundo Lesser (2015).
Há italianos cujas origens são duvidosas e muito antigas e marcadamente de povos diferentes, antes da Unificação da Itália. Esse período de consolidação do Reino da Itália sob o reinado de Victor Emanuel II. Aconteceu na segunda metade do século XIX e concluído em 1871. Consistiu na articulação e na reunião dos vários reinos da Península Itálica, depois da expulsão dos austríacos. Outros italianos, vieram para Minas após a essa Unificação. Após da Crise de Vêneto, Norte da Itália, várias famílias italianas vieram para o Brasil, especialmente, para Minas Gerais. Depois da Queda da Bolsa de Valores em 1922, Luiz Ruffato (13 JAN 2016), evidencia outras intercorrências dos italianos e seus descendentes pela dura vida, a vida dos sobreviventes no Brasil.
Já no final da primeira década do século XX, a economia da Zona da Mata estava inteiramente desmantelada - o golpe fatal dado pela quebra da bolsa de Nova York em 1929 e a tomada do poder central por uma nova elite política, no ano seguinte. Assim, a região mergulhou num processo de letargia, que absorveu a quase totalidade de suas cidades. O empobrecimento empurrou as famílias imigrantes para a agricultura de subsistência, em terras pouco férteis e distantes dos centros consumidores.
Alguns retornaram a Itália, outros permaneceram por motivos diversos. Adquiram lotes denominados “sítios”, em que a agricultura familiar fora o suporte de subsistência, conforme a descrição de Luiz Ruffato (13 JAN 2016):
... cultivavam, utilizando mão de obra familiar, produtos essenciais para o consumo próprio, como arroz, feijão e milho, legumes, verduras e frutas, além da cana-de-açúcar, que complementava a alimentação dos bois para abate e das vacas leiteiras, criados soltos no pasto. No quintal, mantinham as “criações”, frangos para corte e galinhas poedeiras, mas também patos, marrecos, perus e galinhas d’angola. Havia ainda porcos nos chiqueiros e, eventualmente, cabritos e coelhos. Como moeda de troca, além dos excedentes da produção caseira, apenas o fumo, que vendiam em cordas.
Agora, refiro-me a Ademir Sebastião Longatti, filho de Murilo Longatti, de César de Pina, zona rural de São João del-Rei, próximo das Aguas Santas, Instância de Turismo e piscina hidromineral famosa entre São João del-Rei e Tiradentes, MG.  Eu o conheci no Seminário Santo Antônio de Juiz de Fora, onde fora estudar e fazer o seminário interdiocesano. Fez nele sua filosofia e Teologia nos anos 1980 e 1990. Ordenou-se padre por São João del-Rei pelas mãos de Dom Mesquita. Foi capelão militar nos anos 1990. Atualmente, vigário da Igreja de Tiradentes, MG. Inaugurou o Museu Paroquial. Tem tido trabalho atualizado e fecundo como sacerdote, pregador, confessor, administrador, etc. Sendo descendente de italianos, o Padre Ademir Longatti tem uma história peculiarmente rica de exemplos e de trabalhos na terra. Sempre, desde criança se dedicou à agricultura ao lado dos pais, das irmãs e dos vizinhos no plantio de verduras, árvores frutíferas diversas, colheita sazonal, venda dos produtos da terra no mercado de São João del-Rei, MG, idem em toda a região próxima como Tiradentes, Prados, Ritápolis, etc. Gosta de manejar o trator. Aliás, no tempo do seminário, já o fazia no período das férias. Porque mostrava as suas mãos calejadas da enxada e outros trabalhos da terra e do cuidado com o gado. Curtia os encontros de jovens na Paróquia de Matozinhos e futebol. Nesse ambiente de amigos, conhecidos, padres, gente de fé católica, despertou-lhe a vocação sacerdotal na juventude. Realmente, Padre Ademir Longatti é exemplo forte de trabalho e de oração, fé e religiosidade popular, tradições dos antigos italianos nas festas da igreja e capelas. Na bocha, no hino nacional italiano, roupas e danças dos italianos, os costumes culinários da Itália ainda dominam a mesa da família por gerações. Eis as culturas-higenizadas, hibridas-inventadas pelos italianos e seus descendentes, vislumbradas em Dias & Peres 2012).

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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J B Pereira
Enviado por J B Pereira em 17/10/2019
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J B Pereira
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