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É muito fácil culpar as vítimas

Assim como se costuma culpar as vítimas de estupro e de bullying, é comum que se diga dos filhos de pais opressores que eles foram fracos, que não tiveram coragem de lutar por sua independência e ir atrás de viver sua vida. Porém, precisamos entender que não estamos na situação de uma pessoa para que apenas ela leve a culpa. Vejamos principalmente que uma relação familiar envolver muita gente e somente uma pessoa não pode ser responsabilizada.
Ser oprimido continuamente exige realmente que se lute contra tal situação, porém quem sofre muita opressão costuma ficar com a saúde mental fragilizada, pouca autoestima ou então, talvez por algum  motivo preso no subconsciente, recusa-se a ver o problema como ele é. No caso de relação pais e filhos, a questão é bem mais complicada. Os pais são as primeiras pessoas com quem formamos relações sólidas. Nos nossos primeiros anos, dependemos completamente deles. São eles os que inicialmente nos transmitem valores e tendemos a acreditar neles. A mente humana é muito maleável, especialmente na infância e tudo que nossos pais disserem a nosso respeito será internalizado. Portanto, caso os pais tratem os filhos de um modo, isso refletirá na maneira como a criança se vê e entende o mundo. Do mesmo modo, temos de entender que a opressão paterna pode ser muito bem camuflada sob o manto da proteção, de que apenas "se quer o melhor para os filhos", de que "eu sei o que lhe serve, tenho mais experiência."
Se uma criança ouve muito que ela é burra, incapaz, lenta ou que só dá trabalho e faz tudo errado, ela vai acreditar nisso e talvez até se comportar de acordo. Muitas crianças não estudam nem arrumam seus quartos porque aprenderam com os pais que são "preguiçosas e desinteressadas". Algumas agem de forma a chamar a atenção porque os pais lhes disseram que elas não sabem se portar e são inconvenientes. Claro que as palavras dos pais podem surtir o efeito contrário. Talvez a criança que ouça que é lerda demais para fazer algo direito se concentre demasiadamente nos estudos. Mas isso não será algo que ela fará para satisfazer a si mesma. Será uma tentativa de provar aos pais e a ela própria que não é estúpida. Muitos adultos perfeccionistas que vivem a traçar para si altas metas ouviram dos pais que nunca seriam ninguém na vida.
Geralmente, pais opressores escolhem um filho ou filha para ser o alvo de todas suas críticas e exigências demasiadas. E, se os filhos oprimidos veem os pais paparicarem tanto o outro, tenderão a pensar que elas são as culpadas porque não são como o filho preferido. É a velha história de pensar que "meus pais não me amam porque não sou bonito, inteligente, esperto." Isso é danoso para a autoestima. Para a criança, ver que não é amada como esperava faz com que entre em choque com o que nos ensinam a acreditar: que todos os pais amam os filhos do jeito que eles são e que não fazem distinção entre os filhos. A criança quer ser amada e possivelmente pensará que tem que conquistar esse amor, tornar-se boa o suficiente para ser amada.
Muito fácil dizer que a pessoa se deixa oprimir porque é boba. Mas a criação que recebemos cria padrões mentais que aprisionam nossa mente. Quando mais velhos, muitos comportamentos inexplicados que possuímos, se formos a um psicólogo, será revelado que tiveram origem lá atrás, na infância ou adolescência. Quantos adultos, quando decidem se tratar, vão desenterrando problemas de trinta anos atrás, seja o ambiente familiar ou bullying na escola? É um mito essa história de que "águas passadas não movem moinho." Movem talvez a nossa vida inteira. A gente muitas vezes apenas finge que superou, mas a mágoa fica lá, como uma sujeira que varremos para debaixo do tapete ou um esqueleto que mantemos no armário. Se formos criados com padrões negativos, poderemos repeti-los no futuro ou tentar desesperadamente não ser como nossos pais. Filhos criados por pais opressores podem repetir esse comportamento ou então se tornar o extremo oposto, tornando-se permissivos. Como vemos, mágoas não tratadas irão repercutir na nossa vida inteira. Quantas mulheres que foram oprimidas não adotam o comportamento estranho de se manter presas a homens que não as valorizam, não conseguem casar ou trocam de parceiros tentando encontrar o "homem ideal"? Se forem a um profissional, entenderão que isso se deve a terem sido educadas por pais opressores.
A opressão dos pais leva a muitos problemas: depressão, ansiedade, falta de autoestima, distúrbios alimentares como bulimia ou anorexia. Todas essas pessoas serão fracas? Com certeza não e, se são, não podemos culpá-las nem ficar pressionando. Quem está em tal situação tem que descobrir sua própria força, ver que aquele ambiente familiar não é normal nem saudável. O problema é que, muitas vezes, os filhos oprimidos não querem enxergar a verdade. A gente pode levar anos para se libertar desses pais, que não querem nos prender junto a eles nem decidir nossas vidas por amor. Eles o fazem apenas para satisfazer a si mesmos.
Maria Cândida Vieira
Enviado por Maria Cândida Vieira em 28/08/2019
Código do texto: T6731074
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Maria Cândida Vieira
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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Maria Cândida Vieira