Aldeia, aldeota

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Aldeia, aldeota

O filósofo canadense Marshall McLuhan, ainda no século XX, disse que a comunicação em massa tornaria o mundo uma “aldeia global”. O verbete aldeia nos remete direta e inconscientemente a índios, nudez ou quase nudez – institivamente pueril –, sem muitos apelos da lascívia, sem os arroubos da salivação freudiana... Os tempos mudaram. Os avanços tecnológicos também. Séculos viraram meses. Anos, dias. O mundo líquido do tudoaomesmotempoagora invadiu não apenas os perímetros das aldeias, mas entramos, sem pedir licença, uns nas casas dos outros. Perdão, nas ocas. Mais que isso: os outros abrem as portas para nós, sem que peçamos nada.

Meu avô frequentemente repetia que uma das grandes alegrias que tinha na vida era ver mocotó de moça! Confesso que estranhava a associação fonética, mas a semântica me remetia a um tornozelo delineado, esculpido com o mesmo esmero que a sua divindade, leitor, seja ela qual for, certamente idealizou com perfeição. Sim, com perfeição, porque todos os defeitos da espécie recaíram sobre o homem – Não usarei a palavra ‘macho’ por razões que parecem óbvias. Uma delas: ...

Retornando ao habitat dos nossos prováveis autóctones, as portas nos foram abertas porque hoje, mais que nunca, aquelas fotografias, que eram da família ou das pessoas mais íntimas, circulam pelas redes sociais com tamanha facilidade que assusta! Fotos de frente, de costas, de lado, de biquíni, de calcinha (Sem também?); fotos de bocas que fazem bicos – Certas manias eu não consigo entender a razão epistemológica, mas prossigamos... Fotos de curvas, curvas, curvas. Fico de mocotó doído de tanto caminhar pelas fotografias que me enviam, gratuitamente. O curioso é que o rosto, espelho da alma, ganhou caráter secundário. Entramos no permanente período do defeso do camarão, arranca-se a cabeça e... Se eu gosto, se vejo, se pego réguas para medir tamanho de algumas curvas? Sim, claro! Os ‘mocotozinhos’ evoluíram, as academias fitness estão de parabéns!

Entre a saudade do meu avô e a necessidade de manter-me um homem moderno, vou futricando algumas imagens que aparecem no Facebook, no Instagram, no Snapchat... Mais alguma aldeia como sugestão? Eu só conheço esses nichos, pois os homens de mais idade andam mais lentamente no desfrute das inovações tecnológicas, via de regra. Agora mesmo, sem muita pretensão, acabei de baixar para a galeria do meu celular uma foto linda, de uma moça de Baby Doll. Estava até pensando em enviar para alguns amigos, falar que é minha amiga, que ela mandou para mim com ar de flerte, mas existe um problema mundial, que é comum a todas as ilhas, em todos os tempos, desde as cavernas: a voz. Explico: enquanto olhava as fotografias e as baixava, ouvi, atrás de mim, uma voz retumbante:

– De quem é essa foto mesmo?

– De uma amiga, meu amor!

O homem sábio ri de si mesmo. O homem tolo, dos outros.

Nijair Araújo Pinto
Enviado por Nijair Araújo Pinto em 12/05/2018
Código do texto: T6334549
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