A JOVEM GUARDA

“O futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada”. A essa frase de Lênin se atribui o motivo do nome dado ao movimento musical e comportamental, liderado por Roberto Carlos, na década de sessenta. Tudo começou em 1965, com o programa de televisão que recebia esse título, realizado nos domingos à tarde no auditório da Record, em São Paulo. Era visto ao vivo pelos paulistas e assistido dias depois em vídeo tape nas demais capitais do país. Apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, o programa obteve tanto sucesso que se transformou num fenômeno nacional.

Influenciados pelo rock britânico e norte americano da época, os artistas que fizeram parte desse novo momento da música brasileira, fugiam ao estilo da bossa nova e das canções cujas letras tinham mensagens de protesto à ditadura militar. Por isso eram classificados, pelo público engajado politicamente, como jovens alienados, despreocupados com os problemas sociais do país. As letras continham uma linguagem que explorava temas românticos e açucarados, adotando gírias que viriam a se incorporar ao vocabulário da juventude.

Era também conhecido como “iê-iê-iê”, tendo Roberto Carlos como a maior expressão, considerado inclusive como o “rei” da juventude. O programa formatou o comportamento social daquela geração, definindo nova forma de se vestir e de apresentação pessoal. Calças coladas com boca de sino, blusões de couro, cintos largos e coloridos, anéis de tamanho grande, botas de salto alto, compunham a indumentária masculina. O “look” feminino passou a ser mais ousado, livre, inovador, abandonando o estilo clássico: minissaia ou saia rodada, botas de cano longo ou sapato tipo boneca, vestido curto com estampa chamativa, óculos gatinho, acessórios grandes e excêntricos. O visual masculino adotou cabelos compridos e costeletas grandes, e o feminino cabelos com volume no topo ou rabo de cavalo.

A era da Jovem Guarda revelou nomes como Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Ronnie Von, Paulo Sérgio, Ed Wilson, Martinha, Vanusa, Rosemary, Cely Campelo, Leno e Lilian, entre outros. Novas bandas e grupos musicais apareceram, introduzindo o uso da guitarra elétrica no lugar do violão e o órgão eletrônico substituindo o piano: The Fevers, Renato e Seus Blue Caps, Os Vips, Golden Boys, Os Incríveis, etc.

Embora sofrendo um forte patrulhamento ideológico de setores da esquerda, a Jovem Guarda marcou época, promovendo uma verdadeira revolução entre os adolescentes, rompendo com padrões morais até então consolidados. Afirmou-se um processo de transformação nas atitudes da juventude, cujas posturas passaram a ser pautadas num espírito de independência, quebrando paradigmas e rompendo costumes conservadores.

A modernização sonora introduzida pela Jovem Guarda influenciou o Tropicalismo que surgiria poucos anos mais tarde. As suas baladas românticas ensejaram o aparecimento da música brega, tipo Reginaldo Rossi e Adilson Ramos. O pop-rock da atualidade foi buscar nesse movimento da música brasileira, inspiração para impor renovação na produção artística do gênero, agora menos ingênuo e mais comprometido com os aspectos sociais e políticos contemporâneos. Não podemos, então, deixar de reconhecer o importante legado que a Jovem Guarda deixou para a música popular brasileira.

Tenho saudades desse tempo.

• Integra a série de textos do livro “INVENTÁRIO DO TEMPO II”, em construção.

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Rui Leitão
Enviado por Rui Leitão em 14/12/2017
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