Sobre Autocrítica e reflexão
Refletir é um estudo poderoso e rico, mas isso para quem sabe sondar-se. É rara a vida de quem se mantém em ordem com seus pensamentos e autocrítica. Mais rara ainda é a vida de quem sabe se domar até mesmo privadamente. Cada um de nós pode tomar parte em uma comédia e representar no palco da vida um personagem honesto; mas ser reto interiormente e no peito, onde tudo nos é lícito, onde tudo é secreto, esse é o ponto.
Por muitos anos apliquei-me com vigor a certos exercícios de autoconhecimento, ocupando-me a refletir sobre a ligação de meu passado com o meu futuro e obtive mais confusões que certezas acerca de minha pessoa. Ora, o exercício feito por mim tinha três etapas: alimentar os pensamentos com ideias filosóficas, sondar as lembranças e projetar o futuro. Contudo, advirto, não há ocupação mais inútil do que sondar-se, nem mais solitária, entretanto, dependendo da alma, disso podemos tirar proveito, ou tão somente problemas e depressão. Como a vida é um movimento desigual, irregular e multiforme; tenho agora outras necessidades a suprir e um outro exercício a fazer, ou seja, ser no meu exterior o que sou no meu interior.
Nada contribuirá mais para tornar um espírito falso, obscuro, confuso, incerto, do que o olhar e as considerações de nossos parentes. Para os textos bíblicos o profeta (aquele que revela a verdade) não é bem aceito em sua pátria, quiçá também nós, junto aos colegas de trabalho e amigos de lazer, os vizinhos e os de nossa casa, que nas ações habituais, onde não temos de nos explicar, descrevem melhor nossos defeitos que nossas virtudes, pois é com nossos íntimos que as ações agem sem reflexão e autocrítica. Nesse ponto, Montaigne, descreve uma excelente situação familiar ao citar Júlio Druso que respondeu aos trabalhadores que lhe propuseram, por três mil escudos, colocar sua casa em tal estado que os vizinhos não mais teriam a vista que tinham dela. Júlio Druso disse-lhes então: “Dar-vos-ei seis mil, se fizerem que todos a vejam de todas as partes”. Esse episódio parece-se com o hábito de antigos e fiéis religiosos que, viajando, alojavam-se nas igrejas, para que o povo e mesmo o seu Deus perscrutassem suas ações privadas. Alguns foram miraculosamente admirados por quem os seguia. Poucos de nós, porém, somos admirados pelos de nossa casa. Isso se deve porque nesse ambiente nossos defeitos se mostram com mais clarividência que nossas qualidades. Comigo por exemplo, em minha região no Norte de Minas, acham esquisito ver-me dando entrevista sobre meus livros na televisão. Na medida em que o conhecimento que tomam de mim vai se afastando de minha casa parental, valho tanto mais. Em Montes Claros pago para lerem meus livros, alhures me pagam para escrever. Nessa particularidade baseiam-se os que se escondem, vivos e presentes, como o compositor João Gilberto, para obter renome junto aos seus, em sua ausência.
Tenho a sorte de ter amizades raras e refinadas que sabem me elogiar e criticar quando mereço, sei que quando quero, dificilmente deixo-me abater pelo que pensam de mim, mas há pessoas que são cativas deste sentimento, sem ter um amigo que lhes empreste opinião sincera sobre seu estado ou defeitos, comportam-se sem autocrítica, tornando-se o mais das vezes inconvenientes.
Comparo a reflexão à autocrítica, pois estas são as duas coisas mais profundas deste nosso mundo rasteiro. Podemos incluir na rubrica da reflexão os pensamentos que nos assaltam, a escolha das virtudes ou luxurias. Outras reflexões somos forçados a recorrer quando doentes, para abreviarmos a dor da vida, na esperança de prolongá-la. São compreendidas na forma da autocrítica todas as declarações relatadas pela convivência. Mas a autocrítica, que reúne todos os sentidos do corpo de volta para si, é dádiva da imaginação e talvez seja esta a razão por que, em numerosas pessoas, esse sentimento não passa de um avaliar-se sem a opinião de outros.
Sendo assim, peço então, à sorte, uma oportunidade de refletir, o que já foi pra mim um estado mais valioso, e agir, com autocrítica. Eu que nunca fui por natureza cauteloso em comunicar-me, também não quero sê-lo ao agir. E quem, como eu, tem por finalidade a autocrítica e é muito criticado pelos seus, deve entender dessas dificuldades e suscetibilidades que transcrevo.