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Jesus Cristo e Papai Noel

JESUS CRISTO E PAPAI NOEL
Miguel Carqueija

A mais bela história do mundo. A mais bela história real do mundo. Um Deus que, apesar da sua divindade, é humilde o bastante para se aniquilar e descer à Terra (a Terra dos homens, como diz Antoine de Saint-Exupèry) em forma humana, como um simples bebê, singelo, indefeso e inofensivo, com todas as limitações de um bebê, que precisa ser protegido, abrigado e alimentado.
O Verbo Encarnado, ou seja, a Palavra Eterna de Deus, indivisivel do próprio Deus Criador e seu Amor (o Espírito Santo). A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. O que os homens perderam com o pecado dos Primeiros Pais (Adão e Eva), ou seja, a graça original, recebeu, pela generosidade divina, uma compensação infinita: pois Jesus veio para nos resgatar da culpa original que não foi herdada pelos descendentes de Adão e Eva, mas acarretou nesta descendência a ausência das prerrogativas originais. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Em outras palavras, Cristo veio oferecer aos humanos uma graça que nem Adão e Eva haviam recebido no Paraíso.
O Presépio, cuja representação iconográfica e teatral foi criada por São Francisco de Assis, é inolvidável, é a substância do Natal. Pois Natal quer dizer natividade, nascimento, e se refere a Jesus. O Menino Deus. E à sua volta Maria e José, e os animais, os pastores, os anjos. E uma estrela que deveria ser um anjo de luz. E ainda os magos que vieram da Pérsia, que segundo a Tradição também eram reis.
Ora bem, onde está Jesus no Natal como é comemorado na sociedade moderna?
Aqui no Rio de Janeiro vemos uma amostra do que sucede pelo país e pelo mundo. Muitas vezes, um silêncio mortal sobre a origem cristã do Natal. Por toda a parte, nos escritórios, nas lojas, nas repartições, nas casas, as decorações natalinas: bolas coloridas, árvores, presentes, pisca-pisca, guirlandas, e dominando tudo, mormente nos grandes magazines, a figura exótica do Papai Noel.
Sim, eu sei que se alega uma origem cristã a essa figura fantástica. Ele seria uma corruptela de São Nicolau, um bispo da Lícia (hoje Turquia) que viveu nos séculos 3 e 4 e ficou conhecido por sua bondade e suas ações em favor de crianças e pessoas necessitadas. Porém existem obviamente outros elementos, como os gnomos ou elfos que ajudam o Papai Noel (ou Pai Natal, como se diz em Portugal).
De qualquer modo, como é que de uma região do Oriente Médio passou-se para a Lapônia ou o Pólo Norte, para regiões de frio extremo? Em seu visual o Papai Noel não faz lembrar nenhum bispo dos primórdios da Igreja Católica. Ele é uma figura altamente absurda, mesmo nos moldes da fábula e da fantasia. Primeiramente, é um ser aparentemente imortal, e dotado de poderes mágicos mal explicados. As suas renas voam mesmo sem asas. E transportam o “bom velhinho” num trenó carregado com presentes. Ele se veste com roupa polar, mesmo que tenha de passar pelo mundo inteiro numa só noite. O trenó com as renas pousa nos telhados das residências, daí o Papai Noel desce pela chaminé com seu saco, e deixa os presentes para as crianças da casa, junto à lareira. Depois sobe de novo pela chaminé.
E eu, em criança, mesmo no tempo em que acreditava no mito, ficava perplexo: chaminé? Onde existem casas com chaminés? Essas características foram desenvolvidas nos Estados Unidos no século 19, e até a Coca-Cola tem alguma coisa a ver com isso.
Não sou tão radical que não possa achar graça em histórias que utilizem esse personagem, restrições à parte. Em criança li muito a revista Mindinho, da EBAL, que trazia as aventuras do Pernalonga e sua turma e alguns personagens que não faziam parte dessa turma, como Laura Jane e Tiquinho. Pois bem, pelo Natal saía o Almanaque de Mindinho, uma edição gigante com mais histórias e de teor natalino. E aí aparecia até o Papai Noel como personagem, interagindo com o Pernalonga, o Gaguinho e outras figuras. E era divertido ver o Papai Noel em dificuldades e o Pernalonga tendo que interferir nos acontecimentos.
Mas convenhamos: tudo o que é demais enjoa. Hoje em dia, desculpem-me as pessoas que acham essa figura válida, mas o Papai Noel já encheu o saco. Ele se tornou um usurpador do Natal, um estímulo subliminar ao consumismo. Estimula as crianças a serem gananciosas. “O que você vai pedir (sic) a Papai Noel?”
E em toda parte bonecos e adesivos de Papai Noel, e o que menos se vê (a não ser nas igrejas) é o Presépio. O Aniversariante é esquecido. Apesar das origens cristãs, hoje Noel paganiza o Natal. Ainda lembro daquele repulsivo especial dos Flintstones, que por serem da pré-história não poderiam comemorar o Natal, pois Cristo ainda não viera; mas lá estava o Fred Flintstone bancando Papai Noel. E o “feliz Natal” torna-se vazio, pois sem fundamento espiritual; é apenas uma data para cumprimentos, presentes e Papai Noel.
Agora, como se não bastasse o velhinho, acrescentaram á decoração o boneco de neve, certamente por lembrar a região gelada de onde vem o Papai Noel. E o boneco de neve tem menos ainda a ver com a raiz do Natal. Afinal, a Palestina é uma terra quente.
Os pais não deveriam mentir para as crianças. “Ah, mas é para estimular a fantasia das crianças”. Elas podem aprender contos de fadas, onde aliás esse personagem não aparece; mas não deveriam ficar ignorantes do sentido cristão do Natal. Muitos pais que enganam seus filhos com Papai Noel, ensinando-os a ter olho grande, nem falam de Jesus nem ensinal religião aos filhos. Papai Noel acaba sendo um símbolo do materialismo consumista.
Sim, é preciso um pouco de coragem para falar contra esse “monstro sagrado”. Eu não aprecio nem aquele “Oh! Oh! Oh!”. E a exploração comercial é inegável. Há pelo mundo afora um gigantesco esforço para que Jesus seja esquecido, e nessa conspiração contra o sagrado o Papai Noel é uma arma poderosa.
E que dizer das crianças mais pobres, cujos pais às vezes nem comida têm em casa, que dirá dinheiro para comprar presentes? O que pensarão sabendo que o “bom velhinho” presenteia crianças mais favorecidas, mas não a elas?

Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2020.

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Miguel Carqueija
Enviado por Miguel Carqueija em 25/12/2020
Código do texto: T7143448
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Miguel Carqueija
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 72 anos
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Miguel Carqueija