No Meio do Inverno Sombrio

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.” - Salmos 23.4

Deus, no Salmo 23, é retratado como um pastor que gentilmente alimenta, protege e conduz seu rebanho (MACMILLAN, 1988). Para Macmillan, o “vale da sombra da morte" não é necessariamente a morte em si, mas um caminho de tragédia, dilema, tristeza, pesar, miséria e/ou perda. Em Jesus Cristo, Deus se fez presente conosco no vale da sombra da morte de uma maneira tão profunda que o salmista dificilmente seria capaz de imaginar: Deus se entristeceu, Deus sofreu, Deus sentiu dor, Deus chorou e Deus morreu.

Ele foi até o fim do vale conosco, e foi ali que Ele derrotou “os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” (Colossenses 2.15). “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2.14-15).

É por causa dessa identificação de Cristo com o nosso sofrimento que nós nos identificamos com Ele em Sua vitória e derrotamos, Nele, as forças do mal. Nas palavras de Poythress (2018), nós não lutamos por nosso próprio poder, mas com base na vitória de Cristo e com o poder do Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo. Em um sentido amplo, nossa própria guerra espiritual é uma manifestação de Deus, o guerreiro, lutando conosco e em nós pelo poder do Espírito Santo.

O vale da sombra da morte não deveria existir. A morte não deveria existir, nem tragédia, tristeza, pesar ou miséria. Isso tudo é consequência do pecado, e são, em parte, testemunhas da seriedade da justiça de Deus, que pronunciou a maldição contra pecado. Mas Ele não abandona a nós, que somos suas ovelhas, à mercê do arbítrio do caos e da morte. Ele caminha conosco no meio do inverno sombrio. Aliás, mais do que isso, Jesus caminha na nossa frente, desbravando o caminho, sofrendo primeiro – ontologicamente falando – do que nós.

As forças das trevas muitas vezes usam o nosso sofrimento para tentar enfraquecer nossa fé. Nós, entretanto, devemos nos armar desse pensamento de que Cristo caminhou o caminho da sombra da morte antes de nós para fortalecer nossa mente e, ao contrário, tornar nossa esperança mais forte, já que a experiência produz esperança (Romanos 5.3-4), de modo que ter a consciência da presença de Cristo, pela fé, no nosso sofrimento presente vai tornar mais fácil para nós acreditar nessa presença no nosso sofrimento futuro, no meio do inverno sombrio.

BOSCH, D. Transforming mission: paradigm shifts in theology of mission. New York: Orbis Books, 2011.

MACMILLAN, J.. The Lord of shepherd. Bryntirion: Evangelical Press of Wales, 1988.

POYTHRESS, Vern S. Theophany: a biblical theology of God's appearing. Crossway, 2018. Disponível: <https://frame-poythress.org/wp-content/uploads/2019/01/PoythressVernTheophanyABiblicalTheologyOfGodsAppearing.pdf>.