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Por que deixei de ser evangélica


“A fé que deveria ser vivenciada com mais sobriedade torna-se um remédio para todas as dores da vida, carregada de superstição e negando, muitas vezes, a nossa responsabilidade em relação à vida, a nossa necessidade de lutarmos por aquilo que acreditamos.”
Anônimo
“Quem estuda, sabe. Quem não estuda, acredita”
Rivanildo Menezes, do canal Originais gregos da Bíblia

Eu fui evangélica, principalmente por influência de minha mãe, que foi criada numa família evangélica. Lembro que assistia muito a programas evangélicos, em que pessoas davam depoimentos dizendo como “Jesus tinha transformado suas vidas.” Muitas diziam que estavam com suas famílias destruídas, com doenças terminais, mergulhadas em vícios, perversões sexuais e era realmente comovente ouvi-las falar de que forma elas tinham tido suas vidas restauradas e agora viviam “apenas para Cristo.”
Com o tempo, mãe me convenceu a frequentar e eu passei a ir à igreja presbiteriana Renascer e à Congregacional. Muitos eram os que davam depoimentos e os pastores davam maravilhosos sermões de como “Deus nos daria a vitória”, faria milagres em nossas vidas e tudo o mais. Também era bastante empolgante ouvir os que cantavam hinos, especialmente os de Aline Barros, Cassiane, Melissa e André Valadão.
Era comum que dissessem a esse ou aquele fiel que “Deus tinha grandes planos na sua vida” e uma vez um pregador, que havia sido presidiário e falava de como Cristo o resgatara da vida como traficante de drogas, acordando-o para a verdade e o amor e o curara de um câncer na região anal, apontou-me e falou que seriam feitas maravilhas em minha vida. Mãe se empolgou bastante, dizendo-me que eu deveria ter fé para receber minha bênção.
Entretanto, com o tempo, fui vendo que havia coisas que não encaixavam. Primeiro: eu só via maravilhas ocorrendo nas vidas das pessoas que davam depoimentos nos programas evangélicos de televisão ou nas que iam dar testemunhos nos cultos. Nunca nada ocorreu na minha vida ou na de outra pessoa que eu conhecia. Há uma senhora, que conheceu minha mãe desde criança, cuja vida jamais mudou em nada. Ela anda com a Bíblia debaixo do braço (embora seja analfabeta), crê que houve um Dilúvio universal mas a vida dela é praticamente a mesma há anos. Aliás, o Jesus que resgatou muitos das drogas e álcool jamais resgatou o filho dela do alcoolismo. Além dessa senhora, muitas pessoas que frequentam esses cultos há anos nunca viram nada acontecer em suas vidas em vinte ou trinta anos. Em alguns casos, suas vidas pioraram. Várias se divorciaram, viram seus filhos se perderem para as drogas. Entretanto, elas nunca contestaram e falam que “Deus lhes dá forças.”
É frequente que os pastores, quando falamos sobre problemas familiares que enfrentamos, aconselhem-nos a orar para que “Jesus toque o coração daquela pessoa”, caso seja um marido violento, pai abusivo, filho problemático e por aí vai. Porém, muitas são as pessoas que oram há anos e os comportamentos daquelas pessoas que estão errados em nada mudam. Então, diz-se que “Deus não pode desrespeitar o livre arbítrio”. Como vemos, prometem uma coisa e a realidade é outra.
Os próprios pastores, que oram pelas famílias, têm suas famílias desestruturadas. São diversos os episódios de pastores que traem ou abandonam suas esposas, têm filhos drogados ou  até abusam de fiéis. E, embora seja muito falado por fiéis que “Jesus restaura famílias” e até “cura” homossexuais, só vemos esses milagres mesmo em depoimentos. Uma evangélica que conheço me falou sobre um transexual que, segundo ela, tinha seios e até Aids a quem Jesus teria resgatado. Entretanto, como há pastores que têm filhos homossexuais ou até se revelam homossexuais? Houve o caso de um que a mulher o deixou por outra mulher. E muitos homossexuais dizem que há anos oram para que Deus os cure, sem que consigam se curar de sua “doença”, que é vista como uma abominação. Conheço a história de um rapaz transexual que me contou que a mãe dele, que frequenta a Assembleia de Deus, levou-o a um pastor que disse que ele tinha dez demônios dentro dele. Ele falou que foi horrível a experiência de ser exorcizado.
Falando-se em exorcismo, eles culpam o demônio por tudo e acham que tudo que não for conforme o que pregam é do demônio. Quando falei sobre um pai que maltratava a esposa e os filhos, duas fiéis  me disseram que isso não era ele, mas o demônio. Ou seja, uma pessoa nunca é responsável por seus atos. Temos até a impressão que isso deveria servir de prova num tribunal quando alguém cometesse um assassinato, já que ninguém age por si, mas sob “influência do demônio.” A mesma evangélica que me falou do transexual era contra ouvir rock. De acordo com ela, cada música de rock tinha um “diabo escondido” e  essa era a razão pela qual o Cazuza teria morrido de Aids. Eu cheguei a contestar, falando que ele contraíra Aids porque tinha uma vida sexual irresponsável. Parece que ouvir música ou ler livros que não sejam do nicho evangélico é um pecado grave. Fui muito criticada por ler livros e assistir a filmes de terror e me aconselharam muito a deixar de ouvir Legião Urbana e Evanescence, como se essas músicas fossem amaldiçoadas. Muitos são os dizem  que só leem a Bíblia. Mesmo assim, dá-se para notar que esses que só têm a Bíblia como livro não a conhecem bem, pois não conhecem suas contradições e não gostam quando damos exemplos da crueldade de Javé no Antigo Testamento.
Desenhos animados, Disney e musicas são alvo dos evangélicos, que falam que tudo é o demônio. Dizem que Walt Disney, cantores, artistas e atores famosos têm pacto com o demônio para fazer sucesso e muitos supostos ex-bruxos satanistas que dão depoimentos falam de como políticos e empresários fizeram pacto com o diabo para enriquecer e ter sucesso. Mas a Disney é o alvo preferido. Eles chegam a confundir o Hades (do desenho Hércules) com o Satanás. Um pastor falou que Pocahontas(outro desenho Disney) significaria “espírito do abismo”. Eu cheguei a explicar a ele que Pocahontas não é isso, pois foi uma personagem real da história norte-americana(qualquer um que pesquise no Google logo saberá) e o significado do nome é “pequena travessa”. O pastor porém falou no hábito dos índios de chamar os mortos e, quando falei que era cultural, ele explicou que o fato deles ignorarem não os salvaria do julgamento de Deus. Isso me pareceu injusto. Se eles não sabiam quem era Cristo, não podiam ser condenados só por ignorância. O próprio Sam Harris fala como é absurdo um criminoso que se converte à hora da morte e se salvar enquanto alguém, mesmo sendo bom, só por não ter aceitado  Jesus, ser condenado.
Também só vemos pessoas possuídas e sendo exorcizadas nas igrejas evangélicas. Isso jamais é visto em igrejas católicas. Vemos muito os pastores orarem pela saúde dos fiéis, porém, nunca soube de um fiel( a não ser nos já falados testemunhos) que tenha se curado de câncer ou outra doença grave apenas por oração. Por que nunca vemos um pastor ir a esses hospitais com corredores cheios de doentes para curá-los? Jesus teria dito que quem cresse nEle faria maravilhas. Mas não vemos nenhum pastor ou pessoa cheia de fé curando alguém apenas pela fé. Não se sabe de nenhum paralítico que tenha voltado a andar, surdo ou mudo que tenha passado a ouvir ou falar ou pessoa que tenha se curado de esclerose múltipla, Alzheimer, Aids ou Parkinson. E o Jesus que curou cegos de nascença, por sinal, não cura ninguém de uma simples miopia. Eu digo isto porque orei por anos para me curar da minha. Ainda lembro de ter ouvido um ex-evangélico dizendo que o Deus que cura cegos hoje não cura ninguém de uma catarata.
Fala-se em demasia de como Deus transforma o coração das pessoas. Todavia, eu pude ver que tantas pessoas, sendo evangélicas desde pequenas ou tendo se convertido, não são melhores do que as que não o são. Várias são preconceituosas, invejosas, superficiais e maledicentes, cheias de vaidades, achando que já foram salvas, que sabem de tudo. Converter-se não torna ninguém uma pessoa melhor. Mas, nos programas evangélicos, temos a impressão de que qualquer pessoa, que não seja evangélica, só anda no caminho errado. Comecei a contestar isso ao ver que muitos ateus, agnósticos, pessoas de outro credo ou que apenas não seguem nenhuma religião não são necessariamente pessoas que andam no caminho errado. A grande maioria tem uma boa vida familiar, trabalha, vive de forma honesta e não faz mal a ninguém. Só que dizer isso a evangélicos parece ofensivo. Eles respondem que de nada adianta nossa vida estar boa se não temos Jesus. Só o caminho deles é o correto.
Quando não vemos nenhuma promessa se realizar na nossa vida, logo surgem as justificativas, que nunca variam e são sempre superficiais: “tudo é só no tempo de Deus”; “isso é Deus testando sua fé”, “talvez o que você queira não esteja nos planos de Deus.” ou então: “as coisas são mais difíceis para as pessoas de Deus”. Eu aceitei isso por um tempo, embora algo dentro de mim me dissesse que isso não era satisfatório. Hoje, entendo que, se não sei, tais pessoas também não sabem. Elas agem como se tivessem ligação direta com Deus, porém vemos que não se aprofundam em nada, apenas vão logo dizendo verdades como se pudessem explicar tudo. Lembro bem de quando me irritei com uma cabeleireira quando ela falou que um amigo meu que tinha cometido suicídio estava no inferno. Eu odiei porque, se temos de entender o ato que uma pessoa comete na loucura da dor, que Deus, supostamente tão perfeito e acima das imperfeições humanas, seria tão insensível a ponto de condenar alguém eternamente por um ato impensado que ela cometeu contra si mesma?
Na verdade, o que esses pastores pregam acaba por prejudicar nosso discernimento. Ficamos presos numa ilusão de que um dia ocorrerão os milagres que “Deus prometeu”, vemos o tempo passando e, muitas vezes, por nos focalizarmos demais só nessas promessas, deixamos de fazer logo algo que poderia resolver nossas vidas. Sejamos francos: alguma vez, alguém viu sua vida mudar por milagre? Não, nenhuma mudança veio de repente, mas foi sempre o fruto de um processo longo e sofrido. E tudo isso contesta o que afirmam de que “as coisas virão no tempo de Deus”. Se não corrermos atrás de nada, nunca chegará o tempo de conseguirmos um emprego. Orar e não entregar currículos ou fazer concursos não adiantará de nada pois empregos não caem do céu, não vêm embrulhados em pacote. Nesses templos, eles passam a imagem de Deus como a de um gênio da lâmpada ou a de um Papai Noel, que, na hora certa(que talvez nunca venha) aparecerá trazendo o tempo de bonanças. Errado. Sabemos bem que enfrentaremos problemas nossa vida inteira. Conseguir  o que queremos também não traz felicidade. Muitos ex-crentes disseram que viram pessoas que morreram sem que nada mudasse em suas vidas. As coisas mais importantes em nossas vidas vêm após muito esforço.
Sair desta ilusão foi muito difícil e sofrido. Quando eu estava cansada de esperar milagres, ouvia mãe dizer que eu tinha que ter fé, que eu não estava acreditando nas bênçãos que viriam. Eu acabava me sentindo culpada por duvidar. Mas  Nenhuma bênção  veio. Nada do que aquele pregador disse que me aconteceria aconteceu. E, por ter dado ouvidos ao que me disseram, deixei de fazer coisas que poderiam ter melhorado antes minha vida. Disseram-me para esperar o “tempo de Deus”. Quando esse tempo chegará? Nunca. Sei que, se algo ocorrer na minha vida, terei sido  eu  que fiz com que acontecesse.
Esse Deus de milagres pregado nesses templos só muda a vida dos pastores, assim como os livros de autoajuda só ajudam as pessoas que os escrevem. Infelizmente, ainda vemos pessoas tolas que estão presas debaixo dessa redoma.
Maria Cândida Vieira
Enviado por Maria Cândida Vieira em 11/02/2019
Código do texto: T6572220
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Cândida Vieira
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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Maria Cândida Vieira