OS IDIOTAS FUNDAMENTAIS

 

Em 27 de fevereiro de 1933 o prédio do Parlamento alemão, em Berlim, foi incendiado. O governo encabeçado por Adolph Hitler, recém-empossado, mais que depressa se aproveitou do infausto para tirar dele dividendos políticos. Dentro do prédio em chamas a polícia havia prendido um jovem holandês chamado Marinus van der Lubbe. Ele era militante do Partido Comunista. Logo se verificou que o rapaz tinha problemas mentais, mas para os nazistas o fato de ele ser ligado ao movimento comunista alemão era mais importante. E logo Hitler e seus capangas transformaram o episódio em um fato político de larga repercussão, que muito serviu aos propósitos nazistas para a tomada do poder. O resultado dessa farsa todo mundo conhece: 50 milhões de mortos em uma guerra mundial.

Em 6 de setembro de 2018 o então deputado federal Jair Bolsonaro foi atacado em Juiz de Fora, Minas Gerais, durante um comício em que fazia sua campanha para a. presidência. Em meio à uma multidão de apoiadores, ele sofreu um golpe de faca na região do abdome, desferido por Adélio Bispo de Oliveira. Logo se aventou a hipótese de que o agressor fosse ligado a alguma agremiação partidária avessa às ideias pregadas por Bolsonaro, favoráveis à uma volta aos dias da ditadura militar que governara o país entre 1964 e 1985.

Mais tarde se comprovou que o agressor era portador de problemas mentais e que agira sozinho em seu tresloucado ato. Mas isso não contentou as hostes bolsonaristas, que até hoje insistem em ver uma conspiração comunista na origem do atentado.

Nietzsche e Nelson Rodrigues podem se dar as mãos, onde quer que estejam, para se cumprimentarem mutuamente por terem revelado duas verdades irrefutáveis. Nietzsche disse que a história se repete e Nelson Rodrigues que ela se vale de idiotas úteis que sempre aparecem quando deles se precisam. Por isso ele os chamou de fundamentais.

De fato, Hitler usou o idiota holandês para incutir no espírito do povo alemão o medo de que pudesse acontecer na Alemanha o mesmo que acontecera na Rússia vinte e poucos anos antes. E o povo alemão comprou o engodo, mergulhando o país no seu mais sinistro período histórico. Bolsonaro também se valeu do idiota de Juiz de Fora para alavancar sua candidatura ao Planalto. A facada que ele lhe deu foi mais eficaz que qualquer propaganda que seus marqueteiros pudessem inventar. Fez dele um mártir, que a gosto dos conservadores radicais e dos órfãos da ditadura se tornou o Messias prometido para restaurar o paraíso perdido.

No caso da Alemanha de Hitler havia um ambiente propício para a escalada nazista. Inflação corrosiva, descalabro econômico, desorganização política e o endêmico desespero de um povo em busca da autoestima perdida em uma guerra. No caso brasileiro o quadro não é tão desesperador assim, mas a simples possibilidade da volta do PT ao governo projeta um espectro sinistro que os bolsonaristas têm aproveitado bem para espalhar a sua campanha terrorista. Precisamos aprender com a História. Ela se repete sim, mas sempre num nível mais alto da espiral do tempo. E só quem não conseguiu se libertar do passado continua a repetir os mesmos erros. E mais que tudo, é preciso não deixar que a idiotice de alguns continue a ser fundamental.

 

 

 

 

 

 

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 03/07/2022
Reeditado em 04/07/2022
Código do texto: T7551388
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2022. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.