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Poço sem fundo

Não se pode mais dizer que "o Brasil chegou ao fundo do poço" como metáfora para a situação nacional. Pois como saber se já estamos de fato no fundo do poço? Como saber onde é o fundo ou se ele de fato existe? Creio que o Brasil, assim, encontra-se num "poço sem fundo" - eis a metáfora correta.

Pois, mesmo que não exista literalmente poço que seja infinito neste planeta, quando a profundidade é tamanha que não avistamos o seu fim, por ser abissal, aí podemos usar essa expressão, poço sem fundo. Não se sabe, pelo que se enxerga hoje, até onde chegará a decadência de nossa sociedade, em todos os sentidos. A vida e a democracia nunca estiveram tão achincalhadas, deturpadas e fragilizadas desde o sopro de vitalidade nacional que foi a Constituição Cidadã de 1988. E fiquemos aqui somente nesses dois aspectos, nem entremos na questão da economia, por exemplo.

“Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E, se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.” - filósofo Friedrich Nietzsche, em Além do bem e do mal. A sociedade brasileira está nessa situação, olhando para o abismo em que o país se encontra, parte dela lutando para sair dele e, pelo caminho, tenta não se barbarizar mais ainda do que já está - a charge de Tonho de Oliveira, acima, ilustra bem isso. O caso do Leite Moça é apenas um dos sintomas dessa decadência, embora seja bem exemplar do grau em que está nossa degeneração.

A fiscalização e a crítica a um governo eleito é um aspecto essencial de uma democracia em seu pleno funcionamento. O governo expressar seus pontos de vista, respondendo tais críticas, é outro. Entretanto, para que haja um debate democraticamente saudável na esfera pública e para que a política se dê sob parâmetros positivos para o desenvolvimento do espírito republicano de uma nação, ele deve ocorrer de forma respeitosa e honesta, dentro daquilo que o sociólogo Jürgen Habermas conceitua como Ação Comunicativa. Todavia, quando o chefe da nação se manifesta no espaço público, no seu direito e dever de responder a questões levantadas contra o seu governo, usando expressões como "enfiem no...", "essa por..." e "vão pra PQP", é porque essa vaca já foi para o abismo.

A falência da política é a guerra e esta é a morte da democracia em determinado período histórico, condição objetiva para que a banalidade do mal descrita pela cientista política Hannah Arendt seja gestada no ovo da serpente. Quando determinados grupos políticos sociais perdem primeiro o pudor e, logo a seguir, a compostura dentro da esfera pública, conspurcam-na. Isso, vindo de cima, de quem deveria manter a sensatez, o bom senso e o respeito na lida democrática pela própria liturgia do cargo que ocupa, mais do que conspurcá-la, corrompe-a e estimula, pelo mau exemplo, as pessoas a assim igualmente procederem, inviabilizando totalmente uma ação comunicativa saudável dentro do âmbito democrático da nação. Além de todo o horror vivido pelo Brasil nesta pandemia, mais isso, também.

Qual será o fundo do poço brasileiro? Acho muito difícil dizer o que pode acontecer daqui para a frente nesse país, tal o estado em que ele se encontra. Um agravamento maior da pandemia? Atitudes contra a democracia piores do que a recentemente patrocinada pelo ex-presidente estadunidense? Sabe-se lá!

O que sei é que se você olha pra tudo isso e pensa dar o troco na mesma moeda, o abismo já está te afetando; se tu olhas para tudo isso e acha que tá bom assim, já és parte do abismo.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 29/01/2021
Reeditado em 29/01/2021
Código do texto: T7171578
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 52 anos
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