PUTARIA E MÚSICA ELETRÔNICA: Combinação Clássica.
Os Elementos Dionisíacos e Sensuais da Música Eletrônica
A música eletrônica está muito associada aos elementos dionisíacos e sensuais, aos prazeres que a batida desperta, e, através disso, é frequentemente vinculada às drogas como o ecstasy, comuns nas festas e raves que intensificam a libido. Ela é profundamente ligada ao sexo, ao prazer e ao hedonismo. Talvez seja por isso que o funk carioca, surgido nos anos 80 e mais polarizado pela figura do DJ Marlboro nos anos 90, incorporou batidas de eletrônico, enquanto as letras faziam alusões ao sexo, sendo popularmente conhecido como “proibidão”, gênero que faz sucesso até hoje. Também nos anos 90, surgiu o melody funk, com DJs como Serginho e a presença marcante de Lacraia, que eram figuras constantes nos programas de auditório aos domingos.
Hoje, nas favelas, nas playlists do Spotify e nas pesquisas do IBGE, o funk é o som mais curtido entre os jovens, e suas letras exploram a promiscuidade, mas também simbolizam a emancipação do corpo feminino, com expressões como “meu corpo, minhas regras”. Elas falam de autoconfiança e liberdade, como em versos que celebram a ideia de “sentar e rebolar até o chão”, com mulheres usando calças legging e shorts colados. Piriguete passa frio, mas não coloca um casaquinho, como dizia uma amiga. Essas letras, recheadas de alusões ao sexo e jogos de duplo sentido, enaltecem o corpo feminino e, sem dúvida, promovem uma visão liberada da sexualidade. Contudo, é inegável que esse tipo de mensagem também tem gerado discussões sobre a sexualização precoce entre os jovens, o que ajuda a explicar o imenso sucesso do gênero entre a juventude.
O Verdadeiro Som Popular Brasileiro
A empáfia da MPB, representada por Caetano, reivindica o título de música popular brasileira, mas, na verdade, de popular não tem nada, sendo marcada pelo pedantismo e elitismo. A verdadeira música popular brasileira é o funk carioca, a pisadinha, o sertanejo universitário; todos esses estilos pegam emprestado elementos eletrônicos e sensualizam suas letras para instigar o desejo.
O Mito de Midas e o Combate entre Apolíneo e Dionisíaco
Para sofisticar a discussão, evoquemos o mito que legou o rei Midas, aquele do toque de ouro e agora das orelhas de asno. Midas era habitué e frequentador das festas das ninfas promovidas pelo deus Pã e pelo sábio Silênio, que foi o preceptor de Dionísio. Uma vez, Midas acolheu Dionísio em sua casa, tão bêbado estava, que em recompensa recebeu o toque de ouro. Pois bem, Pã era horrendo, muito feio, e dele deriva a palavra “pânico”. Certa vez, ele estava correndo atrás de uma bela ninfa chamada Sírinx. Ela, em virtude da feiúra dele, fugiu dele e acabou caindo de um penhasco. Da sua morte surgiu uma cana, da qual o deus Pã criou uma flauta que produzia um som gutural e lascivo, símbolo de desejo, talvez algo semelhante às batidas eletrônicas atuais.
Certo de seu talento e do poder da beleza dionísica da sua flauta, Pã desafiou o deus Apolo para um duelo. Apolo é o deus da harmonia, da música, e seu instrumento é a lira, simbolizando a forma perfeita, ideal, a beleza, o sonho. Aqui, temos o combate entre o apolíneo e o dionisíaco: a flauta gutural do deus Pã contra o lirismo da lira de Apolo. Foram convidados juízes, entre eles Midas, que foi o único a votar a favor da flauta de Pã. Como punição, Apolo lhe deu orelhas de asno, pois ele não sabia ouvir, o que tentou esconder com longos cabelos.
Um dia, Midas foi ao barbeiro. O barbeiro, incapaz de guardar o segredo, abriu um buraco na terra e gritou: “O rei Midas tem orelhas de asno, o rei Midas tem orelhas de asno!” Mas, com a chegada da primavera, as folhas romperam o buraco e o segredo eclodiu para toda a cidade ouvir: “O rei Midas tem orelhas de asno!”
Sírinx também ganhou uma homenagem na música clássica por Claude Debussy, compositor francês conhecido por Clair de Lune. Sim, cultura e putaria: a gente encontra por aqui na página de Dave Le Dave.
A Putaria na Música Eletrônica
Agora, voltemos ao tema central da putaria na música eletrônica, uma combinação que vai muito bem. Uma banda que se tornou cult no meio da música underground é o Lords of Acid. Trata-se de uma banda belga de música eletrônica formada em 1988 pelo produtor e DJ Praga Khan (Maurice Engelen). Conhecida por sua fusão ousada de acid house, techno e industrial, a banda ganhou notoriedade por suas letras explicitamente sexuais e sensuais, combinadas com batidas hipnóticas e uma estética provocativa. Seus shows, com garotas quase nuas, seios de fora, tapa-sexo, roupas de látex, thong, G-string, etc., ou seja, não poderia ser melhor. O som é dionisíaco e envolvente; é o sumo da putaria com música eletrônica.
Letras como “I Sit on Acid”, de 1991 – o maior ano da música e, quiçá, da história da humanidade – marcaram o nascimento de um mito: eu mesmo. A canção começa, e o refrão é, na verdade, a música toda, incluindo:
“Darling, come here, fuck me up the
(Querido, venha aqui, me foda - parece que ela vai falar ‘ear’, e para, ou seja, ouvido. Tipo, pela música, através da música.)
Sit on your face
(Sente-se no seu rosto.)
I wanna sit on your face
(Eu quero sentar na sua cara.)
Sit on your face
(Sente-se no seu rosto.)
I wanna sit on your face
(Eu quero sentar na sua cara.)
Sit on your face
(Sente-se no seu rosto.)
Sit on your face
A música mistura uma batida repetitiva dionisíaca, hipnótica e envolvente com gemidos e sussurros durante essa “letra”.
Outra canção provocativa da banda é chamada “Pussy”. Dispensa tradução e apresentação. Se eu fosse comentar a letra, daria um texto à parte.
A Vibração de Crabhouse
Minha música predileta é “Crabhouse”, cuja batida e ritmo lembram a música eletrônica inglesa do Prodigy ou os bons tempos dos Chemical Brothers, mas com uma letra versão over 18, com rimas quase de rap. Confesso que não escutei toda a discografia atentamente, disco por disco. Gosto da vibe, meio Prodigy, “What the Fuck!”, do álbum Pretty in Kink, de 2018, brincando com o clássico filme Pretty in Pink (dirigido por John Hughes e estrelado por Molly Ringwald). Mas “Kink” é uma fantasia em látex erótica, e a capa do disco mostra uma moça em uma banheira com um boneco inflável, invertendo a lógica de que é o homem que precisa de tal acessório. A letra da música é tão provocante quanto alternativa, a ponto de eu ter que capturá-la de ouvido, pois não encontrei em nenhum lugar. Ela diz:
What the fuck do you know about my age?
(Porra, o que você sabe sobre a minha idade?)
I’ve seen so much pussy rubber in my face.
(Eu vi tanto sexo esfregando na minha cara.)
Me and you are not on the same page.
(Eu e você não estamos na mesma página.)
If you would love the money, then I’m not amazed.
(Se você ama dinheiro, então não me impressiona.)
But what’s paper without a good piece of cake?
(Mas o que é grana sem um bom pedaço de bolo?)
Time to take this with a bang before it’s too late.
(É hora de aproveitar com uma boa trepada antes que seja tarde demais.)
Sex on the table, with your pussy on my face.
(Sexo na mesa, com sua buceta na minha cara.)
I’m so fucking insane.
(Eu sou insano pra caralho.)
Conclusão: A Música como Transgressão e Provocação
Em um universo musical onde a transgressão encontra a batida e o desejo é projetado na forma de sons, essas canções não buscam apenas entreter; elas provocam, incitam e desafiam. A música eletrônica, com suas raízes dionisíacas, serve como o canal perfeito para essa expressão sem amarras, onde o prazer e a provocação se encontram na fronteira do explícito e do simbólico. Da mesma forma que o funk carioca e a música pop desafiam as convenções sociais e falam diretamente aos desejos mais primitivos, artistas como Lords of Acid e outras bandas de estilo semelhante continuam a explorar a sexualidade, o corpo e os limites do prazer