OS POBRES - DE RAUL BRANDÃO

«Crítica literária primacial ao livro “OS POBRES”, de Maria Filomena Mónica»

É salutar e mais que justo – já que de justiça se trata – que se fale deste fenómeno tão chocante nos tempos de hoje, e de sempre, que é a pobreza generalizada de enorme faixa da população portuguesa e mundial.

Vem isto a propósito do recente livro de Filomena Mónica que, incongruentemente é portador de um título que viola, quanto a nós, os direitos de autor e patrimoniais no que concerne às tradicionais práticas legais da Literatura.

O título da obra “OS POBRES” é abusivo, dentro dos critérios acima expostos. É que este mesmo título e obra já existem na literatura portuguesa desde 1906, de autoria do conhecidíssimo escritor Raul Brandão.

Pois se a nenhum outro autor mediano se tolera tal facto porque será que em “autores de nomeada” esta lei fecha os olhos? Será que, como em tudo na vida, se processa nesta objectiva circunstância o ignóbil fadário de que haverá sempre filhos e enteados?

Não está aqui em causa a problemática tratada e as intenções da mensagem que se pretende passar que, quanto a nós, é sempre de valorizar mas, francamente, creio que deverão ser as entidades culturais e humanísticas as primeiras a cumprir tudo o que está recomendado na lei dos direitos de autor e patrimoniais.

Quanto ao presente livro, em si, não vejo que traga grandes nuances à forma como esta sensível problemática é tratada, a não ser o estilo literário (muito diferenciado) e as duas épocas em causa, estas sim, radicalmente distintas: duas confrontações que nenhum bom escritor, que se preze, deverá esquecer.

Relativamente ao título, estranhe-se que nos seus proémios não apareça nenhuma tomada de posição ou argumentação acerca da originalidade ou não da sua adopção … talvez intencional, mas que se justificaria plenamente já que a estatura dos autores o não dispensaria.

Quanto ao conceito de “os pobres” destaca a presente autora, na oitava secção deste seu livro – Os Pobres na Literatura e nas Artes – que Raul Brandão trata dos pobres como se eles fossem “fantasmas” ou “metáforas” e que, o que convém sublinhar, na sua opinião, é de que o fenómeno da pobreza é apenas, e só, totalmente real. Claro que concordo com esta sua análise – até La Palice concordaria – mas a autora está incorrendo num erro de anacronismo cultural denunciando, à evidência, uma certa antipatia quanto às qualidades literárias do enorme escritor que foi Raul Brandão.

Na mesma secção, de uma forma estranha, relativamente a outro livro de Raul Brandão O POBRE DE PEDIR, o qual refere estar mais de acordo com o fenómeno real da pobreza (será com a intenção de minimizar o homónimo OS POBRES?) referindo a este propósito: “o que atrai o escritor é mais uma vez o décor da miséria”. Não, nunca Raul Brandão – basta que se conheça na sua obra total e numa qualquer honesta biografia – incorreria nessa “baixeza” para tratar desumanamente tal fenómeno. Aconselho à nossa autora o rever atentamente em OS POBRES a conhecidíssima e ilustríssima «carta-prefácio» de Guerra Junqueiro!

Deixei para final deste artigo esta lamentável constatação de a escritora dizer que a ultimação da obra O POBRE DE PEDIR foi escrita em cima do seu leito de morte, que é como quem diz: o autor já não estaria nas suas melhores faculdades vitais. Ora isto é no mínimo deselegante e desprestigiante para quem tem tão valioso currículo. Por outro lado, e para terminar, relevo a monumental gralha quando diz que esta obra foi publicada em 1931 (o que é verdade) pela sua viúva Maria Evangelina. Ora como toda a gente sabe, ou nem toda, que esta digníssima escritora se chamou MARIA ANGELINA!

Outros pontos de vista, para já, tomo a hombridade de os não registar pois são contas de outro rosário.

Não quero deixar de passar esta ocasião para referir que se lamenta – neste ano dos cento e cinquenta anos do nascimento de Raul Brandão – que aconteçam estes “atentados” contra o bom nome e honra literária a que os autores e criadores portugueses têm direito e terão sempre na história da Cultura Portuguesa.

Assis Machado

machadofrassino@gmail.com

FRASSINO MACHADO
Enviado por FRASSINO MACHADO em 15/12/2016
Reeditado em 16/12/2016
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