TALVEZ...

“Talvez a felicidade / não possa ser descrita, dita /

cantada em prosa e verso.” (Pedro Du Bois)

É curioso o destino que a palavra Talvez recebe dos escritores. Eles misteriosamente optam pela multiplicação do silêncio, do que o multiplicar das páginas. Talvez... são dúvidas que abrem caminhos.

Algumas interpretações são inevitáveis na busca pelo reconhecimento da sua natureza, fazendo-as desvendar aos olhos do leitor.

“... Quem sou, quem és, quem somos nós / Neste Universo tão confuso e imaginário / Talvez um pedaço da natureza, não estamos sós.” (Carlos A. Lima Coelho)

“... talvez volte a si / em seus últimos instantes / mas seja tarde // talvez reaja antes / e consiga salvar-se / em cataclismo...” (Eduardo Barbosa)

“chuva e frio / talvez um vinho //: você ou um cobertor?” (Márcia Maia)

Talvez nem tenha nascido, / Dedica, pois, teus poemas. /

Não a datas, porém: / As almas não entendem disso...” (Mário Quintana)

“... Um dia impossível de escolhas. / Talvez um domingo chuvoso, abafado. /

Ou uma Sexta-Feira que me acordasse no Domingo...” (Carmen Sílvia Presotto)

“Talvez eu seja mesmo astuta e disso não sabia. Quem sabe, eu sabia de tudo e não dizia nada para não fazê-lo explodir no alto e esborrachar-se feito sapoti que cai do galho ou apagar-se em sua escuridão?” (Nilto Maciel)

“... Talvez porque ainda a amasse. Talvez. Como dói o indeciso tempo do “talvez”.

Pior que essa dor apenas a conformada certeza dos amores eternos”. (Mia Couto)

Entre múltiplas facetas, os escritores, na possibilidade da dúvida, falam da verdade, dos sentimentos que trazem harmonia e cria um estado próprio, eles assumem, em certos momentos, a tarefa de criar poeticamente e evidenciar a linguagem de si mesmos. É preciso lembrar que os poetas são capazes de fazer coincidir o discurso e o silêncio e, ao mesmo tempo, propiciar ao leitor conhecer as suas preferências, idiossincrasias e seus valores literários que marcam seus trajetos intelectuais e poéticos. Nesse movimento, encontro o livro TALVEZ..., de Lilian Hellman, onde se pode perceber que a verdade é o ponto de equilíbrio, permanecendo inalcançada e imbatível, como a vida. Ela costura as palavras, filosoficamente, de maneira encantadora e atrativa, relatando a história de Sara Cameron, com a intenção de talvez podermos compreender e reconhecer a verdade.

Talvez devêssemos reconhecer que são muitos os sentimentos presentes e que é difícil imaginar a vida sem talentos literários que personificam os personagens com os mistérios do homem. E o papel do escritor está consagrado na contribuição cultural, ao ir além, reforçando e transformando a verdade.

Talvez, o melhor para a nossa imaginação inquieta seja relembrarmos o poeta António Ramos Rosa: ”Deixe as palavras caírem / sobre o / chão / vazias / Talvez uma forma silenciosa / se liberte / Talvez elas repousem no espaço / Talvez melhor do que o / silêncio / nesta folha / Digam o que o silêncio quer dizer //Talvez nada se passe /

ou quase nada e isso seja o todo do que é / que nunca é.”