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Uma Breve História da Aids no Amazonas

Em 1981, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, localizado em Atlanta, na Geórgia, notificou que entre outubro de 1980 e maio de 1981, 5 homens jovens, todos homossexuais, foram diagnosticados com Pneumocistis Carinii, um tipo grave de pneumonia que atingia pessoas com o sistema imunológico debilitado (CDC, Pneumocystis pneumonia. Los Angeles. MMWR 1981;30:250-2). Pouco tempo depois surgiram casos de Sarcoma de Kaposi, um câncer de pele raro que geralmente acometia apenas idosos do Mediterrâneo e que existia de forma endêmica nas Áfricas Oriental e Central. Tinha início uma das epidemias mais mortais do século XX, a epidemia de Aids, como ficou conhecida a doença no ano seguinte (SIDA – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). O causador da síndrome, o vírus HIV, só foi descoberto entre 1983-1984.

Descobriu-se que a transmissão ocorria através do contato sexual e também pelo sangue. O pânico estava instalado. Qualquer sinal de cansaço, alguma mancha no corpo e dores estomacais eram motivos para uma ida ao médico, sempre se pensando no pior dos diagnósticos. Usar utensílios de portadores da doença, jamais, nem mesmo apertos de mão ou beijos. Enfermeiros e até mesmo médicos se recusavam a atendê-los, com medo de contaminar-se. A desinformação, por muito tempo, foi uma das faces da epidemia.

Como a maioria das vítimas eram homossexuais, a doença, nos primeiros anos, era pejorativamente conhecida como câncer gay ou praga gay. O termo Aids foi proposto depois que surgiram casos em usuários de drogas intravenosas, em hemofílicos, profissionais do sexo e heterossexuais. Mesmo assim, o estigma da doença recaiu sobre os homossexuais, que passaram a sofrer ainda mais com restrições e perseguições. Era comum serem publicadas em jornais matérias e charges os ridicularizando.

No Brasil os primeiros casos surgiram em 1982 no Estado de São Paulo (boletins médicos rastrearam um primeiro caso em 1980). Posteriormente foram identificados casos no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco etc. As medidas tomadas pelas autoridades públicas, naquele momento, foram mínimas. Como eram poucos os casos quando comparados aos de outros países, afirmava-se que a Aids não era prioridade, mas sim doenças como a dengue e a tuberculose e problemas sociais como a fome.

No entanto, em pouco tempo os casos aumentaram de forma assustadora, dobrando ou triplicando a cada ano. Se em 1982, ano do surgimento do primeiro caso no Brasil, haviam sido reportados apenas 10 casos, 3 anos depois, em 1985, eles já eram 573 (GALVÃO, 2002, p. 9-10). “Nesse ano, através da Portaria do Ministério da Saúde n° 236, de 02 de maio, são estabelecidas as diretrizes para o programa de controle da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, SIDA ou AIDS” (GALVÃO, 2001, p. 10). Tinha início a resposta brasileira à Aids.

As recomendações médicas se estenderam pelos jornais, revistas, televisão, rádio e outros meios de comunicação. Vejamos o que diz sobre a Aids e seus “grupos de risco” uma enciclopédia escolar brasileira de 1987:

“As pessoas que compõe os principais grupos de risco da doença são as seguintes:

– homossexuais e bissexuais masculinos;
– viciados em drogas;
– pessoas que recebem sangue contaminado;
– parceiros sexuais de qualquer pessoa de um dos grupos de risco;
– bebês, filhos de mulheres contaminadas.

Sintomas – Os principais sintomas são: caroços (gânglios) nas axilas, pescoço e virilha, manchas avermelhadas na pele, dores musculares, aumento do baço e do fígado.

A AIDS ainda não tem cura e por isso, recomenda-se a sua prevenção das seguintes maneiras:

– esterilização de qualquer material que entre em contato com o sangue (bisturis, lâminas de barbear etc);
– uso de seringas e agulhas descartáveis;
– fazer testes de detecção do vírus nos sangues usados em transfusões;
– evitar o uso de drogas;
– usar camisinha de Vênus (preservativo) nas relações sexuais;
– reduzir, ao mínimo, o número de parceiros sexuais” (Enciclopédia Pesquisando na Escola, 1987, p. 84).

O primeiro caso de Aids do Amazonas surgiu em 1986. A vítima era uma jovem manauara que tinha feito uma transfusão de sangue no Rio de Janeiro, pois era hemofílica, uma condição rara em mulheres (Jornal dos Sports, RJ, 21.07.1986). A hematologista Joyce A. Bizzacchi, em entrevista à Revista Superinteressante, explica que, para que uma mulher nasça com hemofilia

“[…] é necessário que a mãe seja portadora de um cromossomo deficiente e o pai hemofílico, também com o X alterado […] Se, na hora da fecundação, o cromossomo X defeituoso da mãe se une com o cromossomo X do pai, também anômalo, nascerá uma menina hemofílica” (Revista Superinteressante, 31/01/1994).

Antes desse primeiro caso, os jornais amazonenses já vinham noticiando a emergência dessa doença em outros países e Estados brasileiros. Por exemplo, em 1983 foi publicado na coluna científica do Jornal do Comércio o artigo ‘SIDA: A Nova Peste do Século’ (Jornal do Comércio, 09.10.1983). Acreditava-se, como mais tarde foi comprovado, que a doença em breve chegaria ao Estado do Amazonas.

Como foi mostrado no início, as autoridades públicas amazonenses consideravam que, por serem poucos os casos, a Aids “[…] era um problema menor entre outras doenças sanitárias, muito mais preocupantes”, declarou em entrevista o Diretor da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas na época (Diário do Amazonas, 08.03.1987 In KADRI; SCHWEICKARDT, 2016, p. 309). Com o avanço da epidemia, não tardou para que fossem tomadas as primeiras medidas de enfrentamento.

A Fundação Alfredo da Matta, localizada no bairro Cachoeirinha, foi a pioneira, em Manaus, no tratamento ambulatorial de pessoas infectadas pelo HIV. Os casos suspeitos eram encaminhados para o HEMOAM, onde eram realizados os testes de sorologia. Caso fosse necessária a internação, o hospital referência era o Hospital Universitário Getúlio Vargas, da Fundação Universidade do Amazonas (Jornal do Comércio, 04.10.1987). Em 1989 foi criado o Programa Estadual de DST e Aids. Para auxiliar o trabalho realizado na Fundação Alfredo da Mata, foi construída uma ala de isolamento para atender soropositivos na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (KADRI; SCHWEICKARDT, 2016, p. 310). Esta instituição tornou-se referência – e ainda é nos dias de hoje – no tratamento de pessoas infectadas pelo vírus HIV.

Na maioria das vezes essas duas instituições enfrentavam diferentes tipos de problemas, como os de ordem política, com a falta de verba para otimizar suas estruturas e expandir o atendimento aos soropositivos; e os logísticos, pois muitas vezes o Estado, pela distância, ficava de fora das campanhas nacionais de prevenção, mais focadas no eixo Sudeste-Sul.

Na primeira década da epidemia no Estado do Amazonas, isto é, de 1986 a 1996, foram registrados cerca de 380 casos de Aids, sendo a maior parte na capital (Vigilância Epidemiológica em HIV/Aids e Hepatites Virais). A doença mudou práticas e formas de sociabilidade. O preservativo, antes utilizado apenas por questões contraceptivas, passou a ser utilizado como proteção contra doenças venéreas. Casas de prostituição, da capital e do interior, viram sua clientela diminuir a cada dia.

A sociedade civil, com apoio por alguns profissionais da área da saúde, passou a organizar-se para auxiliar no combate à Aids no Amazonas. Em 01 de dezembro de 1989 é criado o Movimento de Luta Contra a Aids (AMAVIDA), a primeira ong amazonense contra a doença. A AMAVIDA, com apoio da Fundação Alfredo da Matta, tratava e orientava as profissionais do sexo da capital sobre como se prevenir. Em 20 de fevereiro de 1992 surge o Grupo Gay do Amazonas, que além de lutar pelos direitos dos homossexuais, promovia ações de prevenção entre o grupo. Posteriormente surge a ASAM, Associação dos Soropositivos do Amazonas. Em 2002, antigos membros da ASAM criam a Associação Katiró, que até hoje promove ações de combate, educação e assistência jurídica aos portadores de HIV do Amazonas. No mesmo período, em 1996, é criada, no interior da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, a Rede de Amizade e Solidariedade às Pessoas com HIV/AIDS (SCHWEICKARDT et al. 2017, p. 175-176). Em 1999 é criada a ong Associação de Apoio à Criança com HIV, Casa Vhida, contando com o apoio de profissionais do Instituto de Medicina Tropical do Amazonas.

Passados 38 anos do início da epidemia, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida permanece incurável. De 1986 a 2016 foram registrados 15.149 casos no Amazonas, sendo 12.179 em Manaus, 265 em Parintins, 248 em Tabatinga, 157 em Itacoatiara e 155 em Tefé (A Crítica, 24.05.2017). Felizmente, novos tratamentos permitem que as pessoas infectadas pelo vírus HIV vivam normalmente. As campanhas de educação e prevenção devem ser contínuas. Deve-se julgar menos e se colocar mais no lugar do outro, pois além do amparo físico, é necessário o amparo psicológico.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


CDC. Pneumocystis pneumonia. Los Angeles. MMWR 1981;30:250-2.

ENCICLOPÉDIA Pesquisando na Escola. São Paulo: Ícone Editora, 1987.

GALVÃO, Jane. 1980-2001: uma cronologia da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: ABIA, 2002.

KADRI, Michele Rocha; SCHWEICKARDT, Júlio César. A emergência da Aids no Amazonas. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.23, n.2, abr.-jun. 2016, p.301-319.

Revista Superinteressante, 31/01/1994.

SCHWEICKARDT, Júlio César et al. História e Política Pública de Saúde na Amazônia. Porto Alegre: Rede UNIDA, 2017.


FONTES:


A Luta Democrática, RJ, 17.06.1983.

Jornal do Comércio, AM, 09.10.1983.

Jornal dos Sports, RJ, 21.07.1986.

Jornal do Comércio, AM, 04.10.1987.

Vigilância Epidemiológica em HIV/Aids e Hepatites Virais, 2012.

A Crítica, AM, 24.05.2017.
Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa
Enviado por Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa em 06/12/2019
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Sobre o autor
Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa
Manaus - Amazonas - Brasil, 23 anos
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