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Uma história machista?

Sabemos bem que livros didáticos de ensino de línguas (seja a nossa língua ou uma estrangeira) costumam apresentar fragmentos de textos para atividades de leitura. Portanto, muitas vezes, ao lermos uma história num desses livros, ficamos sem saber qual o seu final ou mesmo se a narrativa teve uma continuação. Foi o que houve com um texto contido num livro didático de português que li na casa da minha avó paterna, - que era professora de Português -  muito tempo atrás. O livro tinha várias histórias e a grande maioria delas contava as aventuras de dois irmãos, Eva e Ivo. Numa dessas histórias, Ivo, que é escoteiro, está arrumando sua bagagem e Eva pergunta se dá para arrumar tudo. Eles conversam um pouco e, no final, quando Eva pergunta se ela também pode ser escoteira, ele diz que ela não deve ser boba, porque escotismo é para homem e não para meninas choronas. E ponto final. Não aparece nenhuma continuação mostrando se a menina brigou com o irmão para protestar que ela podia fazer essas coisas. Assim, não dá para  saber se o autor das aventuras dos irmãos deu um jeito de mostrar que ela podia exercer atividades ao ar livre.
Porém, numa coisa temos de concordar: a atitude do menino foi grosseira e mostrou ignorância para um escoteiro. Será que ele não sabia que o fundador do escotismo, Lord Stephenson Baden Powell, que fundou o escotismo em 1907, fundou também o das bandeirantes em 1909 junto com sua irmã, Agnes? Ele o fez quando soube que meninas também queriam ter a oportunidade de praticar atividades ao ar livre. Então, isso também é coisa para meninas. Por que ele acharia que sua irmã não poderia fazê-lo?
A última frase do menino é dúbia. Quando ele diz que escotismo é para homens e não para meninas choronas, não sabemos se ele quer dizer que todas as meninas são choronas ou se apenas Eva é chorona. Se ele quer dizer que todas são choronas, isso é um traço de machismo, deixando claro que ele pensa que meninas se descontrolam fácil e  não são capazes de atividades que exigem dinamismo, disposição para enfrentar as asperezas de acampar,  capacidade de adaptação, de trabalho em grupo e disciplina. Caso ele se refira apenas à irmã, ele tem dela um mau conceito, acreditando que é uma menina fraca e sem forças. Ao se dizer "homem",  e chamar a irmã de "menina chorona", ele ainda revela que se julga superior e mais maduro que a irmã por ser do sexo masculino e aparentemente não ser de chorar fácil. Ele já é um homem e ela, ainda uma criança, segundo sua concepção.
A fala do menino mostra uma ideia negativa acerca do choro. Chorar sempre foi associado à fragilidade, a não saber lidar com as emoções e a crença de que mulheres choram mais que os homens. Vale salientar que chorar é considerado um traço de infantilidade e é comum que os pais reprimam as crianças quando elas choram, dizendo que "já são muito grandes para chorar". Homens adultos também tendem a reprimir o choro, embora chorar seja natural e revele nossos sentimentos, que temos emoções e que estamos abalados. Bem, chorar é uma manifestação de emotividade, de abalo emocional e ainda prevalece entre nós, por causa da herança machista, que os homens são mais racionais que as mulheres.
Infelizmente, eu não sei se a história tem uma continuação, porém, em outras que aparecem no livro didático contando as aventuras dos irmãos, Eva só aparece costurando roupas de boneca com sua avó ao passo que Ivo faz coisas como subir em árvores e mexer com ninhos de abelhas. Enfim, ela só é mostrada fazendo coisas bem "femininas", enquanto ele se aventura para conhecer o mundo.
Com certeza, nenhum livro didático publicaria hoje essa história, que sugere ser bastante machista. Porém, se fosse eu que a tivesse escrito, eu com certeza teria feito Eva mostrando a Ivo que ser mulher não é ser fraca, passiva e chorona. E mencionaria o movimento das bandeirantes.
Maria Cândida Vieira
Enviado por Maria Cândida Vieira em 16/08/2019
Código do texto: T6721807
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Cândida Vieira
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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Maria Cândida Vieira