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A REPÚBLICA - Livro I - Tradução de trechos (Platão)

A REPÚBLICA – Livro I

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “Segundo Cícero, a República de Platão é o primeiro livro da filosofia grega. Aristóxeno¹ acusa Platão de plágio devido às similaridades entre ela e o Antilogikoi ou Peri politeias de Trasímaco.²”

¹ Aristóxeno ou Aristóxenes de Tarento (360-300a.C., datas aproximadas), discípulo de Aristóteles e teórico musical. Pela opinião expressa acima, nada entendia de filosofia política…

² Personagem da própria República, como veremos logo mais. Tudo indica que estes escritos sofistas não se salvaram.

(*) “Desgraçadamente, tudo isto não é mais que um sonho. Levando à exageração a realização da unidade nacional, apesar da violência que se faz aos mais imperiosos instintos e aos melhores sentimentos da natureza humana, Platão destruiu sua obra com as próprias mãos. Aquele que defendeu com tanta razão, como princípio, que nada se encontra no Estado que já não se encontre no homem mesmo não viu que, sufocando todo sentimento particular e suprimindo todo interesse privado, destruía também todo sentimento e todo interesse público? A família e a propriedade são os elementos essenciais sem os quais o Estado não tem já razão de ser; e reduzi-los a nomes vãos é reduzir o próprio Estado a uma abstração.” Embora traduza aqui este comentário de Azcárate, sou avesso a ele. Como comentarista, ele teria muito a aprender de autores pregressos como Jaeger.

(*) “uma índole ou caráter que não encontra a cultura que lhe convém se altera e se corrompe tanto mais quanto mais é vigorosa. A má educação, a falsidade das idéias derramadas na sociedade acerca do que seriam o bem e o mal, os discursos sofísticos e os maus exemplos dos mestres encarregados de educar a juventude, os pais, os amigos, não conspira tudo, no estado atual da sociedade, para arrancar uma alma excelente da vocação filosófica e para fazer dela, por causa justamente de sua excelência, inferior mesmo às almas medianas?”

(*) “Desta lastimosa separação entre filosofia e sociedade, seria o filósofo responsável? Não; e seria profundamente injusto fazê-lo o responsável por sua própria inutilidade.”

(*) “Esta revolução saudável se realizará, quando por qualquer conjetura favorável, que não é difícil prever, ou por uma inspiração dos deuses, um filósofo ou um chefe de governo se vir na feliz necessidade de remediar os males que arruínam os Estados.”

(*) “Uma vez estabelecida a filosofia no Estado, a este último cabe assegurar a soberania no porvir da primeira. Tal deve ser o fim da educação reservada à classe dos cidadãos que um dia devem governar, i.e., os magistrados.”

* * *

(*) “Pompa era uma procissão prevista no calendário grego em que levavam as estátuas dos deuses.”

“CÉFALO – À medida que os prazeres do corpo me abandonam, encontro eu maior encanto na conversação. (…)

SÓCRATES – Eu, Céfalo, me comprazo ao infinito em conversar com os anciãos. Como se encontram no final de uma jornada a qual nós provavelmente percorreremos também, parece-me natural indagar-lhes sobre se o caminho é penoso ou fácil; já que te encontras agora nesta idade que os poetas chamam de umbral da velhice, me agradaria muito se puderas dizer-me se consideras tal situação de vida como a mais penosa, ou então como a qualifica no lugar.”

(*) “Cícero traduziu quase todo o diálogo de Sócrates com Céfalo em seu tratado Da Velhice, fazendo o personagem Catão relatá-lo.”

“A velhice, com efeito, é um estado de repouso e de liberdade face aos sentidos.” “Com sensatez e bom humor, a velhice torna-se suportável; mas pelo caráter oposto tanto a velhice quanto a primavera são desgraçadas.”

“O que me obrigou a fazer-te esta pergunta foi haver observado que não nutres muito apego pelas riquezas, coisa aliás muito freqüente dentre os que não amealharam sua própria fortuna, herdando-a; enquanto que aqueles que a devem a sua própria indústria estão duplamente apegados a ela”

“SÓCRATES – Então Simônides chama de justiça o beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos.”

“- O homem justo é inútil em tempos de paz?

– Eu não o creio.”

“- Quando se quer jogar as fichas, a quem convém associar-se: a um homem justo ou a um apostador profissional?

– A um apostador, naturalmente.

– E para a colocação de ladrilhos e pedras, vale mais procurar um homem justo ou um arquiteto?

– O segundo.

– Ora, assim como para aprender a música me dirigirei ao músico, antes de qualquer outro, virtuoso que seja, sabes me apontar em que caso dirigir-me-ei de preferência ao homem justo antes de a qualquer outro, músico, artesão, etc.?”

“- Disso conclui-se que a justiça me será útil quando meu dinheiro não me sirva para nada.

– Ao que parece.

– Logo, a justiça me servirá quando seja preciso conservar [ser dono de] um podão¹ em comum com outros ou só para mim mesmo; mas se quero não só possuir mas utilizar um podão, melhor seria procurar um jardineiro.

– Exatamente.”

¹ Tesoura para poda.

“- Se o justo convém para guardar o dinheiro, ele também convirá para dissipá-lo.

– Isso seria ao menos uma conseqüência daquilo que acabamos de dizer.”

“- Não diremos, igualmente, que os homens a quem se causa o mal se fazem piores na virtude, por assim dizer, humana?

– Sem dúvida.

– Não é a <justiça> o nome dessa virtude própria do homem?

– Forçosamente.

– Sendo assim, meu querido amigo, necessariamente os homens a quem se causa o mal hão de causar mais mal, não é isto?”

“- Tampouco o efeito do bom é danificar; este é o efeito do seu contrário.

– Exato.

– Mas… o homem justo é bom?

– Certamente.

– Disso se depreende, Polemarco, que não é próprio do homem justo prejudicar seja seu amigo seja qualquer outro, mas isto é o próprio de seu contrário, isto é, do homem injusto.”

(*) “Era crença popular que o homem a quem um lobo fixava a vista perdia a palavra, e que o modo de evitar essa desgraça era fitar o lobo antes que este o fizesse com o homem. No diálogo, Sócrates insinua que Trasímaco é um lobo (<fera>).”

“nenhum profissional se engana, porque não se engana senão enquanto seu saber se ausenta, mas neste lapso já não é profissional.”

“Não há disciplina que examine ou ordene aquilo que é conveniente para o mais forte, só aquilo que é conveniente para o inferior e subjugado.”

“Então, Trasímaco, quer dizer que nenhum homem que governa, enquanto governante, qualquer que seja a natureza de sua autoridade, examina nem ordena jamais o conveniente para ele mesmo, mas sempre para o governado, aquele que lhe está sujeito. É a este ponto que ele se dirige, e em busca daquilo que lhe é mais vantajoso ele diz tudo o que diz e faz tudo o que faz.”

“Na administração do Estado, o primeiro, porque é justo, no lugar de enriquecer às custas do Estado, deixará que se percam seus negócios domésticos, devido ao abandono em que os legará. Dar-se-á por contente caso isto seja o pior que lhe aconteça. Far-se-á, inclusive, odioso a seus amigos e parentes, porque não quererá fazer por eles nada que não seja justo. O injusto alcançará uma sorte inteiramente contrária, porque tendo, como se disse, um grande poder, valer-se-á dele para dominar constantemente aos demais. É preciso fixar-se sobre um homem desta condição para compreender quão mais vantajosa é a injustiça que a justiça. (…) Falo da tirania, que se vale da fraude e da violência com o fito de apoderar-se, não pouco a pouco, e nem como que acidentalmente, dos bens alheios, mas de um só golpe, sem respeito ao sagrado ou ao profano, deitando a mão sem cerimônia sobre fortunas privadas e a do Estado. Os delinqüentes comuns, quando pegos em flagrante, são castigados com o pior dos suplícios e se os trata com as qualificações mais odiosas. Segundo a natureza da injustiça que cometeram, serão sacrílegos, seqüestradores, salteadores, caloteiros ou ladrões; porém, se se trata de alguém que se fez dono dos bens e das próprias pessoas, antes cidadãos, no lugar de dar-lhe estes epítetos detestáveis, vê-se-o como o mais feliz dos homens, tanto segundo aqueles que ele reduziu à escravidão quanto segundo aqueles que têm conhecimento de seus crimes”

“Tu, Trasímaco, nos disseste que o pastor, enquanto pastor, não cuida de seu rebanho pelo rebanho mesmo, mas como um glutão ansioso pelo banquete, ou seja, pensando em si mesmo ou então para vendê-lo no mercado, o que dá no mesmo, pois aí seria um comerciante e não um pastor.”

“Trasímaco, não é possível que não observaste, quanto aos outros cargos públicos, que ninguém os quer exercer pelo que eles são, mas pelo salário que exige a natureza desse tipo de ofício! A utilidade vem para aqueles em nome de quem são exercidas essas funções, não para os executores mesmo. Mas diga-me, to suplico: as artes não se distinguem umas das outras pelos seus diferentes efeitos?”

“SÓCRATES – Se existe uma utilidade comum a todos os praticantes de uma arte, é evidente que só pode proceder de algo idêntico que todos eles agregam à arte que executam. Ou não?

TRASÍMACO – Por óbvio.

SÓCRATES – Digamos, então, que o salário que recebem os artistas o adquirem na qualidade de mercenários.

Ainda que contrariado, Trasímaco assentiu.

SÓCRATES – Logo, não é sua arte o que dá origem a este salário, mas, para dizer com exatidão: o objetivo da medicina é a saúde, e o do mercenário, lucrar, e o da arquitetura, erguer casas; e se o arquiteto recebe um salário, é porque é mercenário. E o mesmo em todas as artes.”

“SÓCRATES – (…) se alguém deseja exercer sua arte como é devido, não trabalha para si mesmo, mas sim em proveito do governado. Por isso, para comprometer os homens a exercerem o mando, foi necessária alguma recompensa, como dinheiro, honras ou um castigo, em caso de recusa.

GLAUCO – Como entendes isto, Sócrates? Digo, conheço bem o bastante os dois primeiros tipos de recompensa, mas não tal castigo, cuja ausência propões como terceiro tipo de recompensa.

SÓCRATES – (…) Não sabes que ser interesseiro ou ambicioso é coisa reconhecidamente vergonhosa?

GLAUCO – Sim, o sei.

SÓCRATES – Por isso é que os sábios nunca querem tomar parte nos negócios com o fito de enriquecer nem angariar louvores, porque temeriam que se lhes vissem como mercenários se exigissem manifestamente algum salário pelo mando, ou como ladrões, se usassem os fundos públicos em proveito próprio. Tampouco têm em conta as honras, porque não são ambiciosos. É preciso, então, que se lhes obrigue a tomar parte no governo sob pena de algum castigo. E por essa razão é que se vê como coisa grosseira o encarregar-se voluntariamente da administração pública sem se ver compelido a isso. Porque o maior castigo para o homem de bem, quando recusa governar os demais, é o ver-se governado por outro menos digno; e este temor é aquilo que obriga os sábios a encarregarem-se do governo, não pelo seu interesse nem por gosto, mas por se verem precisados por culpa dos outros, tão ou mais dignos de governar; de sorte que, se se encontrasse um Estado composto unicamente de homens de bem, solicitar-se-ia o afastamento dos cargos públicos com o mesmo calor com que hoje se os solicitam; num Estado desse gênero, ver-se-ia claramente que o verdadeiro magistrado não contempla seu próprio interesse, mas o dos administrados; e cada cidadão, convencido desta verdade, preferiria ser feliz mediante os cuidados de outro do que trabalhar ele mesmo pela felicidade dos demais. Não concedo a Trasímaco, portanto, que a justiça seja o interesse do mais forte, mas examinaremos esse ponto com mais detalhes mais tarde. O que acrescentara Trasímaco, a respeito do homem mau, o qual, segundo ele, vive condição mais ditosa que o homem justo, é um ponto ainda mais urgente. Que opinas disso, Glauco?”

“Se opusermos este longo discurso com um outro discurso igualmente longo em favor da justiça, e logo outro ele e outro nós de novo, será precisa contar e pesar as vantagens de uma e de outra parte, e, ademais, seriam precisos juízes para pronunciar a sentença; enquanto que, tratando o ponto amistosamente, como fazemos, até chegar a um consenso sobre o que parece verdadeiro ou falso, seremos juízes e advogados numa só tacada, o que é mais simples.

– Concordo.

– E qual destes dois métodos te agrada mais?

– O segundo.”

“- Então os homens injustos são bons e sábios em tua opinião?

– Bom, pelo menos os que o são em sumo grau, e que são fortes o bastante para submeter as cidades e os povos. Talvez creias que eu queira falar dos batedores de carteira. Não é que este ofício não tenha lá suas vantagens, veja bem, enquanto se conte com a impunidade; mas estas vantagens nada são cotejadas com as que acabo de citar!”

“Isso é muito duro, amigo, e já não sei que caminho tomar para te refutar. Se dissesses simplesmente, como tantos outros, que a injustiça, ainda que útil, é uma coisa embaraçosa e má em si, poderia responder-te aquilo que de ordinário se responde. Mas toda vez que chegas até o ponto de chamar injustiça de virtude e sabedoria, não hesitarás nem um átimo em atribuir-lhe a força, a beleza e todos os demais títulos que se atribuem comumente à justiça.”

“- (…) O homem justo gostaria de ter vantagem em algo sobre o homem injusto?

– Não, assim creio verdadeiramente; de outra maneira, não seria nem tão encantador nem tão cândido como é.

– Mas como? Nem quanto a uma ação justa?

– Nem quanto a ela.

– Não gostaria, pelo menos, de sobrepujar o homem injusto, e não creria poder fazê-lo justamente?

– Creria e gostaria, mas seus esforços seriam inúteis.”

“- Quererá, por conseguinte, o injusto ter vantagem sobre o homem e a ação injustos e se esforçará para tê-la sobre todos?

– Assim o é.”

“- Portanto, aquele que é bom e sábio não quer ter vantagem sobre seu semelhante, somente sobre seu contrário.

– É ao que nosso diálogo conduz.

– Enquanto que aquele que é mau e ignorante quer ter vantagens tanto sobre um quanto sobre outro.

– Absolutamente.”

“Suava muito, ainda mais por ser verão; neste instante vi que pela primeira vez Trasímaco se ruborizava.”

“faça-me o favor de dizer se um Estado, um exército ou uma quadrilha de bandidos e ladrões, ou qualquer outra sociedade deste gênero, poderiam triunfar em suas empresas injustas se os membros que as compõem atuassem, uns para com os outros, com injustiça.”

“- É tal, pois, o poder da injustiça, encontre-se ela no Estado ou na família, no exército ou em qualquer outro lugar, que, logo de cara, fá-lo absolutamente impotente para empreender qualquer coisa devido às querelas e sedições que provoca; num segundo instante, também é verdade que a injustiça torna-se inimiga de si mesma, e de tudo que é a ela contrário, isto é, do homem de bem. Não é assim?

– Totalmente.”

“- Mas os deuses, amigo, não são também justos?

– Que seja!

– Logo, o injusto será inimigo dos deuses, Trasímaco, e o justo será seu amigo.

– Sócrates, desfruta de tua argumentação o quanto queiras; não me oporei a ela, gastando saliva para no final enredar-me contigo e com todos os que nos escutam da mesma forma.”

“É evidente que conservam entre eles um resto de justiça que os impede de prejudicar-se uns aos outros, ao mesmo tempo que prejudicam os demais, e que através da justiça é como levam a cabo suas empresas. Na verdade, a injustiça é que os faz idealizar empresas criminosas; mas só são maus pela metade, porque os que são injustos a toda prova estão também na impossibilidade absoluta de agir.”

“- (…) Poderiam os olhos desempenhar suas funções se não tivessem a virtude que lhes é própria, ou se, no lugar desta virtude, tivessem o vício contrário?

– E como poderiam? Porque tu falas, sem dúvida, dum caso em que a cegueira substituiria a faculdade de ver!”

“- (…) Não tem a alma sua função, que nenhuma outra coisa que não seja ela mesma pode realizar (p.ex. tomar responsabilidades, governar, deliberar, etc.)? Pode-se atribuir estas funções a algo outro? Não temos o direito de dizer que são coisas próprias da alma?

– Não se pode atribuir essas funções a outra coisa.

(…)

– A alma não tem também sua virtude particular?

– Isso eu concedo.

– A alma, privada de sua própria virtude, poderia, acaso, Trasímaco, desempenhar bem suas funções, ou ser-lha-ia impossível?

– Impossível.

– Logo, é uma necessidade que a alma má assuma responsabilidades e governe mal; ao contrário, a boa fará bem todas essas coisas.

– É uma necessidade.”
Rafael Cila Aguiar, Platão e Azcárate
Enviado por Rafael Cila Aguiar em 18/06/2019
Código do texto: T6676207
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rafael Cila Aguiar
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 31 anos
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Rafael Cila Aguiar