Cristo e Maçonaria
 
       Escrever para um jornal de circulação geral, e sobre um assunto que a graduação de conhecimento exige sigilo, às vezes cria a limitação de comentários que gostaríamos de desenvolver, mas que revelariam conhecimento que deve ser específico dos graus.
           Ainda assim creio não estar a fazê-lo ao afirmar que o coroamento dos graus simbólicos na Maçonaria traz como lição sublimada a idéia de dever humano de lealdade aos preceitos que prega, de modo que exista franqueza entre ideal e prática. Não apenas isto: ensina-nos que, conforme as circunstâncias, embora esteja a servir o que é bom, correto, enfim o que é justo e elevado, ainda assim a vida nos contempla com a imposição do nosso sacrifício pessoal. São situações onde somos devidamente injustiçados, somos punidos indevidamente, mas ainda assim aqueles que conseguem superar o amor por si, pelo amor maior por um ideal, de forma consciente, adquirem uma coragem que tem como característica primordial parecer além-humana. Como se nesse momento a alma eterna prevalecesse completamente sobre a condição humana do indivíduo. Quando isto ocorre, embora tais indivíduos por vezes percam a sua vida, acabam por surgir dentro de uma concepção superior, passam a constituir a nossa memória ; mesmo já mortos, mantém-se interferindo no mundo dos vivos. Acabam assim indo além do seu tempo.
          Como já observamos em outras oportunidades, a base de consulta do conhecimento maçônico deve ser o estudo do Livro da Lei, que é a Bíblia Sagrada. Assim, observado que a maior lição da Maçonaria se refere ao acima exposto, entendo que Jesus Cristo, foi o indivíduo que encarnou com maior identificação a tal situação. Não discuto aqui a idéia da divindade de Jesus, ou se ele foi dado em sacrifício, enfim questões de cunho teológico, que vezes servem mais para dividir do que para agregar, mas falo da ação de Cristo, da sua lealdade que o transforma em missionário do Criador, da sua dedicação a cumprir o seu dever, da sua aceitação mesmo ante aquilo que sua razão já dizia ser-lhe entendido pela humanidade como escândalo, do seu holocausto solitário, onde o seu saber o tornava ainda mais sozinho em meio a uma multidão de ignorantes. Somente um entendimento superior pode clamar ao Grande Juiz pelo perdão dos assassinos, que julgando fazer justiça, nada mais fazem do que crime, pois não sabem o que fazem. Cristo, porém, foi além da memória, foi além do conceito maçônico neste caso, pois morto ressuscitou, ou seja, mostrou que mesmo morrendo a individualidade continuava a existir. Pelo que sei, ninguém mais fez algo parecido. Ora, a Maçonaria nos pede menos, pede a atitude, fala-nos da memória, pois que prevalece em nossa Ordem a razão, associada à fé na existência do Criador, mas Cristo está além da razão, para entendê-lo só mesmo com a fé.
           Entretanto, é preciso fazer-se racional, mesmo ante a fé, pois que o homem a tudo parece perverter, de modo que em sendo a fé, a força da vontade que faz nascer no homem a vontade de reencontro com o Criador, sendo algo puro e limpo nas criaturas, ainda assim está sujeita a manipulação, uns por pura ignorância, outras por atualmente ser artigo altamente rentável. O que tenho a dizer é que acima de tudo está o exemplo, e se Cristo, que é modelo de superioridade, tomou as atitudes em vida, não seríamos seus seguidores, se pela via da preguiça e da crença idólatra, que é antes adorar na expectativa de reembolso, nos puséssemos a tomar este tipo de atitude. Que saibamos, assim, carregar nossas cruzes, que façamos jus, aos que morreram por seus sagrados deveres. E o que Jesus e a Maçonaria têm em comum: alma do mestre maior e único e seus aprendizes.

Gilberto Brandão Marcon
Enviado por Gilberto Brandão Marcon em 20/12/2009
Código do texto: T1986805
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