A TRAJETÓRIA HISTÓRICA E A FIGURA DO TRADUTOR

Silvânia Mendonça Almeida Margarida

1.Introdução

O leitor não é uma peça oposta ao ato de criar , porém entrosado no processo de criatividade do codificador, pois não seria possível a sobrevivência da mensagem se não houvesse o ponto de consolidação do pensamento criado. Ambos, codificador e decodificador são peças de um processo de produção e recepção que fundamenta a vida histórica da obra literária (Jauß, 1994).

Desta forma, a historicidade coincide com atualização e esta mesma história aponta para o indivíduo capaz de efetivá-la: o leitor.

Jane Tompkins (1980), em seu ensaio, An introduction to reader-response criticism, traça a trajetória histórica do leitor e o papel da literatura. Ela afirma que as duas características mais proeminentes da crítica literária na Antigüidade são: a sua preocupação com o assunto da técnica e os seus debates sobre a moralidade de produção literária. O leitor na Antigüidade é visto como um cidadão do estado, o autor como um formador da moralidade cívica e o crítico como guardião do interesse público: a literatura, seus produtores e seus consumidores são todos vistos em relação às necessidades da política como um todo. O texto como objeto de estudo ou contemplação não tem importância nessa perspectiva crítica. A literatura é tida como produtora de resultados e não como um fim em si própria.

O processo de separação entre a literatura e a vida política começa a ocorrer na segunda metade do século XVIII, quando da ruptura do sistema de patrocínio, do crescimento da mídia impressa e do crescimento do público-leitor, o que opera mudanças na relação entre os autores e o seu público. De acordo com Caudwell [s.d.] quando a literatura assume a forma impressa, a obra torna-se infinitamente reproduzível, acessível a quantos quiserem lê-la: desta forma, a possível distância entre o produtor da obra e o seu leitor torna-se virtude altamente ilimitável.

2. Estética da Recepção

No século XVIII, no período do Romantismo, desenvolve-se na Alemanha uma estética da recepção. A postura antimimética que caracteriza este movimento opõe-se às teorias e à poética normativa da Antigüidade, estabelecendo novas relações entre a tríade autor-obra-leitor. Novalis, no Fragmento 79 (Teplizter Fragmente, 1795-1800), explicita a mudança de paradigma ao dizer: “O leitor coloca o acento arbitrariamente, faz do livro o que ele quer”. Embora a crítica literária só possa admitir com restrições a afirmação de Novalis, fica evidenciado o propósito revolucionário da poética romântica e a consciência de que a maneira de um leitor apreender uma obra está condicionada às circunstâncias do seu próprio mando que permeia a sua percepção crítica.

Durante o Impressionismo, o processo de valorização do leitor prossegue. É concebido como princípio gerador do sentido de um texto, como crítico que cria infinitas possibilidades de leitura, assumindo cada vez mais como crítico, o seu papel sujeito da história cultural.

No complexo estuário do século XX, o leitor assume uma sensível postura ante o compromisso do ser participativo deste sistema. O leitor, para agir e se ajustar neste espaço, tem que se introduzir no contexto como: receptor, transmissor, criador, modificador e intérprete para subsistir ao peso do que a História lhe conferiu. A partir desta observação, o leitor do século XX possui múltiplas possibilidades de expansão e significação cultural.

Passa a existir, então, entre os teóricos da atualidade uma preocupação crescente com a figura do leitor no processo da criação de significados.

Certos críticos rejeitam o leitor como um construtor de significados no texto. Roland Barthes, por exemplo, em Le Plasir du Texte (1973), nega o caráter dialógico entre o texto e o leitor e assim exclui a macroestrutura da situação comunicativa: ao leitor passa a caber apenas o papel passivo tão só de recepção e desaparece, como fonte de prazer, sua atividade imaginante, experimentadora e doadora de significação.

De acordo com Jonathan Culler (1983), vários fatores têm contribuído para a mudança do papel do leitor: a ênfase estruturalista nos códigos literários, o papel construtivo imposto ao leitor por certas ficções experimentais, a necessidade de descobrir caminhos, e a necessidade de falar das obras contemporâneas refratárias e mais rebeldes.

Jane Tompkins, na já citada coletânea, focaliza, também, a crítica contemporânea sobre o leitor, enfocando vários teóricos.

Escolhe, a autora, começar com o ensaio de Walker Gibson e o seu conceito do leitor fictício. Para Gibson o leitor fictício, como seu nome sugere, não é o leitor empírico-histórico. O leitor fictício de Gibson é puramente textual, é um papel que o leitor real está convidado a fazer durante a leitura de um romance. O conceito gibsoniano do leitor fictício permite ao crítico dramatizar as atitudes sociais implícitas num texto pela reconstrução dos tipos de compreensão e de cumplicidade a que chegam narradores e leitores fictícios, acima das personagens distantes do conteúdo da prosa.

O ensaio de Gerald Prince sobre narrativas tem objetivos diferentes. Prince usa um sistema de classificação. Ele postula primeiro uma série de distinções entre os tipos de leitores, para os quais um texto pode estar endereçado: o leitor real (aquela pessoa que segura um livro em mãos), o leitor virtual (o tipo de leitor para quem o escritor está escrevendo, o qual ele dota com certas qualidades, capacidades e gostos) e o leitor ideal (alguém que entende o texto perfeitamente e aprova cada nuance sua).

Michel Riffaterre compartilha com Gibson e Prince o pressuposto de que o significado literário reside na linguagem do texto, mas ataca a idéia de que o significado existe independentemente da relação do leitor com ele. Riffaterre, em seu esforço para evitar colocar qualquer valor na interpretação da resposta do leitor, defende que o significado é uma propriedade da própria linguagem e não de quaisquer atividades que o leitor desempenha. A resposta do leitor é a evidência da presença do significado poético em um dado ponto do texto, mas não é constitutiva dele. O objetivo de Riffaterre ao chamar o leitor para o jogo é a especificação de características lingüísticas poeticamente significativas.

Para George Poulet, o significado da obra literária não depende do leitor. Para Poulet, a consciência do leitor é interligada à obra, é ativa e potente; ela ocupa o patamar, está claramente relacionada ao seu próprio mundo. Objetos são objetos. Isto implica a submissão do leitor à consciência que gera a obra. Acontece a morte do leitor, para que o texto viva. Poulet examina os processos internos através dos quais a literatura se percebe no leitor individual, ele começa pela natureza essencialmente passiva do papel do leitor. O leitor ganha sua experiência pelo esquecimento e se priva, por assim dizer, afim de que o texto permaneça vivo. Para Poulet, a obra literária só se concretiza através da convergência do leitor e do texto, ou seja, através da invasão da consciência de um pela consciência do outro.

Ao analisar Fish, Tompkins afirma que, ele se concentra no desenvolvimento das respostas que o leitor dá às palavras enquanto elas se sucedem no tempo. Fish concentra-se, também, na seqüência de decisões, revisões, antecipações, reversos e recuperações que o leitor desenvolve ao negociar o texto, sentença a sentença, frase a frase. Para Jonathan Culler, Stanley Fish adota três estágios para tentar explicar a atividade do leitor. O primeiro é que o significado não reside no texto mas na experiência do leitor. O texto é uma série de estruturas formais sobre o qual o leitor confere o significado. Num segundo estágio, investiga a estilística. Fish argumenta que as hipóteses de interpretação do leitor determinam quais características formais e padrões somam-se como fatos do texto, e, finalmente, ele afirma que os padrões formais não estão todos dentro do texto. Tudo é constituído pela interpretação. Sempre haverá os dualismos: um interpretador e algo a ser interpretado, um sujeito e um objeto, um ator e algo, que ele age em acordo, ou que segue. Um terceiro estágio é interpretação final e concatenação das próximas idéias do texto e da tradução do ato em si.

De acordo com Tompkins, para Jonathan Culler, a forma que o texto assume aos seus leitores é determinada não pelo texto em si, mas pelo sistema de signos que os leitores convencionalmente aplicam à literatura. Falar da estrutura da obra literária implica o que Culler chama de “competência literária”: o conjunto de regras de direcionam o leitor a eleger certos aspectos da obra correspondentes às noções públicas do que constitua uma interpretação aceitável ou apropriada. Estas convenções incluem as regras de significância, a coerência metafórica e a unidade temática.

Jonathan Culler admite que para cada leitura deve haver algo que o leitor encontre, com que se surpreenda, e isto funciona como um objeto, numa relação sujeito-objeto, embora possa ser considerado, como o produto de interpretações anteriores.

Culler, quando menciona as discussões de Umberto Eco em Obras Abertas, afirma que Eco exige que os leitores escrevam o texto através da leitura. Um texto aberto esboça um projeto “fechado” do seu leitor modelo, como um componente da estratégia estrutural. É exigido do leitor que ele exerça um papel organizado: “você não pode usar o texto como você quer, mas somente como o texto quer que você o use.”7

Para Wolfgang Iser (1978), o leitor participa ativamente na produção do significado textual. Segundo Iser, o leitor deve agir como co-autor da obra ao suprir a porção que não foi escrita, mas que está implícita. O leitor é convidado a preencher os espaços vazios fornecidos pelo texto. Iser parte da premissa de que um texto só é capaz de suscitar algum efeito ou resposta quando lido. É um processo no qual interagem as estruturas textuais e a ideação do leitor. O leitor apreende a obra de arte através do prisma de sua própria época e os valores enfatizados são aqueles ideológica e esteticamente mais relevantes para ele naquele momento histórico. Porém, não é apenas o contexto que influencia o leitor, também, as suas próprias preferências e conhecimentos interferem no ato de leitura.

3. Caráter dinâmico da leitura

Iser enfatiza o caráter dinâmico da leitura, resultando que “o processo de construção de significados não se realiza através de um código, mas através da dialética movida e regulada pelo que se mostra e se cala” (Iser, 1984, p. 265). O que se cala é dado pelos vazios do texto que intensificam a atividade ideativa do leitor, por suspenderem a conectabilidade dos esquemas textuais. O ato de leitura, assim visto, é um processo de constituição de sentido e não de apreensão de um sentido previamente determinado. Essa acepção repercute diretamente sobre a atividade do leitor. O seu processo de leitura é uma resposta da sua interação com a obra que estimula o leitor a novos atos de ideação.

A interação do leitor com o texto é um processo dinâmico de auto-correção de significados, que o leitor produz e corrige à medida em que avança na leitura. Os vazios textuais são resultados da interação do leitor com o texto. São unidades móveis em determinados momentos, que projetam devaneios, fugacidades, suspenses e outros fatores que envolvem o leitor e direcionam a sua leitura.

Eni Orlandi [s.d.] conclui que “ninguém lê o que quer, do jeito que quer e para qualquer um.” Tanto quanto a formulação (emissão), a leitura (compreensão) também é regulada. Para Orlandi, ler “[...] é saber que o sentido pode ser outro”.

Uma interpretação de uma obra literária com várias convenções, hipóteses e expectativas emerge através da avaliação da atividade do leitor. Falar sobre o significado da obra e a trajetória histórica do leitor é contar uma história de leitura.

4. À guisa de conclusão

Conclui-se que, a preocupação crescente com a figura do leitor no processo de criação de significados garante a manutenção de uma linha de tempo, tendo o leitor como agente. Embora cada leitor seja específico, único, ele é parte, é peça fundamental de um significativo corpus no essencial da arte da palavra.

A dimensão pragmática da língua no ato da leitura

A abordagem integrada entre os estudos literários e os estudos lingüísticos vem sendo uma das tônicas nas pesquisas realizadas nestas áreas. A estreita ligação entre Literatura e Lingüística é realçada por Robins (1981) ao afirmar :

Lingüística e estudo literário não operam na totalidade de um campo comum, nem procedem da mesma forma; mas dentro da matéria de estudo de ambos seria razoável ver alguns pontos em comum e a oportunidade de colaboração proveitosa. (1981, p. 375,376)

Em todas as formas de literatura, parte da avaliação estética, seja da habilidade do autor ou da obra em si, escrita ou falada, depende do uso específico do material empregado, isto é, a constituição fonética, gramatical e léxica da língua. ( Idem, ibidem)

Wolfgang Iser, em seu estudo The Act of Reading (1978), contribui para uma abordagem entre Literatura e Lingüística, partindo da dimensão pragmática da língua. Sob essa óptica, manifestações literárias ou não-literárias, norma e texto não se opõem, complementam-se, porque têm em comum a linguagem, concebida como instância de intermediação entre o homem e a sua realidade, como ato de comunicação.

AO entender a ficção como uma estrutura de comunicação, torna-se indispensável, para a análise de um texto literário, substituir o tradicional modelo ontológico, por um modelo funcional, que considera não o que a literatura é ou significa, mas, qual é o efeito que produz sobre o leitor. Estabelece-se, assim, uma pragmática literária, dentro da visão de que o uso pragmático dos signos sempre envolve algum tipo de resposta a ser obtida do receptor desses signos. (Iser: 1978, p. 53/4).

A hipótese da natureza pragmática do texto literário leva Iser a utilizar a teoria dos atos da fala de Austin e Searle como ponto de partida. O ato da fala, como unidade de comunicação, não é necessariamente uma oração, mas enunciados lingüísticos em determinada situação ou contexto através do qual esses enunciados passam a ter significado (Iser, 1978, p. 55).

Baseando-se em Cavell, Iser, em seguida, demonstra que não haveria interação diádica se o ato de fala não contivesse indeterminações não resolvidas, o que constitui um ponto de contato entre o ato da fala e o texto literário. Por outro lado, o êxito de uma ação lingüística depende da resolução de indeterminações através das convenções, procedimentos e garantias de sinceridade, ou seja, um quadro de referências inexistente no texto literário. Esse argumento, dentre outros, levou Austin a excluir a linguagem ficcional de sua análise (Iser, 1978, p. 60).

Todavia, Iser contra-argumenta que a linguagem ficcional não é desprovida de convenções - rompe com os valores referenciais verticais que se aplicam na linguagem não literária (valores do passado que se aplicam no presente) e trabalha horizontalmente, selecionando uma variedade de convenções do mundo real e organizando-as em combinações inesperadas (Iser, 1978:76).

Quanto ao leitor, ele se vê obrigado a descobrir porque certas convenções foram escolhidas para sua atenção, um processo no qual ele é guiado pelas técnicas narrativas que Iser chama de estratégias do texto.

Ao contrário de teóricos mais radicais como Fish, para o qual “nada é dado e o leitor supre tudo” (Freund, 1987: 149), Iser busca uma distribuição eqüitativa da autoridade entre autor-texto-leitor ao afirmar “ o significado deve ser claramente o produto de uma interação entre os sinais textuais e atos de compreensão do leitor” (Iser, 1978:9).

O leitor-tradutor

Toda leitura é um ato de comunicação (Nord, Aubert, Vermeer). A leitura, entretanto, é um ato complexo de comunicação no qual o autor do texto da língua de partida, o leitor como tradutor, o tradutor como autor da língua de chegada e o leitor da língua de chegada interagem.

Ao investigar a relação entre a leitura e a linguagem textual, Mary Snell-Hornby (1988:69,76,79 a 81) afirma que a evolução da lingüística textual e a emergência nos Estudos da Leitura como disciplina independente trouxeram novos enfoques para a categoria texto. Baseado no princípio holístico da Gestalt, entende-se o texto como uma estrutura multidimensional, sendo o todo maior do que a soma de suas partes, de seus segmentos.

A partir desse princípio, a análise textual, forma preliminar e básica para a leitura, deve partir do macro – para a microestrutura, do texto ao signo. Considerando que o texto não é apenas um fenômeno lingüístico, mas tem uma função comunicativa, pois está inserido numa dada situação, a análise da estrutura do texto deve incluir, por exemplo, a relação entre o título e o conteúdo principal do texto, bem como a identificação da ambiência sócio-cultural.

Umberto Eco (1994: 64) pergunta: “Como um texto pode impor um ritmo de leitura?” Um dos resultados mais observáveis na leitura é o impacto que o ato de leitura tem sobre a prática de leitura de um texto. A leitura tem sua forma natural de diálogo e comunicação com o texto. E baseando-se no fato de que, todos os atos de comunicação são atos de leitura (Aubert, Vermeer), a leitura é considerada um ato de leitura. A leitura é vista como um processo contínuo de reconstrução. As palavras ganham significados através de suas associações, com outras palavras, através da ligação com o seu passado histórico e cultural e, através de suas construções rítmicas e de som dentro da frase dada.

Segundo Arrojo, (1993:18) “seria ingênuo e simplista estabelecermos normas de leituras que contassem com a possibilidade do resgate total dos significados “originais” de um texto ou da intenção do autor. O leitor de um texto não pode proteger os significados originais de um autor porque, a rigor, nem o próprio autor poderia estar plenamente consciente de todas as intenções e de todas as variáveis de seu texto.” Então, “o leitor, jamais poderá deixar de lado aquilo que o constitui como sujeito e como leitor - suas circunstâncias, seu momento histórico, sua visão de mundo, seu próprio inconsciente.” Sua relação com “o texto será sempre mediada pelo processo de interpretação: mais criativo do que conservador, mais produtor do que protetor” (Arrojo, 1993:19).

Conforme Puff (1995:43), na abordagem de Levý (1969), a segunda etapa da leitura é a recepção da obra: o tradutor é, em primeira linha, leitor. O texto de uma obra se realiza no universo cultural do leitor e só atua como obra de arte quando for lido.

Baseando-se em Levý, Puff afirma:

A obra chega às mãos do leitor e tradutor em forma de texto, e este texto atua na recepção como material objetivo. Assim, por intermédio do tradutor, ele se concretiza. É necessário o juízo crítico para interpretar: o conceito de concretização é entendido no sentido dele se realizar em outra língua. A compreensão subjetiva do texto através do juízo crítico é um dado com o qual devemos contar, pois ela encerra certos perigos. A leitura interpretativa do leitor é condicionada historicamente, como a concepção do escritor, na qual diversos aspectos interagem. (1995: 43)

O leitor compreende a obra através do tempo. Como o tradutor é condicionado historicamente, existe uma relação entre a leitura e a cultura receptora. A história estará presente na linguagem do original e da leitura e acarretará transformações no texto.

Puff acrescenta que:

O tradutor confere sua concepção da obra com a expressão da língua, e assim vem renovada numa materialização lingüística dos valores semânticos da obra. O leitor comum não confere sua interpretação mediante os valores formais do texto. A leitura do tradutor é minuciosa, procura nas entrelinhas significados ocultos, produzindo novos significados à obra, as quais não eram prioridade na concepção original. A linguagem do tradutor está presa a do escritor, mas ela se reatualiza na leitura como fator natural, marcado pelo tempo histórico da leitura, via interpretação.(1995, p. 44)

Segundo Cecin (1994), o texto escrito permanece cristalizado em suas formas. Baseando-se em Charaudeau (1982), esta afirma que é difícil refazer o processo de intenção do autor, mas é possível analisar os efeitos produzidos por seu texto. Podemos, portanto, observar numa leitura qual foi a intenção interpretativa do autor junto ao texto. Cecin argumenta que:

O explícito do texto, com marcas da intencionalidade do autor, é sempre uma proposta de partida. O processo de compreensão na obra literária é bem mais complicado e de difícil acesso para o pesquisador na área de leitura. Não se trata de uma simples operação mental, a ser observada, mas uma análise do conjunto de valores afetivos, expressivos e estéticos, que participam da criação do sentido e de seus efeitos. Nesse conjunto, a forma, não como um fim em si mesma, mas como desempenha um papel primordial... (1994, p. 61)

À guisa desta argumentação, uma observação de Delisle (1981) confirma a identidade do tradutor como um leitor especial, produtivo e dinâmico:

[...] tradutor que compreende o sentido de um texto é como o leitor a quem se pede que “se comprometa”, ou seja, que revele explicitamente, até nos mínimos detalhes, o que compreendeu. Um simples leitor pode ter a ilusão de que a sua compreensão foi completa e exata; ele pode até simular que compreendeu tudo. O tradutor, por sua vez, não pode nunca esconder sua ignorância, sua falta de compreensão. E seus árbitros serão ainda mais impiedosos, na medida que eles mesmos não são tradutores... Mais do que trair, traduzir é trair-se. (1981, p. 69)

Delisle manifesta aqui a diferença básica entre o leitor comum e o tradutor. A interação do leitor comum com o texto pode-se processar através da formação de imagens, no entanto, a interação do tradutor tem de estar também necessariamente vinculada a uma fixação lingüística.

Para Greuel (1997)9, o primeiro tradutor é sempre o último leitor do texto original até então existente, visto que, esse, após a leitura, deixa de ter uma manifestação única. Por outro lado ele é também o primeiro leitor da nova expressão da obra. Greuel afirma que, nesse sentido, ele passa a ser autor, porque uma característica essencial de ser autor é ser primeiro leitor da obra. O texto original muda pois, mediante a leitura e o seu estatuto. Passa, por vezes, até a substituir o original. “O tradutor é, portanto, o autor de uma nova forma, e como a forma dá o acesso ao conteúdo, ele é o autor de uma forma específica de abordagens do conteúdo expresso no original” (Greuel, 1997, Internet).

José Rubens Siqueira (1997) confirma a identidade do tradutor como um leitor específico e afirma:

Então, por mais que o tradutor tente ser objetivo, invisível, fiel ao conteúdo e à forma do autor, essa fidelidade e rigor será sempre o modo apenas. O instrumento que ele estará utilizando nesse modo, será sempre individual, pessoal, único. E nesse sentido não há como ele não ser um leitor “específico, ideativo, direcionador, co-produtor de significados”. Gente é assim, não é? Quem espera outra coisa, está idealizando não só a leitura, mas o ser humano em si. Quem conta um conto, aumenta um ponto.

(I997 apud anexo, p. 14 Dissertação: Análise Contrastiva de três traduções. UFMG, 1998 )

José Rubens Siqueira discorre sobre a vivência tradutória, assim argumentando:

“Acho que traduzir não é uma atividade “antropofágica” no sentido de você digerir o original e obrar um texto transformado pelo seu organismo de sensibilidade. No meu entender a leitura exige submissão, humildade diante do original. Mais que antropofagia acho que é um ato de “incorporação”. O tradutor tem de ser um intérprete, no mesmo sentido em que o ator ou o pianista é intérprete. E nesse sentido é um trabalho artístico tão valioso quanto o de criação”.

Não importa se isso é reconhecido ou não. Se as pessoas não reconhecem esse valor, azar delas. Evidentemente ele só pode se plasmar na escritura do autor do original a partir da sua própria sensibilidade, o que já individualiza o seu produto, mas é preciso um abandono de si, de suas próprias idiossincrasias para servir ao original... Tentar escrever como ele escreveria.

Ainda, em 1992, Venuti aborda a questão da invisibilidade do tradutor e da leitura, ressaltando que é atribuído, até hoje, um papel passivo ao tradutor.

Siqueira comenta que o tradutor pode ser invisível ao texto original, como também pode estar visível no seu campo de trabalho, no seu meio e profissão. Ele pondera que:

Em relação à obra original, acho que o tradutor tem mesmo de ser invisível, como eu já disse antes. É essa invisibilidade sem orgulho que projeta e faz brilhar a obra do tradutor: sumir para revelar com a maior fidelidade possível o autor do original.

Então, por mais invisível que tente ser, pelo simples fato de atuar sobre a obra, buscando a invisibilidade, buscando plasmar-se nela e ser fiel a ela, esse próprio empenho já vai "colorir", "personalizar" a sua leitura da obra. Mas é uma interferência, por assim dizer, inconsciente. E nesse sentido, autoral.

A Companhia das Letras valoriza o nosso trabalho. O nome do tradutor sai na contra capa do livro, está externo, exposto. E isso é bom.

Na Cia. das Letras, ultimamente, todos os livros que traduzo voltam para mim depois da

preparação, antes de ir para a gráfica e a última palavra é minha.

Entre as várias contribuições dos Estudos da Leitura, destaca-se o reconhecimento do ato tradutório como ato comunicativo, onde todos os componentes do processo se interagem dinamicamente, tornando questionável o apagamento do tradutor que, enquanto leitor, participa do processo de construção de sentido. Sob esta perspectiva o ato tradutório ressalta como ato de decisão como apontado por Aubert:

[...]será com base na dinâmica das relações imagéticas e dentro dos limites do conjunto de mensagens efetivamente depreendidas que o tradutor, longe de ser um médium passivo, para a manifestação do autor e do texto de partida, terá de tomar decisões no mais diversos níveis: comunicativo, lingüístico, técnico. É, portanto e inevitavelmente, agente, elemento ativo, produtor de texto, de discurso. (1993, p. 80)

O tradutor, a partir da sua vivência, do seu conhecimento prévio, cria o seu próprio repertório, as convenções e os elementos direcionadores que lhe permitem concretizar a sua realidade estética e passá-la às suas traduções.

O texto literário por si realiza a animação de um conjunto de informações que se constitui na bagagem de vida do tradutor. Pode-se explorar essa qualidade e trazer o tradutor para um diálogo com o texto. A leitura do original e o texto traduzido se transformam, assim, em oportunidade de discussão sobre a própria experiência do leitor-tradutor. Parte do que se convencionou chamar de “o gosto de ler” ou no caso específico do tradutor, ler pelo gosto de traduzir relaciona-se aos aspectos afetivos e éticos que o texto pode proporcionar ao tradutor. Quando o tradutor se identifica com o texto, ele realiza seus desejos, daí o prazer e o gosto de traduzir, o gosto pela sua profissão. A cada vivência tradutória o tradutor acumula aspectos culturais e significativos, que poderão ser aproveitados em textos subseqüentes, e que se transformarão em uma grande bagagem tradutória.

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* Nota: Este texto é parte integrante = Dissertação de Mestrado O BARRIL DE AMONTILLADO DE EDGAR ALLAN POE: UMA ANÁLISE CONTRASTIVA DE TRÊS TRADUÇÕES, orientada pela Profa. Dra. Veronika Benn-Ibler , na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, defendida e aprovada em 16 de março de 1998.

Observações

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9 Reflexões fenomenológicas sobre a Teoria da leitura Marcelo da Veiga Greuel (publicado em cadernos de leitura, UFSC, nº. 1, abril 1997)

Silvania Mendonça
Enviado por Silvania Mendonça em 10/04/2010
Reeditado em 11/12/2011
Código do texto: T2189236
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