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BRUMADINHO x FUNDÃO: 2 tragédias e nenhuma lição
 
Rompeu a barragem 1 da Vale no Córrego do Feijão em Brumadinho. A tragédia humana supera em muito a de Bento Rodrigues, de 5 de novembro de 2015. Mas o enredo é previsível:

1) 
Os advogados da Vale se empenharão profundamente para provar que o ocorrido foi inesperado, casual, fortuito. Obra do azar. Evento quase natural, tendo em vista que ele tem certa probabilidade X de ocorrência. 
2) O Ministério Público e a Polícia Civil têm 100% de probabilidade de encontrar provas incriminatórias suficientes para prender os (ir)responsáveis e punir exemplarmente a Vale.

Isso acontecerá? Provavelmente não. Isso me lembra, e muito, a Tragédia de Mariana de 2015.

Vamos voltar três anos e alguns meses no tempo para entender melhor o que disseram então sobre um fato frequentemente chamado de acidente inesperado. Poucos sabem que, em nenhum momento, a Samarco se preocupou em respeitar uma das premissas mais essenciais do projeto original: manter a lama de rejeitos afastada de pelo menos 200 m da barragem. Outro fundamento garantidor da segurança da barragem igualmente desrespeitado, baseado no conceito de “pilha drenada” era o dreno de fundo altamente permeável passando por sob o dique de partida. Se mal construído ou deteriorado feriria de morte o conceito mais crítico de segurança adotado no projeto. E assim foi. Dois erros cruciais e elementares. Só por muita presunção, ignorância, empáfia e irresponsabilidade seriam negligenciados. Pois bem, aconteceu de ser assim.

Uma coisa puxa outra. E assim, juntando-se as duas, os erros se acumularam na seguinte sequência.
1.     A grande quantidade de lamas de rejeitos se aproximou perigosamente da barragem e saturou os rejeitos arenosos que estavam impedidos, em grande parte, de drenar livremente o excesso de água intersticial devido a defeitos construtivos logo verificados no dreno de base, constatado quase imediatamente com o início de operação da bacia de rejeitos
2.     O nível de saturação aumentou, transferindo o problema dos rejeitos arenosos a montante da barragem para o próprio corpo da barragem
3.     O rejeito arenoso tinha reconhecido potencial de liquefação, requerendo apenas algum tipo de gatilho para se manifestar. Vários gatilhos contribuíram para isso: a crise no mercado das commodities baixou o preço e, para que a Samarco sustentasse suas metas de receita líquida era necessário aumentar a produção bruta. O volume de rejeitos aumentou substancialmente e, como consequência: a) a velocidade de alteamento subiu a níveis inaceitáveis; b) o incremento de tensões geostáticas em rejeito saturado elevou as tensões neutras no maciço
4.     A lama, desrespeitando a distância mínima de 200 m – uma espécie de Lei Maria da Penha para barragem de rejeitos que também não funciona – foi se aproximando da barragem (Dique Principal) à medida que ela, projetada para se altear pelo método de montante, ia recuando
5.     O recuo do eixo da barragem para montante na ombreira esquerda para a realização de uma obra de reparo em galeria atrasou muito, enquanto a barragem subia em ritmo alucinante e aproximou ainda mais a estrutura das lamas de rejeito
6.     Vários outros erros aqui não contabilizados (a inoperância do dreno de fundação levando a um incidente de Piping já em 2009, pouco depois que a barragem entrou em operação; o reservatório de lamas subindo mais rápido que o de areias; entupimento do dreno de fundo, ocasionando sua interrupção; aumento de carregamento sobre as camadas de lama dando início ao mecanismo de extrusão lateral em movimento distinto das areias saturadas; aumento do índice de vazios da areia em consequência da extrusão lateral passando a areia do estado compacto ao estado fofo - um dos mecanismos da liquefação; monitoramento imperfeito de deslocamentos e tensões neutras; e finalmente a existência de três pequenos abalos sísmicos no dia da ruptura) se somaram. A barragem, que já estava na iminência da ruptura, depois de dar inúmeros avisos de mau comportamento geotécnico, com sérias rachaduras no talude de jusante do recuo da ombreira esquerda, não resistiu.

Por volta de 15 horas e 45 minutos dezenas de pessoas trabalhavam na elevação de 900 m e em outros locais nas proximidades da crista do Dique 1, já com altura de 110 m. Tinha sido uma tarde atípica; os funcionários do escritório presenciaram três pequenos tremores de terra e cessaram as atividades. Na barragem as atividades corriam normalmente; equipamentos espalhavam material para mais uma etapa de alteamento ou construíam mais um tapete drenante concebido para aumentar a altura da barragem em mais 20 metros. E então começou a tragédia quando uma nuvem de poeira se formou acima da ombreira esquerda. Eis como se descreve sucintamente parte desta cronologia macabra.

O talude de jusante da barragem acabara de apresentar um vazamento e, na tentativa de reduzir o vazamento através do esvaziamento parcial do reservatório fora enviada ao local uma equipe de funcionários terceirizados. Mas já era tarde.

O que aconteceu no pequeno intervalo de tempo que antecedeu a ruptura foi casualmente bem documentado por um trabalhador situado nas imediações da brecha através de um vídeo amador gravado em telefone celular. A linha do tempo marcava 26 segundos quando tudo começou. Pessoas e vozes seguiam itinerários caóticos na praça do canteiro de obras improvisado a jusante da barragem do Fundão em trabalhos de manutenção. Mais 23 segundos e o vídeo capturou sons alarmados: “O que é isso? Um guindaste?” Uma voz mais enérgica, prenunciando a tragédia, gritou: “sai daí, peão!” E então todos se puseram a correr.

Quase imediatamente alguém se desesperou após indicar um ponto específico do talude: “Ali está caindo.” Seis longos segundos se passaram até que, com a câmera fixada naquele lugar, foi registrado o instante inicial da ruptura quando se destacou uma porção do maciço e o solo da barragem começou a escorregar em pequenas porções. Tudo muito rápido: 3 segundos mais tarde e a porção do maciço inferior à berma entrou em colapso depois de ceder e formar um arco com a curvatura voltada para baixo na direção da placa que se rompeu.

Então alguém gritou: “Você viu? Filmou, filmou? E tem mais...”. Tudo ainda parecia uma simples diversão para exibir aos amigos, mas, 3 segundos depois se abria a brecha primitiva. Primeiro, uma nuvem de poeira; depois a lama. A linha do tempo marcava 62 segundos. A brincadeira terminava aí. Pouco depois ocorreu o rompimento, que lançou um grande volume de lama de rejeito sobre o vale a jusante, em direção a Bento Rodrigues. A ruptura se consumara em um tempo absolutamente rápido, inferior ao da grande maioria dos registros históricos.

Daí em diante tremeu a mão do operador da câmera como se ele já estivesse se afastando da cena. Uma voz insistente assumiu o comando improvisado de salvamento até que se ouviram buzinas estridentes e o alarme de uma sirene. Tinham se passado exatamente 82 segundos. Menos de 20 trabalhadores uniformizados estavam reunidos quando o primeiro jato de lama começou a inundar o vale. O modesto córrego a montante de Bento Rodrigues parecia cumprir sua predestinação, transportando em seu vale uma colossal energia dos primeiros 32 milhões de metros cúbicos de lama e areia liquefeita. Depois de destruir a maior parte das casas do povoado a lama entrou no rio Gualaxo do Norte, continuando a destruição na zona rural e em outros povoados – Paracatu de Baixo, Camargos, Gesteira – até atingir Barra Longa.

A discussão é longa. Tão longa que deu origem ao livro “A TRAGÉDIA DE MARIANA – Lições da barragem de Fundão” que ainda não publiquei. Mesmo tendo consciência de que muitas outras barragens de rejeito estão em situação de perigo – não obstante a perniciosa garantia de estabilidade atestada por apressados engenheiros geotécnicos em suas inspeções de segurança – não contava que uma tragédia sucedesse a outra em um intervalo de tempo tão curto.
Qual será a próxima? Quando ocorrerá? Onde?

Seja qual for, quando for, onde for, as cenas se repetirão como um mantra. Engenheiros especializados se acovardarão com receio de perder seus nichos de mercado – nada falarão que comprometa a si mesmos e a seus contratantes. A imprensa explorando o mundo cão, que é a exaustão do noticiário envolvendo o drama humano, e às vezes animal. Os oportunistas – algumas celebridades de fama declinante ou querendo sustentar a que possuem; políticos demagogos reinventando a roda; falsos heróis; advogados venais; discursos e promessas que não serão cumpridos – surgindo desde os primeiros momentos. Prazo de validade: trinta dias. Foi o que aconteceu com a barragem de Fundão. Pré-marcada no calendário, a data de 5 de dezembro de 2015, que também marcava o aniversário do primeiro mês do trágico acontecimento, foi um corte brusco no noticiário. Dali em diante, notícias esporádicas, exceto quando o ocorrido completou 1, 2 e 3 anos.

Percorro diariamente o noticiário. Lá estão as fotos de sempre. As manchetes de sempre. O soldado do corpo de bombeiros no meio da lama salvando um cão. O rosto de um anônimo, em close, estampando seu desespero. Repórteres obcecados por notícias de impacto divulgando meias verdades de meio-especialistas. Entrevistas com gente indignada pedindo sangue em vez de justiça. Executivos dizendo que estava tudo em ordem.

Tudo vai se repetir agora e no futuro. A tecnologia de filtro-prensa continuará ignorada. A escolha de área para localização da barragem de rejeitos será feita pelo critério das três alternativas onde são oferecidas duas péssimas para justificar a escolha de uma muito ruim. O que está a jusante delas não importará. O critério é apenas econômico. Bento Rodrigues não teria sido varrida do mapa se ele não imperasse.

Lamento muito pelos mortos. Mais ainda pelos vivos. Lamento muitíssimo pelos que não têm voz e também se perderam: animais, plantas, estética paisagística, memórias.


 
Cornélio Zampier Teixeira
Enviado por Cornélio Zampier Teixeira em 28/01/2019
Reeditado em 25/02/2019
Código do texto: T6561281
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Cornélio Zampier Teixeira
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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