Messianismo Judaico e o pensamento do Padre Antônio Vieira
O texto “O Messianismo Judaico e o pensamento do Padre Antônio Vieira” (pp. 21-28), da pesquisadora Anita Waingort Novinsky, é resultado de uma conferência sobre Messianismo, um tema recorrente em todos os povos. É um texto de oito páginas onde ela conclui com a afirmação de que o Padre Antônio Vieira, assim como o cronista Damião de Góis, “atribuíram a causa do sofrimento dos judeus à ausência de um território nacional” (p.28). E diz que “Deus deu um mínimo território aos judeus para que eles se espalhassem pelo mundo e levassem a luz de sua fé e do verdadeiro Deus a todos os povos da terra” (p. 28).
Antes mesmo de entrar na apresentação e discussão do pensamento do Padre Antônio Vieira, a autora explica que a concepção de história judaica sempre colocou o Messianismo num lugar prioritário, “centrado na experiência do exílio” e que o povo judeu sempre se alimentou da ideia da Redenção, que livraria o seu povo e a humanidade das guerras e das injustiças e da crença de que Deus os levará de volta à sua terra.
Da mesma forma, abrimos aqui um parêntese para registrar o que são Messianismo e Sebastianismo:
* O Messianismo é a crença na vinda ou no retorno de alguém dotado de poderes especiais, que trará paz e a prosperidade na Terra, inaugurando uma nova era. Essa ideia está presente desde a Antiguidade em diversas religiões, inclusive as politeístas. A visão de mundo messiânica é espiritualista e animista. O termo também é utilizado para designar movimentos sociais comandados por um líder religioso, ao qual eram atribuídas qualidades como o dom de fazer milagres profetizar acontecimentos e realizar curas.
* O Sebastianismo, “Mito Sebástico” ou “Mito do Encoberto” foi um mito messiânico que surgiu em meados do século XVI em Portugal, que ficou conhecido por fazer referência ao desaparecimento do rei Dom Sebastião (1554-1578). Foi uma manifestação do fenômeno messiânico. Uma crença surgida em Portugal em fins do século XVI, consequência do desaparecimento de Dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578). Acreditava-se que o rei voltaria para salvar Portugal dos problemas desencadeados pelo seu desaparecimento.
Segundo a autora, há diferenças no conceito Messiânico Judaico e Cristão. O conceito judaico de Redenção, o social, o cósmico, o nacional é que serão redimidos. O Cristianismo, ao contrário, concebe a Redenção como um evento no nível e espiritual que vem refletido na alma, no mundo privado de cada indivíduo, cujo efeito é uma transformação interna que não precisa corresponder a nada do exterior” (p. 22).
O conceito messiânico cristão passa da arena da História para o nível da Psicologia; enquanto o Judaísmo insiste que o Messianismo é uma ocorrência histórica, situada no exterior do indivíduo (p. 22).
Ao Judaísmo faltava a figura de um Messias, um indivíduo que trouxesse a Redenção. Já no Cristianismo essa Redenção estava centrada na figura pessoal de Jesus.
O PADRE
O padre jesuíta Antônio Vieira (nascido em Portugal, em 06 de fevereiro de 1608) entra na cena num momento tumultuado século XVII, com inúmeros os acontecimentos políticos e militares sacudindo a Europa, em que os portugueses se entregavam a um sonho (a vinda do Salvador), a uma fantasia e a um mito (a volta de Dom Sebastião). Uma época em que o país enfrentava uma decadência material e espiritual, sem nenhuma produção científica e o ensino dominado pelos frades (p.24).
Os cristãos-novos eram perseguidos pela Inquisição por divulgar e discutir as ideias fantasiosas de Eanes Bandarra, o "Sapateiro de Trancoso", que inspiraram o Sebastianismo. O Padre surge com os seus devaneios messiânicos e propostas
pragmáticas em relação aos judeus.
O Padre Vieira é uma figura contraditória, que durante toda a sua vida esteve envolvido com o Judaísmo e com a questão judaica. Anita Novinsky afirma que ele tinha “propostas pragmáticas em relação aos judeus” (p. 25). As suas ideias sempre o levaram a ver o mundo de maneira diferente dos velhos-cristãos, inclusive no que se refere à sua visão de Deus, que era mais próxima a do Deus dos judeus do que a do Deus dos cristãos. “O Deus de Vieira é mais o Deus do Velho Testamento do que o Deus dos Cristãos”, chegou a afirmar Antônio Sérgio, segundo a autora (p. 25).
A obra de Antônio Vieira “Esperança de Portugal e a sua História do Futuro”, assim como a Clavis Prophetarum, foram em grande parte, o produto da sua convivência com os judeus e o líder da comunidade judaica de Amsterdã, Menassé Ben Israel e do encontro que teve com os judeus portugueses na França” (p.25). Nessa obra, segundo Anita Novinsky, o padre “levou às últimas consequências seu projeto messiânico, que é o próprio messianismo judaico, afirmando que o império de cristo será na terra e da terra, e não no céu e do céu” (p. 25).
De acordo com a pesquisadora, Antônio José Saraiva lembra que “não foi mera coincidência Vieira ter intitulado sua obra Esperança de Portugal, mas uma visível e consciente cópia de Esperança de Israel, de Menassé Ben Israel”. O Padre Vieira, além de cartas e poesias, escreveu textos proféticos. Para ele, “foi a vontade de Deus que levou os judeus espanhóis para Portugal em 1492, para que, em um mesmo território, se unissem ambos os povos, judeus e portugueses, e ambas as religiões, num Império Universal” (pp. 25-26).
Em algumas leituras aparece a suspeita de que o Padre Vieira poderia ser um cristão novo (judeu convertido ao cristianismo) e isso inspirou os seus posicionamentos e escritos. A sua vida e obra foram marcadas pelo envolvimento em questões políticas e religiosas. Mesmo sendo conselheiro da Corte Portuguesa (1641), embaixador e homem de confiança do rei, posicionava-se como defensor dos cristãos-novos.
Essa postura do religioso, sempre atrelada à defesa dos cristãos-novos, provocou inimizades entre os colonos e membros da Igreja, tanto em Portugal quanto no Brasil, e gerou inimigos dentro da Igreja, levando-o a ser perseguido pela Inquisição portuguesa.
O Padre Antônio Vieira foi preso e condenado pela Inquisição, “por suas ideias impregnadas de Judaísmo” (p. 26). Mesmo assim, depois de cumprir a sua pena e já exilado em Roma, fez inúmeras petições e cartas favoráveis aos judeus, opondo-se ao decreto régio que determinava a expulsão do reino de todos os cristãos-novos acusados de judaísmo. Era um pragmático que chegou a afirmar que “favorecer aos homens de nação ou admiti-los neste reino, na forma que se propõe, não é contra lei alguma, divina ou humana, antes é muito conforme aos sagrados cânones (...). O judaísmo não passa de homens da mesma nação (FSP, 2000).
A questão da vinda do Messias, que gerava conflitos entre cristãos velhos e novos também recebeu do Padre uma resposta considerada uma afronta ao catolicismo daquele tempo. Ele escreveu que a profecia da vinda do Messias, ainda não havia sido cumprida, pois a condição fundamental para a sua chegada era a paz. Também fez referência a volta dos judeus à Palestina dizendo que não é “somente uma promessa de Deus, mas é um direito legítimo” (p. 27). Dizia ainda que os judeus “têm pleno direito de esperar o momento quando retornarão à sua pátria, e ai, e somente ai, haverá paz na terra” (p.27).
Esse texto “O Messianismo Judaico e o pensamento do Padre Antônio Vieira” (pp. 21-28) está no livro “Sebastianismo & Messianismo – Itinerários do Sebastianismo de Portugal a Pernambuco e o Messianismo no Brasil e no mundo”, organizado pelo professor Caesar Sobeira.A pesquisadora Anita Novinsky, já falecida, era graduada em Filosofia pela Universidade de São Paulo-USP (1956) e tinha doutorado em História Social também pela USP (1970). Foi consultora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e tinha experiência na área de História, atuando nos temas relacionados aos judeus, inquisição, cristãos-novos e marranos.
BIBLIOGRAFIA
CARVALHO, Paulo S. M. de. "Em defesa do sangue hebreu: propostas de Padre Vieira
sobre os cristãos-novos em Portugal". Revista Humanidades em Diálogo, USP. V. 9
(2019) - https://www.revistas.usp.br/humanidades/article/view/154282
NOVINSKY Anita Waingort. “O Messianismo Judaico e o pensamento do Padre
Antônio Vieira” (pp. 21-28). In: ,SOBREIRA, Caesar. “Sebastianismo & messianismo:
itinerários de Portugal a Pernambuco e o messianismo no Brasil e no mundo”. Recife:
UFRPE, 2012.
S. PAULO, Folha de. “Vieira e os judeus. Opinião. São Paulo, 08 de junho de 2000 -
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0806200010.htm