Cobra Kai: uma análise psicanalítica do seriado
Cobra Kai nos ensina que o passado nunca morre de verdade: ele apenas espera, nas sombras do inconsciente, pronto para se manifestar em nossas fraquezas. No entanto, diferente do que pensa quem teme os próprios fantasmas, isso não significa que estamos condenados a repetir os erros. O passado, enfrentado com coragem e compreensão, pode ser um mestre poderoso - e a Psicologia (em especial à luz das abordagens Psicanalíticas, que uso neste olhar sobre a série) nos mostra como isso se desenrola dentro da mente desses personagens que tanto amamos e odiamos.
Johnny Lawrence, um eterno bad boy que nunca superou sua própria ruína, é o retrato de um homem preso na fixação da juventude. Seu inconsciente luta desesperadamente para corrigir o trauma de sua derrota para Daniel "San" LaRusso, no torneio de 1984. Mas essa obsessão com um evento específico da sua história é apenas um sintoma: o verdadeiro sofrimento de Johnny vem da relação com um pai abusivo e ausente, posteriormente projetado na figura de John Kreese - um mestre que confundia força com brutalidade. O Cobra Kai original não formava guerreiros, formava prisioneiros do medo, condicionando seus alunos a atacarem antes de pensar, a vencer antes mesmo de entender o que significa lutar. Lawrence passa grande parte da série tentando quebrar esse ciclo, ainda que tropeçando em suas próprias falhas. Sua maior luta não é contra Daniel, nem contra Miguel, ou mesmo contra Kreese ou Terry Silver. Sua luta é contra o garoto amedrontado que ainda vive dentro dele e que nunca ouviu de ninguém que era bom o bastante no que quer que fosse.
E Daniel San? Se Johnny vive preso no passado de suas derrotas, Daniel vive tentando provar que já superou o seu. Ele veste a máscara de alguém bem-sucedido, marido dedicado, empresário de sucesso. Mas um olhar psicanalítico nos mostra que a máscara não apaga o que há por trás dela. No fundo, LaRusso é tão refém do passado quanto Johnny Lawrence. Ele precisa constantemente reafirmar sua identidade como o mocinho da história, o aluno exemplar do Sr.Miyagi, o filho perfeito, e qualquer ameaça a essa narrativa o desestabiliza. É por isso que ele reage a Johnny com tanto rancor, sem perceber que está projetando nele suas próprias inseguranças. Assim como Johnny, Daniel não quer apenas derrotar um adversário, ele quer provar para si mesmo que ainda é aquele menino forte e destemido que superou as adversidades.
Mas o seriado não é apenas sobre esses dois homens presos na "roda do carma". Cobra Kai mostra que a batalha entre luz e sombra acontece dentro de todos nós. Miguel, o prodígio de Johnny, é um jovem que começa buscando proteção e autoconfiança, mas que facilmente se deixa seduzir pelo caminho da violência - afinal, a raiva oferece uma resposta rápida para o medo. Sam, filha de Daniel, herda o legado do pai, mas também carrega alguns de seus conflitos internos, oscilando entre o equilíbrio e a tentação da agressão. Robby, filho de Johnny, talvez seja o mais trágico dos jovens, pois carrega dentro de si a dor do abandono, buscando desesperadamente um mestre, um pai, uma direção. Lá no fundo, todos estão procurando a mesma coisa: um sentido para suas dores, uma maneira de transformar sofrimento em crescimento.
Chegamos então ao coração da questão: a redenção. Não há um vilão absoluto em Cobra Kai, assim como não há um mocinho perfeito. Todos carregam traumas, falhas, erros. Kreese, com sua frieza implacável, não nasceu um monstro - ele foi forjado pela guerra, pelo abandono, pelo sofrimento. Terry Silver, com sua visão distorcida de poder, também foi moldado por suas próprias inseguranças. Até mesmo personagens secundários, como Hawk, mostram que a agressão pode ser apenas uma máscara para a dor. Mas, se ninguém é puramente vilão, isso também significa que ninguém está além da salvação. Todos podem mudar e crescer. Esse é o ensinamento fundamental do seriado. Mas redenção não significa apagar o que já aconteceu. Negar o passado é um erro tanto quanto viver preso a ele. O verdadeiro equilíbrio vem da integração: Johnny precisa aprender que força não é sinônimo de brutalidade. Daniel tem que aceitar que não pode ser o único dono da verdade. Miguel, Robby, Sam e os outros precisam compreender que identidade não se constrói apenas na oposição ao outro, mas na aceitação da própria complexidade.
No fim das contas, Cobra Kai é uma metáfora sobre a psique humana. Cada dojo representa um aspecto do nosso ser: o Cobra Kai original é o id, instintivo e agressivo, guiado pelos medos e pelos desejos. O Miyagi-Do é o superego, a voz da moralidade e do equilíbrio, buscando sempre a paz, mas às vezes ingênuo em sua recusa à luta. E quanto ao equilíbrio? O equilíbrio está na fusão e aceitação de que força e compaixão não são opostos, mas se complementam.