REFLEXÕES SOBRE "O ADEUS DO FUTURO AO PAÍS DO FUTURO"
Depois de ler pouco mais de quarenta páginas do ensaio “O Adeus do Futuro ao País do Futuro: Uma Biografia Breve do Brasil”, do sociólogo Francisco de Oliveira, no livro “Brasil: uma biografia não autorizada” (Ed. Boitempo, 2018), cabe alguns comentários, com o desejo de que alguém possa também contribuir com outras impressões.
O texto de Francisco de Oliveira é um estudo histórico sobre o desenvolvimento brasileiro. Reúne um conjunto de informações acerca da formação do país, desde a Colônia até tempos mais recentes.
O autor traz sempre esclarecimentos e análises sobre os diversos episódios históricos e econômicos vivenciados pelo país ao longo dos tempos. No texto, observa-se até a comparação feita entre os processos que nortearam a colonização portuguesa, no Brasil, e a colonização espanhola no restante da América Latina. Oliveira chega a afirmar que "somos menos latino-americanos que nossos vizinhos" (p. 33).
O ensaio é dividido por quatro subtítulos: “Síntese da formação histórica brasileira” (pp. 27-32), “O lugar do Brasil na América Latina” (pp. 32-40), “A vertigem da aceleração: quinhentos anos em cinquenta” (pp. 40-70) e “Um epílogo provisório” (pp. 70-78).
No texto é possível notar o censo crítico e o humor do autor na sua narrativa sobre a forma como ocorreram determinados episódios históricos, a exemplo do que se segue: “uma independência urdida pelos liberais, que se fez mantendo a Família Real no poder e se transformou imediatamente numa regressão quase tiranicida; um segundo imperador que passou à história como sábio e não deixou palavra escrita, salvo cartas de amor um tanto pífias; uma abolição pacífica, que rói as entranhas da monarquia; uma república feita por militares conservadores, mais autocratas que o próprio imperador” (p. 32).
Também se observa que há um certo pessimismo do sociólogo com toda essa trajetória histórica do Brasil. Para ele, por tudo e pela forma como narra, não há futuro para o país do futuro, como bem está descrito no título do artigo: “O adeus do futuro ao país do futuro...”
Não há como negar que é um texto crítico, mas também reflexivo, que leva ao leitor traços e peculiaridades da formação socioeconômica do Brasil. Nele Francisco de Oliveira viaja por “grandes” acontecimentos da história do país, que são estudados desde o ensino fundamental até hoje, na academia: passa, com pequenos relatos, pela Colonização, a Independência, a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República, a Revolução de 1930, o golpe de 1964 e a ditadura (1964-1984); chega ao processo de redemocratização até a ascensão do PT/Lula da Silva ao comando do Brasil.
Oliveira dá a entender que essas foram passagens da história brasileira que poderiam levar a outros caminhos e outros resultados (a partir da ruptura), mas que não ocorreram por conta do conservadorismo que sempre esteve presente na vida nacional. Ressalte-se, que estes “grandes” momentos sempre foram protagonizados pela elite do país, a elite econômica, e não pela base da população.
As mudanças que ocorreram sempre foram feitas pelas mãos de uma elite conservadora, escravista, patrimonialista, com pensamento autoritário e poder sobre as classes subalternas, formadas majoritariamente por negros e índios escravizados - e a partir do fim do século XIX, também por pobres imigrantes europeus trazidos como mão de obra barata para o Sul do Brasil.
O autor faz ver que desde os anos de 1930 se tem “uma política econômica conservadora, medrosa, anti-intervencionista (p. 68) e que o Brasil tem uma tradição de “revolução passiva”, sem sangue, sem choro nem vela (p. 71), fazendo alusão a uma música do compositor de samba Noel Rosa, da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro.
A maior parte do ensaio está focado na abordagem relacionada ao período da economia brasileira pós-1930, narrado e comentado no terceiro subtítulo, que é “A vertigem da aceleração de um desenvolvimento de quinhentos anos em cinquenta” (pp. 40-70), surgida na era Getúlio Vargas e que tem continuidade durante o governo de Juscelino Kubitschek, que é marcado com a chegada e a instalação das indústrias automobilísticas e de grandes empresas capitalistas, a exemplo dos japoneses, que “chegaram pela porta da associação de capitais na indústria siderúrgica” (p. 49).
Tais transformações (econômicas, sociais, trabalhistas, culturais e políticas) contribuíram para que os militares tomassem o poder, com a deflagração do golpe de 1964, que muitos ainda teimam em chamar de revolução.
Após o processo de redemocratização do Brasil, Francisco Oliveira assegura que todos os governos pós-Sarney (Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva) ocorreram sob o rótulo de “neoliberais”. Segundo ele, tais gestões presidenciais caracterizaram-se por “política antirreformas sociais, antirregulacionista, antidireitos do trabalho e direitos sociais em geral que marca o neoliberalismo” (p. 66).
Há ainda as críticas do cientista ao PT, ao presidente ao Lula da Silva, as formas de dominação praticadas pelo petismo sobre a sociedade e a classe trabalhadora, e o surgimento do lulismo - criado e mantido graças ao assistencialismo mantido pelo programa Bolsa Família. São críticas duras, de quem, um dia, também esteve naquela trincheira que se classificava como a esquerda.