A NOVA ILHA DO TESOURO, volume completo

 

A NOVA ILHA DO TESOURO, volume completo

Miguel Carqueija

 

Resenha do mangá “A nova ilha do tesouro”, de Osamu Tezuka. Volume completo editado no Brasil por New Pop Editora, São Paulo-SP, 2017. Título original japonês: “Shin Takara-Jima, Tazuka Productions, 2017. Primeira edição no Japão em 1947. Tradução: Fábio Sakuda. Complementos: “Diário do meu começo de carreira” e “História até chegar à versão revisada de Shintakarajima” (A nova ilha do tesouro), textos de Osamu Tezuka.

 

O mencionado diário foi escrito por Tezuka (1926-1989) nos anos de 1946 e 1947. Achei meio banal mas ele era muito jovem, e já se movia no círculo de mangás, produzindo e sendo pago. Tezuka é a lenda do mangá, autor de trabalhos prestigiadíssimos como “Astroboy”, “Kimba, o leão branco” e “A princesa e o cavaleiro”. Seu traço é bem característico mas não é dos melhores, os personagens são arredondados, como os do brasileiro Maurício de Souza, que aliás se tornou seu amigo.

Pela leitura do artigo vemos que essa versão definitiva foi revisada pelo autor, que modificou alguns detalhes e, pelo que eu entendi, ficou realmente melhor.

Eu nunca havia lido um mangá tão antigo, feito até antes do meu nascimento.

 

“Pete, Pete. Foi divertido, não?”

(Pan)

“Os sonhos devem acabar na melhor parte.”

(Pan)

 

 

A trama parece bastante ingênua e até boba, mas vai ganhando mais interesse e consistência com o avanço da história. Tudo gira em torno de Pete, um garoto de idade indefinida que, tendo encontrado um mapa do tesouro nos papéis de seu falecido pai, procura um amigo deste, um capitão de navio (Capitão Butamo Makeru, como revela Tezuka em seu artigo, mas no mangá seu nome não aparece; todavia sabe-se que o personagem tornou a aparecer em outras histórias, onde ganhou o nome). Só que os piratas comandados por certo Boar (pirata que não tem o braço e a perna da esquerda, que um tubarão comeu, e no lugar usa gancho e perna de pau), um gorducho cruel e obstinado.

É estranho, mas o garoto dirige um carro e o abandona no cais.

O que segue é a longa disputa que têm Pete, o cachorrinho Pan (uma fada disfarçada) e o capitão de um lado e Boar com seus asseclas do outro. Aí aparece Baron, uma espécie de Tarzan, que vive na ilha do tesouro, confraternizando com os animais.

Apesar do desenho tosco a aventura é interessante e o final, modificado por Tezuka 40 anos depois, entra no campo da fantasia.

Um dos pontos mais curiosos é que Pete fica perplexo porque personagens que ele imaginou vão aparecendo, o que parece inexplicável. O detalhe de olhar pelo olho da caveira posta numa árvore deve se basear no conto “O escaravelho de ouro”, de Edgar Allan Poe.

Infelizmente há passagens de mau gosto, como aquela em que o chefe pirata Boar manda enfiar uma cobra morta pela boca de um dos seus asseclas, por puro mau humor.

Para quem não conhece a mecânica da publicação de mangás no Japão: o autor vai publicando em capítulos em alguma revista que edite capítulos de vários mangás, de autores diferentes, por número. Depois, juntando vários capítulos, são produzidos os mangás com apenas uma história. Às vezes é uma série curta, que reúne apenas um volume completo, ou são pequenas séries com dois, três, cinco volumes. Outras são mais compridas e chegam a dezenas de volumes. Porém, existem também as edições completas, creio que coisa mais recente, volumes gigantes que juntam em um ou poucos volumes, toda a coleção. Este volume que eu resenhei é uma edição completa.

 

Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 2025.