Boca do Inferno, de Ana Miranda

por Márcio Adriano Moraes

Em 1990, a cearense Ana Maria de Nóbrega Miranda recebe o prêmio Jabuti de Literatura na categoria Revelação pelo seu romance Boca do Inferno, lançado no ano anterior. A partir dele, a autora escreve em uma série de romances históricos os quais trazem à tona personalidades que foram, sobretudo, fundamentais para a história da Literatura: em A última quimera (1995), o poeta Augusto dos Anjos; em Clarice (1996), a escritora Clarice Lispector; em Dias e Dias (2002), o poeta Gonçalves Dias; em Semíramis (2014), o romancista José de Alencar; em Musa Praguejadora (2014), o poeta Gregório de Matos; o qual é o responsável por Boca do Inferno.

 

Transportando o leitor para o século XVII, Ana Miranda, em Boca do Inferno, utiliza o assassinato do alcaide-mor Francisco Teles de Menezes, fato ocorrido em 1683, na Bahia, durante o Governo de Antonio de Souza de Meneses, como ponto de partida para um enredo que entrelaça figuras históricas e personagens ficcionais, recriando o ambiente cultural e político de uma das épocas mais marcantes da história colonial brasileira. Dois personagens ganham relevo, o Padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”, principais nomes do Barroco literário no Brasil.

 

O sacerdote jesuíta e sua família, os Ravascos, tornam-se alvo de perseguição do Governador, em virtude da participação do sobrinho de Vieira, Gonçalo Ravasco, na emboscada que resultou na morte de Teles de Menezes. O padre, na obra, além de sua orientação religiosa, ganha destaque com seu posicionamento político, com posturas ousadas e polêmicas. Enquanto sua luta pelos direitos dos indígenas e sua retórica brilhante o tornam uma figura progressista, ele também é um representante do sistema que perpetua a exploração e a opressão. Através de Padre Antonio Vieira, o papel da Igreja é explorado em sua ambiguidade, representando tanto um espaço de resistência quanto um instrumento de dominação.

 

Por sua vez, o poeta satírico, Gregório de Matos Guerra, assim como em sua poesia, é apresentado como uma figura ambígua. Sua mordacidade e crítica ácida à sociedade baiana são ao mesmo tempo instrumentos de resistência e reflexos de suas contradições pessoais. Ele seria um cronista do seu tempo, que não poupa a Igreja, a elite e os costumes; mas que é vulnerável às tentações do poder e do privilégio. Sua intimidade também é explorada no romance, como os seus envolvimentos amorosos, entre os quais com Maria Berco.

 

Com habilidade narrativa, a autora é capaz de interagir personagens ficcionais, como a Maria Berco, com pessoas reais. Na narrativa, além de Padre Antonio Vieira e Gregório de Matos e políticos, há também referências a intelectuais da época como Rocha Pita e Bento Teixeira. Para edificar este panorama historiográfico, Ana Miranda usa um foco narrativo em terceira pessoa, o que lhe permite adotar um tom quase cinematográfico, alternando entre cenas grandiosas e momentos de intimidade, sem perder a conexão com o contexto histórico. A narrativa, desse modo, é marcada por um distanciamento que facilita a análise crítica, aproximando o leitor das complexidades humanas das personagens, e possibilitando a articulação entre a recriação histórica e a ficção, entre o real e o imaginado.

 

O livro é dividido em seis capítulos: A cidade, O Crime, A vingança, A Devassa, O Destino e Epílogo. Para dar credibilidade ao seu texto, Ana Miranda utiliza fontes históricas, como cartas, sermões e poemas, e as combina com sua própria criatividade para produzir um romance que é tanto uma reconstrução do passado quanto uma obra de arte autônoma. A verossimilhança histórica é reforçada por detalhes minuciosos, mas o que realmente distingue Boca do Inferno é a maneira como a autora utiliza a história como um espelho para questionar e problematizar questões contemporâneas, como a corrupção, as desigualdades sociais e o uso do poder.

 

Importante destacar que o espaço predominante da narrativa é a Bahia, o coração político, econômico e cultural do Brasil durante o século XVII. Salvador, como primeira capital do Brasil, desempenhava papel central na administração, no comércio e na cultura. Centro do poder lusitano nas Américas, a cidade concentrava as principais dinâmicas do sistema escravocrata, com a produção de açúcar como atividade econômica dominante, além de ser um território de constantes disputas entre a elite colonial, a Igreja e os interesses da Coroa. Uma cidade, assim, que refletia, em sua riqueza e decadência, as tensões que caracterizavam o período colonial. Na obra, Ana Miranda captura a vitalidade e os conflitos dessa sociedade em transformação, expondo suas contradições e o cotidiano de seus habitantes. De um lado, o luxo das elites e a força política da Igreja; de outro, a pobreza e a opressão que marcavam a vida do povo. Essa Bahia, com sua vivacidade e conflitos, é mais que um cenário; é quase uma personagem que traz as tensões, os conflitos e a decadência de uma sociedade construída sobre as desigualdades.

 

Boca do Inferno, de Ana Miranda, portanto, mostra como a literatura e a oratória são tratadas como armas poderosas, capazes de resistir ao poder, mas também de perpetuá-lo. Com claro interesse em abordar um período literário brasileiro, a tensão entre os ideais do Barroco — representados pela busca de harmonia em meio ao conflito — torna-se central na narrativa,  perceptível tanto nas personagens quanto no enredo. A inserção de elementos ficcionais permite que a autora explore aspectos subjetivos e emocionais das personagens históricas, conferindo-lhes uma humanidade que, muitas vezes, falta nas narrativas puramente historiográficas. Dessa forma, ao reviver o passado colonial brasileiro, não apenas homenageia figuras como Gregório de Matos e Padre Vieira, mas proporciona um olhar crítico sobre as raízes das contradições que ainda marcam nossa sociedade.

 

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