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O FILME PARASITA É UM ESCULACHO AOS POBRES; OU CARÁTER PODE SER COMPRADO.

    O filme Parasita, vencedor do Oscar 2020, no fundo é uma ferrenha crítica aos pobres. Sei que minha intepretação pode parecer um tanto extravagante, mas vários pontos do filme me levaram a essa conclusão. A começar pelo título: Parasita. Chamar alguém de parasita, sem sombra de dúvida, não é um elogio. No filme, a alcunha parasita claramente se refere a família pobre. Isso ficou muito evidente quando a matriarca pobre compara sua própria família a baratas.
    Outro ponto que me chamou atenção; ao comparar os defeitos dos ricos com os defeitos dos pobres, percebi que os defeitos da família pobre são bem superiores e moralmente mais graves do que os da família rica. Eles são preguiçosos, mentirosos, aproveitadores, traiçoeiros, enganadores, com tendências homicidas e ainda por cima, não têm solidariedade de classe. Enquanto os ricos são apenas ingênuos, dependentes, elitistas, submissos ao filho e têm desejos sexuais estranhos (e, pensando friamente, isso nem chega a ser um defeito e tão pouco tem a ver com classe social).
    É claro que se pode argumentar que o filme na realidade faz uma crítica do modelo social econômico (apesar de a Coreia estar mais rica e ter os melhores índices de desenvolvimento humano de toda a sua história), e que o capitalismo e suas desigualdades de classe produziriam comportamentos degenerados. No entanto, o filme não fica apenas na crítica superficial e generalista ao “sistema econômico”. Ele desce mais profundamente nas relações humanas. Mais especificamente, nas relações conturbadas entre duas famílias, uma abastada e outra empobrecida.
    Vejam bem, eu não estou querendo dizer que o filme retrata os ricos como bons e os pobres maus. O ponto fundamental aqui é que, na hierarquia dos defeitos (e sim, existe uma hierarquia de defeitos), o filme apresenta os defeitos dos pobres como sendo bem mais graves e imorais do que os defeitos dos ricos. Por exemplo, ocorreram quatro mortes na história e uma tentativa de assassinato. Todos esses crimes bárbaros foram cometidos pelos pobres. Inclusive, teve pobre matando pobre. Será que isso já não é um defeito de caráter suficiente? Isso sem considerar as mentiras, trapaças, enganações, invasão de propriedade e até roubo cometido pelos pobres.
    Numa das cenas do filme, é dito por um personagem algo mais ou menos assim “eles (os ricos) são bons por que são ricos. Se eu fosse rico, também seria bom”. O que está implícito nesta fala é que o caráter pode ser comprado. Então as diferenças entre pobres e ricos não seriam apenas econômicas, mas também morais. É como se a pobreza embrutecesse e a riqueza civilizasse.
    Essa forma de ver ricos e pobres não é natural e é extremamente preconceituosa. A tradição cristã, sobretudo a católica, tem uma visão diametralmente oposta a essa. No pensamento da Igreja, frequentemente a pobreza é vista como uma condição absolutamente necessária para a elevação moral e até mesmo para a santidade. Veja os exemplos do próprio Cristo e de santos como São Francisco de Assis.
    Agora eu pergunto: por que mesmo diante de um comportamento tão deplorável muitas pessoas não perceberam que o filme é uma crítica aos pobres? A razão disso é porque no fundo, essas pessoas acham que a pobreza é uma desculpa plausível para a falta de caráter, para a desonestidade e para uma vida de crimes. E pior, elas consideram que o defeito mais grave de todos é ser rico. Vi um comentário de uma garota dizendo que os pobres se redimiram dos seus pecados no final do filme, quando se revoltaram contra a “injustiça” e mataram geral. Na cabeça distorcida dessa garota, a violência do pobre é sempre justa e o rico comente um crime muito maior só por ser rico. Por isso o assassinato de uma família rica, numa festa de aniversário, em frente aos seus filhos, é visto como um ato de virtude e de redenção.

Velho Ranzinza
Enviado por Velho Ranzinza em 11/02/2020
Reeditado em 11/02/2020
Código do texto: T6863793
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Velho Ranzinza
São Paulo - São Paulo - Brasil, 36 anos
33 textos (564 leituras)
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Velho Ranzinza