Cantiga de João Soares Coelho

Trabalho de Literatura comparada apresentado ao professor Carlos Pires.

A seguinte análise busca observar uma cantiga medieval de João Soares Coelho, o qual foi um trovador e cavaleiro medieval do Reino de Portugal, do conselho real do rei D. Afonso III. As obras compostas pelos trovadores costumavam utilizar recursos mnemônicos, que facilitavam a memorização , já que eram passadas através da música e não da escrita. Com essa técnica de repetição, muitas cantigas não se perderam. Vale salientar que, tais composições se encontram na língua galego-português, falada durante a Idade Média nas regiões de Portugal e da Galiza. Desse modo, existem quatro gêneros de cantigas : de amigo, amor, escárnio e maldizer. No grupo das satíricas encontram-se as de escárnio e maldizer; no da lírica a de amor e amigo. A cantiga de amigo não é direcionada ao “amigo” no sentido que conhecemos, mas à figura do “namorado”. Sabendo disso, vejamos a seguinte composição, a qual se encontra no grupo das líricas, sendo uma cantiga de amigo.

Fui eu, madre, lavar meus cabelos

a la fonte e paguei-m'eu delos

e de mi, louçana.

Fui eu, madre, lavar mias garcetas

a la fonte e paguei-m'eu delas

e de mi, louçana.

A la fonte, e paguei-m'eu deles;

aló achei, madr', o senhor deles

e de mi, louçana.

Ante que m'eu d'ali partisse,

fui pagada do que m'el disse,

e de mi louçana.

No tocante ao aspecto expressivo formal, essa obra possui suas estrofes formadas por tercetos, contendo no total 12 versos. A mesma segue o tradicional paralelismo, o qual conduz a organização da composição em pares de estrofes. No entanto, o faz de forma mais livre. Desse modo, a 1ª estrofe segue o esquema (ABR), a 2ª ( A’B’R), a 3ª (BCR) e a 4ª (DER). A composição utiliza, ainda, o recurso leixa-pren, o qual concretiza-se no último verso variável que abre o par subsequente, isso ocorre na 3ª estrofe. Os verbos são empregados 3 por estrofe, em sua maioria, no pretérito perfeito. A 1ª estrofe possui: fui, paguei-m' ; a 2ª : fui, paguei-m'; a 3ª : paguei-m' e achei e a 4ª: fui pagada. Esse emprego traz à composição uma matiz histórica, como se fosse uma espécie de narrativa contada pelo eu-lírico. Ainda há a presença de verbos no infinitivo (lavar), pretérito imperfeito do subjuntivo (partisse) e no presente (disse); todos contribuindo para essa demonstração de conto. Os substantivos madre, cabelos, fonte, louçãna, garcetas e senhor são todos termos semânticos relacionados ao eu-lírico. O termo “louçãna” remete-se ao substantivo moça, "garcetas" refere-se a uma porção de cabelos entrelaçados e a fonte é o cenário no qual a narrativa ocorre e onde a personagem encontra o senhor.

Observemos também essa composição em relação a sua estrutura sonora. Percebemos que a sibilante /s/ está presente em todo final de verso. Na 1ª estrofe podemos ver seu aparecimento em "cabelos" e "delos"; na 2ª em "garcetas" e "delas" ; na 3ª em "deles" e na 4ª em "partisse" e "disse". A presença da nasal /m/ também pode ser notada. Na 1ª estrofe aparece em (madre, meus, fonte, paguei-m', mi); na 2ª (madre, mias, fonte, paguei-m', mi); na 3ª (fonte, paguei-m', madre, senhor, mi) e na 4ª (ante, m'eu , m'el , mi). No tocante à rima, a cantiga apresenta elementos que rimam, na 1ª estrofe: “lavar meus cabelos” com "paguei-m' eu delos" ; na 2ª: "lavar mias garcetas" com "paguei’m eu delas"; na 3ª em: "paguei-m'eu deles" com "o senhor deles" e na 4ª: "eu dali partisse" com "que m’el disse". Essa rima ocorre, mais precisamente, na terminação das palavras. Desse modo, na 1ª estrofe a rima ocorre através dos fonemas /ELOS/ ; na 2ª através de /ETAS/ e /ELAS/ ; na 3ª por /ISSE/ e na 4ª por /ELES/. No tocante à acentuação, pode ser considerada grave , uma vez que, a penúltima sílaba da última palavra de cada verso é tônica, isto é, paroxítona.

Vejamos ainda o ritmo dos versos nessa cantiga. Vale salientar que, o ritmo não é dado pela divisão silábica, mas pela divisão em unidades que compõem o movimento de ondulação de todos os versos. Se dissermos o verso de forma natural, perceberemos que é marcado por sílabas fortes que se elevam sobre as demais. Averiguemos os versos da 1ª estrofe :( Fui EU/ , MA/dre , laVAR/ meus caBE/los) (a la FON/te, e paGUEI/-m' eu DE/los). Desse modo, há unidades determinadas pela acentuação, seguidas por pausas que caem depois de cada uma das sílabas tônicas. Os versos da 2ª estrofe possuem um ritmo parecido com o da 1ª : Fui EU/, MA/dre, laVAR/ mias garCE/ttas) ( a la FON/te, e paGUEI/’m eu DE/las) . Isso ocorre devido ao paralelismo, isto é, essa estrofe é uma variação da 1ª. A 3ª fica da seguinte forma: (A la FON/te, e paGUEI/-m'eu DE/les) ( aLÓ/ aCHEI/, madr', o senHOR/ DE/les). Nessa estância, podemos observar uma inversão. A 1ª e 2ª estrofe possuem em seu primeiro verso 4 tônicas e no segundo apenas 3. Isso não ocorre com a 3ª , que possui seu primeiro verso formado por 3 tônicas e o segundo por 4.

Observemos também a 4ª estrofe, que fica da seguinte forma: (AN/te que M'EU/ d'aLI/ parTI/sse,) (fui paGA/da do QUE/ m'el DI/sse,). Essa estância é formada da mesma forma que a 3ª, tendo 3 tônicas no primeiro verso e 4 no segundo. No entanto , seu primeiro verso inicia-se com uma tônica, diferentemente do que ocorre em todos os versos anteriores. Esse ritmo pode ter sido empregado para produzir uma acepção de fim na cantiga. Vale salientar que , todos os versos possuem uma característica em comum, isto é, mantêm a tônica na penúltima sílaba da última palavra. Essa alternância de tonicidade e atonicidade dentro desses grupos silábicos formam as unidades rítmicas, as quais constatamos possuir uma similaridade, a 1ª com a 2ª estrofe e a 3ª com a 4ª. Antônio Cândido fala em sua obra O Estudo Analítico do Poema que o ritmo cria a unidade sonora do verso, as palavras sua unidade conceitual. Essas unidades sonoras e conceitual são as que formam a integridade do verso, que é a unidade do poema. Então, podemos dizer que o poema é feito de versos, os quais são suas unidades significativas.

Após observar quais eram as unidades sonoras e rítmicas que constituem uma modulação, a qual corresponde ao que o poeta quer dizer objetivado na forma de versos; vejamos também essa cantiga em um nível parafrástico. Desse modo, a cantiga fala sobre uma moça, que conta algo para sua mãe. Ela diz que foi a uma fonte lavar seus cabelos e lá contentou-se, sentiu prazer com ele ( seu cabelo). Vale salientar que, no galego-português o verbo “pagar” possui também o sentido de sentir prazer. Em seguida o eu-lírico diz o refrão que completa a frase anterior. Ela contentou-se de seus cabelos e de si mesma moça. A narrativa continua e a jovem utiliza um novo sinônimo para cabelos, que é o termo “garcetas” (cabelos entrelaçados) e diz também que nessa fonte conheceu o senhor deles (dos cabelos) e de si. Após conhecê-lo, foi satisfeita pelo que ele disse.

Além de observar a cantiga a nível parafrástico, vejamos ainda os símbolos apresentados nesse conto. Durante a idade média , no Trovadorismo , era comum a representação das questões sexuais por alguma atividade comum àquela época. Ir a fonte, por exemplo, é um ato comum em diversas cantigas, seja para lavar roupas ou outros elementos. Desse modo, a água é um símbolo muito utilizado nessas composições para representar o feminino. Isso ocorre devido ser associada à pureza, representando por vezes a castidade, a virgindade feminina. A fonte é o local onde a água nasce, sendo a mais pura , a primeira água; dessa forma, ratifica essa concepção do puro. Além disso, pode referir-se também ao fluido que é comum às mulheres. Os cabelos ou garcetas estão ligados à sensualidade; podendo representar, segundo a tradição judaico-cristã, uma das armas mais importantes da mulher. Essa noção de provocação sensual relacionada aos cabelos femininos pode ser vista na origem dessa crença, a qual não permitia que as mulheres fossem ao templo com a cabeça descoberta.

Em uma conversa com a mãe a jovem diz que ao lavar os cabelos na fonte “achou” o (senhor deles e de mi). A fonte e os cabelos são elementos simbólicos. Os cabelos apontam para a força erótica, indicando uma moça virgem que os lava sensualmente; e a fonte funciona como um elemento espacial relacionado à renovação e à fertilidade. Antes que a jovem fosse embora foi satisfeita pelo que o senhor de seus cabelos e de si disse à mesma. Desse modo, a cantiga faz menção à realização do ato sexual entre a moça e o senhor. O autor assume nessa cantiga a voz feminina, passando-nos uma imagem da consumação de um desejo, que foi realizado através de uma sexualidade assumida e satisfeita mutuamente. Gramaticalmente podemos ver a presença do feminino junto ao masculino através das rimas delos/delas. Os símbolos nessa obra podem ser encontrados em fatores relacionados à natureza, religião e ao corpo humano. A utilização desse elemento é comum nas cantigas de amigo pertencentes à poesia trovadoresca. Desse modo, o autor utiliza-se dessas figuras representativas e traz à sua obra aspectos sutis que serão desvendados pelo leitor.

Referências Bibliográficas:

CANDIDO, Antônio. O estudo analítico do poema. 3ª edição. São paulo. Humanitas FFLCH/USP, 1996.

Galego-português. Wikipedia, 2019.Disponível em :

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Galego-português>

Acesso em: 8 de dez. De 2019.

João Soares Coelho. Wikipedia, 2019. Disponível em:

<https://pt.wikipedia.org/wiki/João_Soares_Coelho>. Acesso em: 8 de dez. de 2019.

MACEDO, Helder. Três daces de eva: imagens do feminino na poesia medieval galego-portuguesa. In: Metamorfoses. Rio de Janeiro. Cátedra Jorge de Sena UFRJ.

Rima na Poesia. Lusofoniapoetica, 2019. Disponível em:

<https://www.lusofoniapoetica.com/teoria-poetica/rima.html>. Acesso em: 10 de dez. de 2019.

Versos, Estrofes e Rimas. Rachacuca, 2019. Disponível em:

<https://rachacuca.com.br/educacao/literatura/versos-estrofes-e-rimas/>. Acesso em: 8 de dez. de 2019.

Isabel Oliveira do Nascimento
Enviado por Isabel Oliveira do Nascimento em 23/12/2019
Reeditado em 08/01/2021
Código do texto: T6825519
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