EarthBound

Durante grande parte de minha vida, por mais que tentasse, nunca consegui ter grande afinidade com RPGs – nem mesmo depois de velho.

Sou um amante de mundos fantásticos, e sempre gostei bastante de livros de fantasia, com criaturas mitológicas, dragões, magos, monstros e coisa que o valha, mas por alguma razão a mim alheia não consigo entrosar-me com os enredos de RPGs – meus dois palpites para tamanho embaraço são minha falta de paciência para seguir as pétreas regras de jogos deste estilo, com suas constantes missões e subquests, e também a seriedade constante de seus personagens. Não gosto de quando algo é demasiado sério ou demasiado cômico: acho importante saber equilibrar as duas facetas para criar uma obra interessante. Como já disse, não passam de palpites – mas a verdade é que nunca consegui terminar nenhum RPG que comecei, por mais que me esforçasse para avançar na história.

No ápice de meu desespero, e querendo superar este grande entrave de minha vida pessoal, tentei uma última vez dar uma chance a um RPG – escolhi desta vez o famoso “EarthBound” (ou “Mother 2”), muito conhecido entre apreciadores do gênero por sua aura mítica; seu desenvolvimento foi complicado, os dois outros jogos da trilogia à qual pertence nunca foram lançados fora do Japão, e mesmo depois de anos seu séquito dedicado de fãs ainda tem-lhe em altíssima estima. Precisava ver com meus próprios olhos o que este jogo tinha de tão especial, e se de fato merecia tanta devoção em meio à cultura popular.

Minha primeira surpresa logo no início foi ver que o jogo não é ambientado em nenhum mundo legendário e pseudo-medieval, e sim num país de ares norte-americanos nos anos 90. Algo incomum, pensei. Minha segunda surpresa foi a premissa: ainda que exagerada para propósitos cômicos, já que todos os três jogos da trilogia “Mother” são conhecidos por parodiar convenções e estereótipos do gênero RPG, também possui momentos de gravidade e até de beleza. Sem maiores explicações, uma simples criança (Ness) dotada de poderes psíquicos está predestinada a derrotar uma entidade cósmica malevolente feita de puro caos (Giygas); em sua jornada, conhece três outras crianças (a telepata Paula, o retraído Jeff e o príncipe Poo), e ao mesmo tempo em que todos estão cientes de suas obrigações, atirados em meio a tamanha aventura, agem inevitavelmente como crianças.

Apesar desta estética urbana e contemporânea, o jogo não é desprovido de momentos de fantasia: em meio a cidades e subúrbios, com casas, arranha-céus, hotéis, farmácias e lojas de conveniência, há o Vale dos Srs. Saturno, habitado por adoráveis criaturas rosadas que, como o nome indica, todas se chamam “Sr. Saturno”; há também os Tenda, verdes e tímidas criaturas que habitam num vale pré-histórico na companhia de dinossauros; e além de Giygas, que é um ser incorpóreo, Ness deve lutar contra um colorido rol de inimigos, indo de animais hostis e hippies a placas de trânsito ambulantes, carros vivos, xícaras de café, discos de vinil, alienígenas, entre vários outros que não haverei de enumerar pois sempre gosto de fazer com que meu leitor se surpreenda.

Entretanto, o que mais me cativou como um todo em “EarthBound” foram três coisas: a primeira é seu precioso senso de humor japonês, imprevisível e aleatório, que pode ou arrancar boas risadas ou causar estranhamento e embaraço a quem joga. Dou meu exemplo favorito: em que outro jogo um homem gorducho de fraque e cartola desceria dos céus para fotografar-lhe, apenas para depois voltar ao céu da mesma maneira que desceu? (E mais uma vez, que seja este o único exemplo; que graça teria se eu tentasse explicar todas as piadas, que são várias?)

A segunda é a trilha sonora; coisa em que sempre presto bastante atenção em se tratando de formas de mídia. Ora brincalhona e excêntrica, com alusões inclusive a ícones da cultura ocidental como os Beach Boys e os Beatles, ora atmosférica e inquietante, consegue equilibrar os momentos de humor e seriedade com uma fluidez inimaginável. E a terceira são os visuais de 16 bits, simplistas e agradáveis aos olhos, coloridos e vistosos e quase que remanescentes dos desenhos de Charles Schulz.

Desnecessário dizer, “EarthBound” foi o primeiro RPG que completei, e com muito orgulho de tê-lo feito. Não que não seja desprovido de falhas; é um jogo demasiado difícil e longo, e seu sistema de inventário não é nada intuitivo e pode levar algum tempo até ser dominado. Porém, estas falhas de nada importam ante seus personagens coloridos e carismáticos, enredo interessante e as lições que ensina sobre o valor da amizade e da resiliência em face das adversidades. É possível ver que este jogo, em meio a tantos outros que parecem cópias um do outro, foi feito com muito carinho e seus desenvolvedores se divertiram bastante no processo.

Concluindo meu raciocínio, tenho apenas mais uma coisa a acrescentar: “Fuzzy pickles!”.

(São Carlos, 26 de agosto de 2021)

Galaktion Eshmakishvili
Enviado por Galaktion Eshmakishvili em 15/03/2016
Reeditado em 26/08/2021
Código do texto: T5574582
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