A   RUA  EM  QUE  EU  MORO


A casa
estava mais vazia do que nunca.  Quando apaguei a luz do meu quarto, olhei através da janela, vi a luz da rua em que eu moro, tão sem graça, quase penumbra,  a sinfonia estava suave, ocupando o espaço escuro da noite.


Afastei-me da visão da rua,  peguei os meus  travesseiros, todos tão branquinhos,  parecendo neve...  Neve, que me faz lembrar a Suíça, que sonho!  Senti a solidão das aves, senti a falta das estrelas,  senti falta, senti tanta falta de poder dividir o chocolate quente que daqui a pouco eu iria tomar,  senti a sua falta...  Pensei;   - A essa hora o meu amor está dormindo, Até fui em pensamentos até a sua cama beijar  você dormindo. Tão lindo! Amor,  meu amor.

Em qual espaço desse mundo eu não estive em pensamentos, com você?  Já brincamos de viver tantas coisas juntos...  Mas você não está, estando, estando intensamente em minha alma, assim...  Sempre.
 

 

A música continuou.  Reportando-me à sinfonia do amor que  mora distante,  música,  que só hoje pareceu em suas notas, dizer -me todas as palavras guardadas. Hoje,  ela não queria que eu apenas a escutasse ou guardasse os secretos anseios da minha alma. O Silêncio me trouxe a lembrança do caminho quando a ouvimos juntos,  um, ouvindo o silêncio do outro...  "Silêncio"  Beethoven  - Sei que  se lembra.


E viajei, fechei os meus olhos por alguns instantes. Nós tão separados e tão juntos, causou-me  uma vontade maior do que todos os sonhos sonhados. Tê-lo aqui comigo.
 

Lembrei de um trem à moda antiga, em preto e branco, lembrei da estação da antiga solidão, da minha  máquina de datilografia quando eu escrevia cartas e cartas de amor,  um amor que estava no futuro.
 

Gostoso é haver chegado nesse futuro para encontrá-lo.  Ouvi a voz do tempo da minha juventude onde eu lhe procurava tanto e nunca o havia encontrado, lembrei o meu vestido de debutante,  por incrível que pareça, ele era azul, lembrei que nunca encontrei o par perfeito para aquela  valsa no baile à meia noite,  as luzes eram tantas,  os componentes da orquestra estavam trajados à rigor, casais se abraçavam, e eu estava só, muito só, mesmo assim nunca desisti,  insisti que o amor existe.  Estava colando grau, concluindo o colegial...
 

E  o  amor,  ele  existe,  o  amor  é  você...  Você.
 

Aquele trem... Que adentrou o tempo, rasgando em berros, em gritos! Atordoando o meu mundo, chegando até os novos tempos, com os antigos trilhos adornados hoje, por uma mata agora verde, verde, verde. Tudo colorido.  Tudo mudou, as velhas máquinas trocadas por novos métodos.  
Os meus sonhos não mudaram,  você é o Dono dos Meus Sonhos.  E eu ainda não posso tocá-lo, mas posso senti-lo e você está aqui e em todo lugar.  Confortando o meu coração, eu amo você, você é exatamente o homem da minha vida.

 

Na hora,  a cama pareceu  gigante, o teto pareceu-me tão distante.  A sinfonia,  parecia pingos de neve que caiam sobre os lençóis, lentamente, silenciosa insônia... Reflexiva, tocando fundo tudo.  Não era a solidão, não era melancolia, não era. Era mais que uma falta, era uma vontade latente da sua presença física, do seu corpo junto ao meu,  falta da sua voz... Não, não havia nenhuma lágrima, era um silêncio tão profundo de desejos.  Era o amor mexendo comigo de uma forma intensa e gostosa, parecendo que eu havia parado de existir naquele instante eu era só pensamentos e entrega pra você.

Pela força desse amor por  você,  sobrevivo.  Onde tudo se torna mais nítido, as vontades, as evidências,  o amanhecer. Ou melhor!  -Com a plena certeza de que eu vou tê-lo em meus abraços.  A minha alma sossegou, a sinfonia continuou tocando. Certamente eu dormi assim, o melhor de tudo ainda mais, era essa certeza, a de tê-lo. Como consolo divino eu sonhei com você.  Acordei feliz demais.
Liduina do Nascimento.​

Liduina do Nascimento
Enviado por Liduina do Nascimento em 28/10/2013
Reeditado em 11/12/2021
Código do texto: T4545113
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