CARAVAGGIO, GOYA E FARNESE DE ANDRADE

CARAVAGGIO, GOYA E FARNESE DE ANDRADE

ESSES ARTISTAS PINTORES passaram suas vidas atentos à observação intensa, profunda, abrangente e atualizada em seus respectivos tempos, e no tempo da vida humana. O DNA de cada um desses pintores possui pontos de convergência irrefutáveis. O tempo e o espaço parecem não ser preponderantes. Nomeiam-se indefiníveis, como se escapassem á percepção mais ligeira do observador. Este, observador, é reportado a algum lugar do passado que, simultaneamente, reporta-se a algum lugar no futuro. A algum lugar do inferno existencial humano. A Arte deles desperta a percepção do acontecer da Criação. Exige do espreitador que se manifeste no olhar investigativo.

ELAEO MARIDO ESTAVAM sempre dispostos a me submeter à estratégia que não lhes saía da cabeça. Era como se, antes mesmo antes de eu ter nascido o casal tivesse combinado que, ao nascer, eu eles haviam acreditado que estaria tudo pronto para que eu tivesse uma vida dedicada a fazer eu me ferrar. Era como se tivessem combinado entre eles, e repetido:

— “Nascerá para catar coquinhos’.

— “A casa vai cair pra ele”.

— “A chibata vai sempre estalar no coro dele”.

— “Vai se ralar à-toa na vida”.

— “Está marcado com ferro em brasa.

— “Está com o futuro cravado”.

ESSAS AFIRMAÇÕES QUERIAM dizer o quê??? Segundo algumas pessoas me disseram, quando viajaram para fazer turismo no Rio de Janeiro, e não me levaram com eles. Eles, preteriram-me, substituíram a mim por meu irmão nascido logo depois de mim. Eu fiquei, com outros filhos menores deles, abandonado à própria sorte. Com eles também levaram a irmã Vanja. Ambos se tornariam ferrenhos fanáticos defensores de tudo que havia na mente deles. Mãezona não fazia nada sem cobrara alma daqueles por quem fazia alguma coisa. Irmão Manu e Vanja se tornaram escravos anímicos, devedores do privilégio de terem sido escolhidos para acompanharem-nos na viagem à Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil.

O FILHO PRIMOGÊNITO DO casal, eu, nascido no “Oratório do Demônio”, no berço esplêndido de suas tramas hostis, estava em mãos de uma plêiade de influências deletérias que me mantinha no cercadinho familiar e extrafamiliar de intenções as mais sórdidas. Minha intuição, meu sexto sentido, sempre me dizia que eu jamais poderia contar com aquela dupla de mandinguentos que tinha, em Paizão, o filho de meu avô paterno, um habitante da Rua Dr. Satã Mini, número 20, apartamento 101, no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro.

COM GRANDE CUSTO DE meu tempo íntimo, privativo, e dificuldades inenarráveis, eu, futuramente, aos poucos ia conseguindo encaixar as vinte e cinco mil peças do puzzle que o casal de seres das sombras, meus pais, tinham feito-me despedaçar. Juntar esses vinte e cinco mil pedaços de mim, era um desafio sobre humano que eu aceitei. Aceitei porque não poderia fugir da responsabilidade de ordenar os estilhaços que me separavam da compreensão do que haviam feito de mim mesmo.

A MIM SEMPRE FOI EVIDENTE que houve entre eles um pacto com as forças mais obscuras da natureza secreta dos que habitavam o porto do Inferno em direção ao qual remava o Barqueiro Caronte. Eu não poderia simplesmente saltar desse barco e nadar até uma de suas margens. Mesmo sabendo da possibilidade de haver uma terceira margem no rio Hades que eu precisava encontrar para sair do larbirinto. As homéricas provações que a adversidade a qual me havia reservado meu simples nascer, eu as tinha de vencer.

EU, O PRIMOGÊNITO DESSE casal chegado às trevas e pactos com criaturas que, por certo, não tinham a simpatia de um ser de cognição, consciência, compaixão e decência. Eu, criança indefesa, traída por aqueles que deveriam, devido a união atribuída ao casamento, me proteger e abrigar das forças tenebrosas ás quais me lançavam sem nenhum pudor ou piedade. O casal de seres miseráveis do qual nasci, queriam que eu fosse, a qualquer preço, o Cordeiro do Sacrifício que os libertaria de suas misérias existenciais. Que os limparia de seus carmas e ancestralidade torpe, vil, reles, desvalida.

O CERCADINHO EM TORNO de mim construído com a manipulação de minhas condições miseráveis, familiar e social objetivas, estava edificado com a madeira da floresta às margens dos rios afluentes do Hades: o Rio da Dor (Aqueronte),o Rio dos Lamentos (Cócito), o Rio do Fogo (Flegetonte), o Rio Lete (Esquecimento) e o Estige (da Invulnerabilidade). Conseguiria eu, mal saído da infância, perdido na noite do Rio de Janeiro, vivendo de empregos provisórios, por vezes valendo-me de filar um prato de comida no apartamento de meus avós paternos, que não conseguiam disfarçar a rejeição que sentiam por mim, vencer com resistência sobrenatural, as quilométricas águas desses afluentes caudalosos do Inferno???

EU NÃO TINHA TEMPO NEM disposição para ter pena de mim. Estava entregue aos cuidados de uma mulher doente, magérrima, uma das irmãs de minha mãe: tia Ayanna. Seu nome significa” flor bonita”, “flor eterna”. Era tudo que ela não era. Segundo Mãezona, tia Ayanna, viúva de um marido assassinado por inimigos os quais ela nunca definiu quais, havia legado três filhos: duas filhas, uma das quais havia descambado, desde cedo, em direção à intensa revolta odiosa contra tudo e contra todos. Criadas por duas senhoras ligadas á família paterna, moravam à meia quadra do principal puteiro da cidade na Rua Paissandu.

O FILHO DELA, UM RAPAZ um rapaz tiririca e adamado, fora forçado a trabalhar desde cedo para não passar necessidades básicas e prover a mãe Ayanna, a avó materna e um tio demente, de café com leite e pão, no almoço uma refeição frugal, na janta as sobras dessa refeição. Antes de dormir, pão que havia sobrado do café da manhã, mantido numa sacola branca pendurada num prego na sala de jantar próximo à Tv preto e branco.

ERA TUDO QUE TINHAM: pão e circo. A tia irmã de Mãezona e Ayanna, tinha uma irmã que morava em Copacabana, na “Wonderful City”. Chamava-se tia Eudes. Casara-se com um engenheiro agrícola. Havia herdado o salário do pai, meu avô materno, juiz de direito. Nessa época a filha ou filho primogênito tinha direito de herança sobre o salário do pai, que na época era irrisório. com salário irrisório. O avô paterno morreu de cirrose por beber até cair. Seu nome, Eudes, quer dizer rica, afortunada, poderosa.

RELATIVAMENTE ÀQUELA família ela era mesmo rica, do ponto de vista material. Juntamente com o salário do pai, meu avô materno, havia herdado um terreno contíguo à casa em que moravam miseravelmente sua velha mãe e o irmão demente, no bairro Jardim América, em Fortaleza. Ela poderia ter doado o mísero salário da aposentadoria legado pelo pai, ou doado o terreno convizinho à casa. Ela não precisava nem de um nem de outro. Mas não perdeu a oportunidade de preservar tudo para si, sem pensar em aplacar a vida miserável em que vegetavam a mãe, o irmão e o sobrinho.

OS EPISÓDIOS DESTA NOVELA satírica, humorística, didática e autobiográfica, estão retratados com erudição, sapiência e virtuosismo nas pinturas dos três representantes da Arte Realista e Naturalista que saiu fora dos estereótipos e concepção romanceada que vigorava, de alguma forma, em seus respectivos tempos da criação imaginada em termos de cenas representativas de rostos e situações de radiante expressividade.

(P.S: TEXTO DO LIVRO "ONDE A LUZ DA LUA ME VÊ BRINCAR").

DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 12/02/2023
Reeditado em 12/02/2023
Código do texto: T7717321
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