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RIOS DE SANGUE: a saga em torno da busca ao suposto tesouro de Francisco Solano López

PRIMEIRA PARTE:
CORONEL HERMES GONÇALVES: MEMÓRIAS

CAPÍTULO 1
AS MEMÓRIAS DE UM CERTO CORONEL HERMES:
 
1.1 O HOSPITAL DOS VETERANOS.
O local é num Rio de Janeiro. Rio que está situado na transição de século XIX para XX, no qual eu, Coronel Hermes, um veterano, condecorado militar do ex-Exército Imperial do Brasil, narro. Faço isso mentalmente neste drama aqui revolvido como terra por lavrador. Sou um protagonista que, na forma de pensamentos, numa alcova opaca, típica duma enfermaria, recupera, voluntária e involuntariamente, as cenas. Cenas de quem fora testemunha ocular de um genocídio: o maior genocídio da América do Sul, durante a fase púbere dos seus Estados nacionais!
Tratam-se as minhas reminiscências dos principais acontecimentos bélicos e todos os demais, econômicos e diplomáticos, que dão o enredo da estória e da História. A estória da minha vida, desde o final da puberdade até a infância da terceira idade, e a História de quatro nações do meridional sul-americano, abaixo do Trópico de Capricórnio. São elas: parte do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, na segunda metade do século XIX (todas, naquele momento, na aurora dos seus sentimentos de nacionalidade).
As paredes hospitalares, na qual estou internado, confinado e abandonado, são duma pintura deteriorada. Elas estão com infiltrações aparentes, a dar uma atmosfera sentimental de "mofamento", que é mais meu do que do reboco, por assim dizer, caro leitor.
As paredes, defronte a minha cama, projetam, sem quer, minhas memórias que saem dos meus olhos em direção aos seus tijolos, como numa alvorada sem fim.
Estou, moribundamente, num cair da tarde, do qual consigo espiar na fresta da janela, por meio de olhos cansados e levemente cerrados, um rasgo de luz solar, já dando um último suspiro.
Chão de madeira é o da enfermaria. Os passos nele fazem um "toc-toc" bem seco. São passadas das enfermeiras e do arrastar dos pacientes “descangotados”. Camas de ferro brancas do local, com um pouco de ferrugem, são túmulos que ainda preservam corpos vivos, sorumbáticos, de homens que investiram, numa guerra posta pelo capricho das civilizações, seus instintos bestiais em nome de uma palavra: soberania.
Uma janela na qual vem uma nesga de luz, com um jardim suspenso do lado externo, faz uma tênue iluminação.
Ela atinge meu rosto com cicatrizes de riscos de espada que sofri dos paraguaios, esquivando-me de estocadas nos teatros de operações nos "chacos" guaranis: pântanos "enlameados" de sangue e pedaços de braços decepados cegamente no frenesi das batalhas.
Viver uma guerra é perder a capacidade de ficar perplexo!
Fui reformado alguns anos antes de 1899. Não progredi ao generalato. Não consegui ser um general do exército brasileiro, agora republicano. Isso por conta de graves traumas emocionais, causados por uma neurose de guerra, que fazem que eu me deite em qualquer lugar, caso eu ouça barulhos estrondosos.
(...)
Nisto entra uma enfermeira e afere, tocando-lhe o rosto, se está tudo bem. Fica mensurando temperatura e levantando as pálpebras dos pacientes que não respondiam as suas cutucadas. Diz para todos esperarem que a janta será servida em alguns minutos: uma sopa rala de batata com pedaços de carne, já "mornando". Ela mesma colocava na boca dos convalescentes.
Começa a cair uma forte chuva com trovões e o teto da enfermaria goteja, demonstrando sua fadiga. Eram chuvas típicas do verão fluminense, exuberante na sua tropicalidade, não dando trégua ao escaldante calor, logo após a torrente do céu. Alternando-se em mormaços e tempestades diluviais, muitos bairros eram enlameados e inundados, demonstrando a precariedade urbana carioca, após o fim do Império e da Abolição da Escravatura.
HERMES FALANDO SÓ:
- Nem os trovões eu tolero mais, pois choro, pois o som dos canhões foram algo recorrente nos meus ouvidos durante 6 anos. Um “buummmm” tão seco e forte que perpassava meu tórax como num golpe de bumbo de banda marcial. A Guerra foi quem me causou isso? Qual? Qual seria?
- A Guerra do Paraguai, um conflito alastrado no extremo meridional da América do Sul, que cooptou o Império do Brasil, comandado por Dom Pedro II, já balzaquiano, e o Uruguai, de Venâncio Flores, a Argentina de Bartolomeu Mitre, e o Paraguai, de Solano Lopez, também outro balzaquiano como Dom Pedro II, entre os anos 1864 a 1870.
- Meu Deus! Quantas ignomínias eu assisti petrificado e introjetei dentro de mim como névoas de pesadelos que saem do meu sono como chorume de lixo, para o pavor da minha alma. Todas as guerras, contadas, claro, que pelos seus vencedores, são revestidas de belos valores; mas o trajeto para consolidação destes valores é satânica, e o que não faltam são mentiras e mais mentiras, além de heróis fabricados para alimentarem o ego nacional.
- Crianças paraguaias sendo degoladas por ordem do Conde d’Eu: isso quando rompemos a resistência paraguaia em Assunção, alguns biênios antes de matarmos Solano! Eu não tive nem mais coragem de ter filhos, logo após o fim da Guerra. Não conseguiria beijar um filho meu novo, pois eu mesmo degolei vários meninos em Cerro Corá, em vingança aos meus amigos que tombaram.
- Pernas de combatentes gangrenando e sendo cortadas no serrote pelos meus comandados, por falta de médicos de campanha! Realmente numa Guerra você alimenta ou um sadismo eufórico ou uma profunda vergonha de ter nascido ser humano.
CAPÍTULO 2:
AS NEGOCIAÇÕES DIPLOMÁTICAS NUM CAFÉ EM LONDRES.

Eu, Coronel Hermes, posso dizer: a Guerra da Tríplice Aliança foi "palmilhada" por uma atuação pontual dos embaixadores ingleses. Eles fizeram tudo para acirrarem os ânimos das jovens e imaturas nações que foram marcadas por forte dependência colonial, com exceção da brasileira. Já as demais eram cabedais em relação a Espanha (o Brasil era lusitano). Eram nações ainda formando seus Estados nacionais, com burocracias ainda, principalmente no ramo diplomático e das finanças, sem muito o que oferecer aos gigantes do Hemisfério Norte, a não ser matérias-primas agropecuárias ou minerais.
Os diplomatas vitorianos turvavam um país oligárquico contra o outro. Eram países com elites oligárquicas, sem industrialização, sendo o Brasil além de retrógrada como todas as demais, escravocrata também. Isso para cambiarem armas, como canhões e rifles, e emprestarem libras esterlinas a juros exorbitantes, por meio das casas financeiras dos grandes banqueiros de origem anglo-judáica.
Não era como narram alguns historiadores, pelo motivo suposto da Inglaterra temer o avanço do Paraguai: era apenas ganhar dinheiro mesmo. A ideia é esta.
HERMES FALANDO SÓ:
- Como me disse um embaixador britânico, nos meus tempos de adido militar, em Londres, após o conflito, em 1879:
- A guerra conduz o ser humano aos extremos do horror e da compaixão. A guerra é digna de uma ópera.


2.1 A ATUAÇÃO DIPLOMÁTICA

O embaixador John Morgan era um típico inglês. Estava por volta dos 40 anos. Sua fronte continha cavanhaque ruivo, óculos equilibrado na ponta do nariz e vestimentas típicas de um Lord, no momento que Solano invade o sul de Mato Grosso e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, entre 1864 e primeira metade do ano de 1865. Seus ancestrais ofertavam-lhe credenciais ao posto tão elevado na chancelaria inglesa. Vários da sua linhagem nobre pertenceram as Câmaras altas da Monarquia britânica, desde a Revolução Gloriosa e todos os acontecimentos liberais que marcaram os séculos XVII e XVIII, em prol da “ditadura parlamentarista” nos arquipélagos do Atlântico Norte. Era advogado no paradigma de "common low" e economista político liberal formado em Oxford, na sua pátria mãe: o Reino Unido, apaixonado por Adam Smith e David Ricardo.
A Rainha Vitória, a monarca britânica no momento da Revolução Industrial, que ascendera a Inglaterra a maior potência econômica e militar do século XIX, o havia delegado a tarefa de mediação dos interesses ingleses na América do Sul.
Morgan, neste intento, dispunha de um navio vapor luxuoso da esquadra inglesa, no qual transitava no eixo Rio de Janeiro e estuário do Rio da Prata, na Argentina, adentrando, em muitas das vezes, no Rio Paraguai, em visitas, "diplomático-comerciais", às oligarquias daquela área.
Conversando comigo, num café de Londres, em 1879, nove anos após o fim da Guerra, quando eu, Coronel Hermes, era funcionário da embaixada brasileira naquela país de clima cinzento e frio, representando os interesses militares do Segundo Império brasileiro, Morgan assim me disse:
JOHN MORGAN:
- Você pode dar um recado ao Ministro da Fazenda, Hermes? Ando recebendo memorandos no meu gabinete, Coronel, de bancos que financiaram aquela aventura de vocês nos chacos do Paraguai....
HERMES:
- Bem... não estou aqui para ser garoto de recados, pois estou aqui, em Londres, na missão de dar pareceres sobre armamentos para reequiparmos nossas forças militares terrestres e não passarmos mais aquele sufoco como fora no extremo sul do Paraguai, precisando comprar de vocês, a toque de caixa, armamentos a preços tão caros. Mas posso dá-lo sim, por boa educação...
JOHN MORGAN:
- Diga que aumentaremos os juros daqueles empréstimos que fizemos para vocês comprarem armas nossas. Os Rotchields (banqueiros anglo-judeus da época) estão reclamando dos atrasos constantes de Dom Pedro II em depositar os valores, por meio dos repasses do Banco do Brasil.
HERMES:
- Realmente estamos atravessando um momento de queda dos preços do café. Isso já que vocês estão especulando. Basicamente com o café da costa oeste da África, usando estoques torrados dos portos daqui da Europa. Também há baixas nas exportações oriundas do Vale do Rio Paraíba, por falta de um bom sistema de ferrovias que vocês não querem construir para nós, ligando o oriente de São Paulo ao Rio de Janeiro. Dom Pedro II necessita melhorar o sistema de escoamento de São Paulo, que é uma Província que agora que está fornecendo o café em quantidade, mas sem mão-de-obra escrava o suficiente, o que está complicado, já que vocês proíbem nosso tráfico negreiro e estamos aqui na Europa vendo como resolvemos nosso problema de mão-de-obra, angariando colonos no sul da Itália.
- Vamos achar o ouro de Solano López e pagaremos com ele. Resta apenas que Madame Lynch diga onde ele está. Tortura resolve tudo....
...
Cabe lembrar, caro leitor, que é fomentada uma lenda, muito presente na oralidade dos vilarejos e povoados das depressões da Bacia do rio Paraguai, recorrente, especialmente, na região da Província de Mato Grosso, entre os chacos dos rios Aquidauana, Miranda e Apa, que Francisco Solano López enterrou o ouro. Uma quantidade absurda de ouro! Ouro de seu palácio no caminho até Cerro Corá, extremo norte paraguaio, adentrando uma parte nos pantanais brasileiros. Trata-se do caminho que vai até o palco de sua decorada: na Batalha de Campo Grande, no setentrional daquela país: a batalha das crianças paraguaias.
Quando entramos em Assunção, entre ondas que vão de 1868 a 1870, após vencermos o cerco da fortificação de Humaitá, a fortaleza que o Brasil fez para os paraguaios, décadas antes, e acabou sendo usada contra nós, por Francisco Solano López, nós não encontramos o nosso alvo: o ditador, que era um dos homens mais ricos da América do Sul. Nós o queríamos morto e pagando, com seu espólio, os prejuízos sofridos por brasileiros, uruguaios e argentinos.
Também não havia mais uma moeda se quer nos bancos da capital paraguaia e nem mesmo no palácio que hospedou aquele tirano, nem o lastro aurífero. Logo, por meio de torturas que nós fizemos em criados e soldados remanescente, soubemos que López havia enchido alguns tonéis de vinho com joias, moedas, diamantes, esmeraldas e rubis que presenteavam sua esposa, Madame Lynch, para ir enterrando em pontos estratégico, não sendo encontrado por mais ninguém, a não ser ele e sua esposa, caso ele morresse, como veio a acontecer.
Até o momento, ninguém contou se achou ou não esta fortuna, que passa de dezenas de milhões de libras.



CAPÍTULO 3:
MEMÓRIAS DO CORONEL HERMES NO QUARTO DE ENFERMARIA

Hermes ainda está na cama da enfermaria do Hospital dos Veteranos da Guerra do Paraguai, no Rio de Janeiro, no ano de 1899, sendo atormentado pela sua memória. Assunto novo já existia nos jornais da época: o Brasil trava, naquele momento, um dos maiores conflitos da recém promovida República: a Guerra de Canudos. Era um conflito contra compatriotas, no extremo setentrional do estado da Bahia, coisa que Hermes acompanha por meio dos comentários que ouve dos médicos que o visitam.
Hermes é um militar empedernido, pois não abre mão da doutrina que lhe moldara.
Não teve filhos, mas tinha irmãs e sobrinhos, os quais o abandonaram no Hospital, após o interditarem na justiça, por conta dos seus espasmos e de sua fala às vezes trêmula: psicopatologias da guerra.
Uma de suas sobrinhas, Rosa Maria, filha de um dos seus irmão, o comerciante Pedro Hermes, havia ficado como sua curadora, e sacava seu soldo de coronel reformado sem lhe dar qualquer satisfação.
Hermes não tinha mais forças para lutar contra Rosa Maria. Preferia estar ali mesmo, no hospital de veteranos. Não tinha mais nada a perder.
HERMES FALANDO SÓ:
- Por esse motivo, hoje, em 1899, já sob os ares republicanos, no Brasil, estou aqui num quarto com uma leve sombra, num fio de luz, num lugar, com disse o capitão Marcelo, meu médico de nervos:
“- cheira ferida e esparadrapo; cheira coma...”.
HERMES FALANDO SÓ:
- Sou eu e mais dois militares que dividimos este pequeno “purgatório”, na acepção dantesca, onde expiamos os pecados de um povo que nem sabe que lutamos por ele. Muitos de nós estamos aqui abandonados pelos nossos familiares, pois nos tornamos pessoas não muito polidas no trato familiar ou social.
- Do lado esquerdo, o cabo Isidoro. Um negro que foi colocado a força entre os voluntariado da pátria, oriundo de uma fazenda de cacau de Itabuna, na Província da Bahia. Ele acorda-me a noite com “tosses remanescentes de tuberculosas”, pois passara muitos e muitos dias, encharcado, com as chuvas dos chacos, nas batalhas do Tuiutí, no sudoeste paraguaio, onde ficamos anos a espera de uma chance de entrarmos em Assunção, a cerca de 300 km de nós, e fazermos o que López mandou na invasão de Corumbá/MT e Uruguaiana/RS: estupros e saques.
- Do lado direito do meu leito, por sua vez, estava o tenente Ramiro, filho de fazendeiros do café do Vale do Paraíba, que chegou ao oficialato, pois era um praça apenas, mas salvou a vida de um tenente coronel, na época belicosa; caolho e manco por causa de uma perna gangrenada que lhe fez perder o pé esquerdo, andava como um zumbi entre as camas da enfermaria, durante o dia. Perdeu um olho na invasão da fortaleza de Humaitá, às margens do rio Paraguai, que nós, do Brasil, havíamos construído décadas antes para estes malditos paraguaios guarnecerem sua capital, a poucos quilômetros desta fortificação!
- São dois homens que além de feridas no corpo, trazem feridas na alma, pois deram os melhores dias da sua mocidade às causas nacionais. Causas estas que eles não criaram. Apenas emprestaram como poderia dizer jocosamente Maquiavel: “sua violência em nome de ideais “belos”, carregados de espírito de epopeia”.
Neste momento, o Tenente Ramiro fala para Hermes, ambos deitados nos seus leitos hospitalares.
TENENTE RAMIRO:
- Coronel, se ainda tivesse forças, eu iria até Assunção e faria o caminho da retirada de López até onde foi a Batalha de Los Ninõs. Eu mesmo interroguei alguns praças lá no palácio de Assunção. Um deles havia pertencido a guarda pessoal de López, que vivia ameaçado de assassinato pelos seus "oficiais generais", pois a campanha militar não estava mais logrando êxito, como logrou nas invasões covardes a nós e aos argentinos.
- O praça, o qual eu sempre passava no rosto ferro em brasa, me disse, naquela língua nojenta deles, enrolada como de índio, que Madame Lynch vivia brigando com López, dizendo que ele havia a tirado das cortes da Europa e colocado-a naquele inferno e que, de forma alguma, ela perderia todo o luxo e riqueza que a fizeram suportar a América do Sul como seu lar. Ela pressionou tanto o homem, que ele reuniu um seleto grupo de oficiais que o ajudaram com poucos e leais soldados a colocarem em tonéis de vinho, cerca de 400 quilogramas de objetos que tinham valores absurdos. Tratou-se de uma operação sigilosa na qual os soldados foram recompensados e desertaram depois. Somente López, Lynch e os altos oficiais que ainda o serviam saberiam onde este tesouro estaria.
HERMES PERGUNTA:
- Para quê? Ele morreria inevitavelmente. Nós já estávamos presentes em toda Assunção. Eu mesmo já dormia numa mansão do General Bernardino Cabalero, e já estava sendo servido pela criadagem dele.
TENENTE RAMIRO:
- Coronel!!! Dizem que foram 500 quilogramas somente de ouro que ele tirou do Banco do Paraguai, para não saquearmos!!! Foram 5 carros de boi levando tudo com ele e a comitiva. Madame Lynch e os herdeiros sabem onde tá. Ela já tá morta, né? Voltou para Europa? Quem mais saberia deste tesouro?
HERMES:
- Já disse isso em Londres, nos tempos que me cobravam as dívidas de Dom Pedro II, mas os embaixadores e banqueiros consideraram-me um louco e nem deram ouvidos a esta estória. Isso seria mais uma lenda do que realmente um fato. Os políticos brasileiros já teriam pressionado o Imperador e até mesmo Floriano Peixoto, hoje, para que fôssemos atrás desta fortuna para saldarmos nossas dívidas com esta guerra. Mas é como procurar uma formiga numa selva. Não há pistas e nem mesmo nenhum documento sobre onde estaria esta fortuna.
- E tem mais, Ramiro, eu não tenho mais saúde e nem você. Quem faria a travessia da fronteira de Corumbá ou mesmo de Laguna, no sul de Mato Grosso, para caçar este tesouro? Lá tem índios ainda e o terreno é pantanoso. Há febres que afetam a nós do nada. O calor é estonteante. Como conseguir mercenários para isso e ainda mais que fossem de confiança? Eles poderiam assassinar os guias e ficar com a fortuna.

CAPÍTULO 4:
O CENÁRIO ALGUNS ANOS ANTES DO COMEÇO DA GUERRA EM 1864


HERMES PENSANDO:
- Estou neste fim do século XIX, com 65 anos, não me arrependendo de nada que eu vivi. Porém, as pessoas pensam que nós, os militares, somos “monstros”: que somos pessoas sem sensibilidade. Porém, elas se esquecem que o sossego que elas possuem dependem dos “monstros”, como eu e estes internados aqui deste hospital imundo.
- Minha sobrinha me deu um golpe e me internou aqui, ficando com todo meu soldo de coronel e as vantagens que recebi por ter participado de um front.
HERMES PENSANDO:
- Século dos mais importantes este que eu vivi praticamente da metade em diante, pois sou de 24 de agosto de 1834, nascendo num momento que o Império estava engatinhando, assim como a soberania brasileira. Não tínhamos ainda 13 anos que Dom Pedro I havia sido estimulado por seu pai, Dom João VI, a ficar com este território imenso, tropical e ainda totalmente indomado nos seus sertões e no litoral, voltando o velho monarca luso para suas plagas, tentando conter o "incontível": uma Revolução Liberal do Porto.
HERMES PENSANDO:
- Creio eu, para humanidade não houve um século tão vigoroso como o século que nasci: o XIX. Nele a Humanidade logrou 01 bilhão de seres humanos, por causa do progresso da produção fabril massificada, que tirou o excedente econômica da mediocridade que era nos tempos de uma sociedade agrária e medieval, muito embora o Brasil fosse ainda agrário e seu medievalismo, embora não existente em data, quando nasci, calcasse-se em cima do escravismo e do patriarcalismo agrarista, fruto do seu lugar na divisão internacional do trabalho.
- Século da formação tardia de várias nações europeias e latino-americanas, como bem li num jornal fluminense, esses dias, num artigo assinado por Joaquim Nabuco e noutro, pelo Barão do Rio Branco, dois dos nossos maiores estadistas brasileiros. Tardia, pois Portugal e Espanha já eram Estados nações alguns séculos bem antes, já na aurora da Idade Moderna.
- Hoje sou coronel de infantaria reformado, mas entrei na academia militar imperial brasileira por volta dos meus 20 anos, em 1844, numa idade em que paixões falam mais alto que o juízo. A Academia era a mesma fundada por Dom João VI, quando desembarcara aqui no Rio de Janeiro, em 1808. Ainda vivia-se sob os ares da menoridade de Dom Pedro II, a atuação política dos seus tutores e os oportunismos de algumas províncias que queria se desgarrar do Império, por interesse de suas oligarquias anti-lusitanas.
- Foi por imposição familiar também esta carreira castrense, já que sou oriundo da antiga Província da Cisplatina, e minha árvore genealógica fora toda composta por donos de estância que eram praticamente “condottieries”, com Maquiavel descreve em “O Príncipe”, entre os séculos XVI e idos do XVII, sobre as milícias particulares que investiam na pilhagem das Cruzadas católicas medievais; todavia, meu pai odiava a monarquia, pois fora preso político, farroupilha e republicano dos pampas que era.
- Meu pai participara da Revolta dos Farrapos, ainda nos idos da Regência, antes de D. Pedro II fazer seus “bagos de guri”. O sul do Império brasileiro era instável e muito influenciado pelas agitações do atual Uruguai. Os pecuaristas e charqueadores tinham um espírito mais livre, pois viviam do comércio e seus escravos eram tratados mais como vassalos de feudo, do que propriamente escravos, como nas regiões de lavoura da cana nordestina e do café paulista.
- Meu pai fora o caudilho Teixeira Gonçalves, dono de charqueadas na região de Uruguaiana, no meu Rio Grande, de ventos frios e cortantes, onde cresci correndo entre ovelhas. Foi aqui que formei as experiências sensoriais da minha primeira infância, vivendo entre os campos e os galpões onde todos tomavam erva-mate quente, a luz da fogueira e ao som cortante das gaitas.
Lembro-me de um diálogo com papai, quando o mesmo chega à cozinha da casa da família.
TEIXEIRA GONÇALVES:
- Guri...trate de melhorar sua monta, pois um militar precisa ser bom de sela. Quero que sirvas na cavalaria ou na artilharia, pois estas armas são as mais nobres da guerra. Você precisa mandar amansar um bom cavalo. Vou pedir ao negro Teodoro que te arrumes um cavalo bem bravio, para domar e te servir, como foi “Bucéfalo” para Alexandre da Macedônia.
HERMES:
- Meu pai, eu prefiro andar e lutar: quero ser da infantaria. A infantaria é a arma que decide a guerra. Ela coloca um ponto final nas batalhas, pois ocupa o território do inimigo. A infantaria é olho no olho. Você sente o calor do corpo do inimigo na ponta da faca! Cavalaria, meu pai, é arma de chefe e de comandante que só observa. Eu quero é atuar.
Mal sabia que minha língua profetizou meu destino.


CAPÍTULO 5:
A ACADEMIA MILITAR IMPERIAL

HERMES FALANDO SÓ, NA ENFERMARIA, DEITADO:
- Não havia muitos negros, quando eu fiz a academia militar, almejando o oficialato no Exército Imperial do Brasil, já que vivíamos ainda sob o acicate da escravidão: uma mancha péssima no nosso passado. Bom favor fez o senador Rui Barbosa, que no início da República, ordena queimar todos os processos e documentos sobre o escravismo brasileiro. Havia somente filhos de fazendeiros que estavam almejando comando, dentro dos quadros das forças armadas, ainda rudimentares no Brasil, em comparação, por exemplo, a armada britânica.
- Fiz a parte teórica da academia, com fito ao oficialato, na capital do Império: a Província do Rio de Janeiro, estudando o positivismo da cartilha “comtiana” - cheia de “matemáticas” e retóricas de progresso, de ordem e leis sociais - como dizia nosso professor de Geometria Espacial: Hermenegildo Pompeu. A parte "teorética" faz o aspirante compreender geografia política, cartografia, astronomia, economia, história militar e uma gama de saberes determinantes na hora de comandar num terreno inimigo, num país ou região distante em estado de belicosidade.
- Porém, com estágio de primeiro tenente, um ano após eu receber o “espadim” na formatura na academia no Rio de Janeiro, comandei o Regimento de Infantaria de Santa Maria, nas plagas gaúchas, donde passei tenra infância: uma Província “filho pródigo imperial”. Lá pude ter contato com adestramento militar de soldados: especialmente, mulatos e índios, os quais eram convocados simplesmente ao passar pela rua da caserna.
- A cena que ainda me vem a mente, dos meus tempos de aluno de academia militar, no litoral fluminense, é na sala de aula de Filosofia Militar. Lembro-me das perguntas que fazia ao capitão Hermenegildo, o qual era da arma de engenharia de combate, e havia estudado em Paris, para trazer ao nosso exército brasileiro, os elementos mais importantes da doutrina militar napoleônica, qua afundara em “Waterloo”, mas detinha elementos eficientes, que Dom João VI, anos antes, pode constatar.
(...)
HERMES:
- Professor, com licença. Posso fazer-te um questionamento?
- Como o senhor observa a função dos militares no atual quadro do Império? A nossa marinha imperial não tem um quadro de oficiais brasileiros, propriamente dito. São oficiais ingleses que foram mercenários de guerra, desde o processo de independência, em 1822. O nosso exército, desde de a Batalha dos Guararapes, no século XVII, ainda não entendeu que o negro e o índios é que são os nossos verdadeiros soldados, e os tratamos como se fossem “semi-humanos” ou até mesmo animais domésticos, como o caso dos oriundos da África. Ou seja: ainda não temos um sentimento claro de liberdade e patriotismo neste país!
HERMENEGILDO:
- Estamos perto de um golpe, meu caro alunos. Somente tome cuidado para que um senador destes vitalícios, do Partido Conservador, não ouça suas críticas, mas eu concordo em muitas coisas que você disse. O Império brasileiro, por não ter um soberano sensível ao povo e seu processo de formação cultural, pode entrar em colapso. Por exemplo: trata a Marinha com pompa, pois são ingleses na maioria, como você bem disse, que podem mudar de lado, apenas pela fortuna. Já o Exército tá jogado às traças, sem fortificações nos rios mais importantes deste imenso território, como o rio Paraguai, por exemplo. Fora que ainda não temos um quadro de soldados habilitados com a artilharia mais moderna e todas as armas de fogo que estão grassando sucesso nos exércitos europeus.


CAPÍTULO 6:
MOBILIZAÇÃO DAS TROPAS

Quando eclode o conflito, no qual o exército e a marinha paraguaia invadem o sul da Província de Mato Grosso, já em 1865, em fevereiro, eu me reuni com as tropas do General Sampaio, na Serra da Mantiqueira, quase na fronteira com a Província de São Paulo. Vim em marcha com 300 homens, que formam sendo embaralhados, às dezenas, entre o Rio Grande até o Paraná, pelo sul do Brasil, pois eu servia um destacamento naquela área fria.
Trata-se de uma cena na qual os figurantes aparecem como se fossem soldados.
HERMES PENSANDO NA ENFERMARIA, EM 1899:
- No começo da Guerra do Paraguai, também chamada por Conflito da Tríplice Aliança, na qual os uruguaios, os brasileiros e os argentinos uniram-se contra os paraguaios, eu comandava ainda o destacamento de Santa Maria, na segunda metade do ano de 1864.
- Fui convocado a apresentar-me nas cercanias de Resende, região do Rio de Janeiro, na Serra da Mantiqueira, para liderar um pelotão de 200 soldados e um estado maior, depois sabendo que o Maldito López planejava massacrar Uruguaiana, como realmente fizera, no meu amado pampa.
- Nossa missão, conforme ordens diretas do General Osório, era de bloquear o acesso ao rio Paraná, já que os paraguaios ambicionavam uma saída para o mar, pelo Oceano Atlântico. Os paraguaios queriam atrair as forças terrestres brasileiras para o oeste, enquanto uma parte das forças de López iam pelos rios da Bacia do Prata, por Corrientes (Argentina) e Uruguaiana.
- Logicamente, conforme o que imaginamos, juntamente com o estado maior de oficiais brasileiros, comigo, é que eles queriam a Vila de Paranaguá e suas adjacências, no litoral paranaense, apostando que o extremo sul do Brasil Imperial faria secessão, como a Revolta dos Farrapos já sinalizara. Durante o período de regência, e antes mesmo, no tempo de Dom Pedro I, o sul do Brasil sempre foi separatista, e isso era o trunfo que López apostava: a secessão do Brasil em setentrional e meridional.
- Iriam segundo se lia em jornais da capital:
“avançar impiedosamente pelas regiões de Londrina, Ponta Grossa e Curitiba, até lograr o litoral, fazendo porto na enseada paranaense”, como também bem afirmava o relatório assinado pelo General Osório.


CAPÍTULO 7:
MEMÓRIAS DO CORONEL HERMES: O CONFLITO

O narrador, ainda na enfermaria, vai perfilando suas lembranças, ora caminhando no corredor do Hospital de Veteranos do Rio, ora no jardim. O nosso narrador, Coronel Hermes Gonçalves, é um homem carrancudo, como bem podemos imaginar. Um homem que testemunhou massacres e uma parte tão contumaz da História, não pode ser uma pessoa “normal”.
Sempre há um olhar do coronel para as demais enfermarias com seus moribundos, todos feridos na Guerra.
HERMES FALANDO SÓ:
- Fomos enviados para irmos aos campos de Dourados, região do extremo meridional da Província do Mato Grosso, a cerca de 100 ou 200 quilômetros das cercanias da Laguna, não me lembro tão bem, que era este o primeiro povoado no território Paraguaio, que é fronteira seca com o Brasil, o que daria maior velocidade de deslocamento às tropas de Francisco Solano López, o caudilho guarani.
- Precisávamos evitar que ele e seu militar, o General guarani Bernardino Caballero, obtivessem êxito napoleônico, com dizia Caxias em suas palestras aos aspirantes, antes de assumir o front! Este êxito de Napoleão, no começo do século XIX, avançando pelo oeste europeu, foi quem obrigou Dom João VI a transferir a corte lusitana para o Rio de Janeiro, mudando o curso de vários acontecimentos, acelerando nosso processo de independência.
- O cabo Isidoro, que divide o leito do Hospital de Veterano, aqui comigo, era um dos meus comandados, neste pelotão que saiu do Rio de Janeiro em direção aos campos de Dourados, na Província do Mato Grosso, que agora, neste período republicano, transformou-se em estado federado: o maior em extensão e o menos habitado.
- Era um negro por volta dos 20 anos também, naquele momento, que não tinha familiares de sangue, pois veio novo demais da costa sudoeste africana, como escravo que desembarca no porto do Rio de Janeiro, tendo sorte de não chegar desfalecido e ter sido jogado na vala dos Pretos Novos, na nas proximidades da "Gamboa".
- Era escravo que fora comprado por uma fazenda do Recôncavo da Bahia, de cacau, passando sua infância na Casa Grande, em Itabuna, pois uma das negras amas de leite o tinha em grande estima e o levara quando comprada. Ele fora forçado a entrar nas fileiras das praças, sob a promessa de alforria e uma indenização em terras ao fim da guerra aos voluntários da pátria, contrariando sua mãe negra adotiva, que tanto o protegera.
- Como ele me disse uma vez, muito lucidamente para alguém que não sabia ler e escrever, mas ouvia a conversa do bacharéis dentro da Casa Grande:
- Não havia jovens brancos, filhos de fazendeiros de café, cacau e algodão das regiões mais ricas do 2° Império, que se alistaram voluntariamente ao ponto de formar um exército do tamanho do guarani, insuflado o último de patriotismo que nos faltara, até então: patriotismo "bolivariano", por assim dizer. A grande maioria dos nossos odiava a monarquia, pois boa parte dos jovens brasileiros brancos eram bacharéis contaminados pelos ideais iluministas das faculdades de direito, inspiradas em Coimbra e a revolução do Porto. Seus pais eram coronéis da Guarda Nacional e tinham outros planos políticos para seus pupilos: que com o fim do Império lograssem carreira na república laica, sem que houvesse poder vitalício e dinástico, como era no Império.
HERMES FALANDO SÓ:
- Dom Pedro II, na época, cinicamente, montou a campanha “Voluntários da Pátria”, com este objetivo: de angariar homens brancos da elite, para defenderem as fronteiras.
- Todavia, a covardia e o não patriotismo falaram mais alto.
- Penso como ele quando falo de um colega meu, Onório Barros, jornalista que se formara em Direito, no Largo do São Francisco, na Província de São Paulo, mas nunca advogara. Não se alistara por motivos “filosóficos”, pois se considerava um “anarquista”, quando para mim era por covardia mesmo
- Acabou por cobrir a Guerra para um jornal carioca, o que eu creio que fora tão perigoso como fazer parte das galeras que avançavam nas batalhas campais nos lamaçais, chamados de “chacos” pelos guaranis. Novidade da cobertura era a máquina fotográfica, que registrou muitas imagens reveladoras do front. Onório Barros trazia uma daquelas geringonças consigo, sempre ajudado por um dos meus soldados, pois era pesada. Depois deste imbróglio, a revelação era outra alquimia sem fim, ocupando mais ainda meus soldados, que precisavam proteger a barraca do ilustre correspondente de guerra.
- O Cabo Isidoro fica comigo até o fim do conflito, quando volto ao Rio de Janeiro, em 1871, para fazer novos cursos e ser mandado para Londres como adido militar, já coronel, com a missão de observar as melhorias militares britânicas e traze-las para o Brasil: uma mentira, pois não tínhamos mais dinheiro enquanto não saldássemos dívidas da guerra. Porém, o Cabo Isidoro guardou talvez um grande segredo:
Como ele me disse:
- Francisco Solano López, antes de morrer, deixara uma fortuna enterrada no caminho entre Assunção até a fronteira com o Brasil, que poucos soldados souberam existir, após a tomada da capital guarani. López, somente ele, tinha o mapa dos tesouros que possuía e que não ia deixar para serem pilhados por Conde D’Eu e seus oficiais.
HERMES FALANDO SÓ:
- Onde estão os baús com metais preciosos que López “levara” consigo e sua caravana, ao abandonar Assunção? Será que esta estória procede? Ou seria um produto das lendas populares, já que as pessoas possuem mentalidade fértil?
- López sabia que os brasileiros saqueariam seu palácio e é claro que fugiu com tudo que podia e foi enterrando pelo caminho. Há uma verossimilhança em tudo isso, sim!


CAPÍTULO 8:
AS EMBOSCADAS DE DOURADOS

Sempre no Hospital, as memórias do coronel vão dando enredo a flashs, que mais adiante serão desenroladas em Épicos. O último são gêneros literários que marcavam o orgulho de um povo na forma de acontecimentos mitológicos.
Num destes átimos de tempo, desponta no Hospital dos Veteranos, no Rio, o jornalista Onório Lemos, que Hermes reminiscentara páginas antes, o qual fora correspondente de guerra de um jornal fluminense.
Dá o ar da graça, pois estava produzindo uma extensa reportagem para publicar num jornal norte-americano, que queria saber mais sobre o evento cataclísmico.
Sendo assim, Hermes o recebe todos os dias, e narra, ao jornalista, suas agruras.
A marcha das tropas brasileiras que empreenderiam conter López, desfilariam da Serra da Mantiqueira, passando por todo sertão paulista, até cruzar o rio Paraná e acampar nos campos da região de Dourados, no extremo sul da antiga Província de Mato Grosso.
Trata-se de cenas bucólicas.
JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Hermes, pode me contar suas memórias, que eu vou anotando aqui na minha caderneta. Eu prefiro ater-me somente ao seu relato, pois, quando for escrever a matéria, coloco o que eu vi como correspondente de guerra.
HERMES PENSANDO:
- Bom, Onório (tosse e escarra)....
- Foram 02 meses de marcha de Resende até Dourados, no extremo meridional da Província do Mato Grosso, invadido que estava pelos guaranis, chefiados por Caballero e seus oficiais superiores, onde encontraríamos as nossas tropas vindas de Minas Gerais, da região de Uberlândia, no Triângulo.
- Saímos do sinuoso interior fluminense até o Cerrado, chegando aos campos, enquanto a outra divisão viria do Triângulo Mineiro. Eram 200 homens mal treinados os meus comandados brasileiros, mal vestidos e mal armados.
Segundo um de meus sargentos:
- Uma leviandade, a qual o Imperador nos impôs em nome da perpetuação da sua dinastia...
Assim pensávamos igualmente, jovens oficiais do Exército Brasileiro, ainda diletante.
- Levávamos mantimentos em lombo de mula e alguns cavalos. Tínhamos alguns sabres e rifles que os ingleses nos deram como quem dá sucata:
“ - ...basicamente carregados socando pólvora e chumbo até acionarmos o gatinho, com direito a um tiro somente, até recarregar tudo novamente”, com bem ensinou meu sargento Carlos aos seus comandados.
Segundo um coronel da época, que disse mais:
- Precisávamos, mais do que armas de mão obsoletas, de uma forte e pesada artilharia poderosa e de uma cavalaria atuante, do tipo “corta cabeças no galope”, coisa que já sabíamos que os paraguaios detinham, por causa do financiamento britânico. Aliás: os ingleses financiaram ambas as partes, apostando no dilaceramento da unidade sul-americana, frente a expansão do imperialismo vitoriano.
HERMES:
- Um dos representantes desses interesses, foi o inglês Curruters, que cheguei de conversar numa casa de chá fluminense.
- Ao atravessarmos, com grandes dificuldades o rio Paraná, na fronteira entre a Província de São Paulo e do abandonado Mato Grosso, enfrentamos, após 2 semanas, na primeira metade de 1865, o primeiro pelotão paraguaio, que já estavam apoiado por alguns indígenas do sul da Província de Mato Grosso, que nos geraram um grande problema de guerra: a propaganda de cooptação.
JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Como assim Hermes? Os indígenas lutaram contra nós?
HERMES:
- Uma parte deles. O mais traidor de todos que conheci foi o Guaicuru, que chamei de Apache. Onório do céu! Foi emboscada em cima de emboscada....
- Como escrevi no relatório que despachei para o estado maior:
- “Não bastasse os índios cooptados pelos paraguaios, as dificuldades de travessia foram próprias de um rio extenso e caudaloso, que obrigou a difíceis manobras em cima de naus que precisamos improvisar, tendo algumas, afundado por peso mal distribuído, fazendo-nos perder mantimentos precisos e ceifando vidas de guerreiros. Os paraguaios tinham canhões de excelente alcance, que Francisco López comprou na Europa e também forjou nas suas siderúrgicas já montadas numa economia de guerra. Atiravam contra nossas guarnições a alguns quilômetros de distância, sem que pudéssemos os ver. Fora que muitos dos indígenas da região de Dourados fingiam-se amigos nossos, mas na verdade vinham em nossa direção para nos espionar e entregar nossas estratégias aos oficiais paraguaios.”
- Em maio de 1865, já havia perdido mais da metade dos meus homens, que nem só de tiros avulsos de artilharia morreram.
- Um jornalista argentino que nos acompanhara no teatro de operações, assim enviou para sua redação: “A guerra nos ensina que a higiene é uma aliada; homens começaram a padecer de diarreias e infecções que advinham da má alimentação e do stress das noites interrompidas por tiros de canhoneiros.”
JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Grande texto. Os exércitos precisam manter uma disciplina de asseio mesmo.
HERMES:
- A estratégia que usamos foi aprender a língua indígena, com ajuda de algumas missões de jesuítas que ali viviam e, por nós, foram forçadas a cooperarem, pois os mataríamos se assim não fosse. Torturei muito frei naqueles dias, pois não queriam nos auxiliar...
- Também assim publiquei em outro relatório mandado ao estado maior: “Buscamos mostrar aos ameríndios que eram eles brasileiros, que viviam sobre o manto do Imperador Dom Pedro II: daí o aspecto propagantístico que uma guerra também tem. Isso se deveu ao isolamento desses silvícolas, que fez com que os espanhóis e as missões jesuíticas os educassem; pegaram também pavor dos bandeirantes, que os aprisionavam nas entradas e bandeiras, um século antes (XVIII).”
- Deparamo-nos com as nações indígenas Kaiowá, Bororo, Guató, Kadwéu e os mais temidos: os Guaicurus. Os Guaicurus eram cavaleiros, usando cavalos cruzados que davam um cavalo crioulo muito rápido e rústico.
- Os espanhóis, entre os séculos XVII e XVIII, por meio do seu Vice Reino do Prata, deram a eles cavalos de raça e os ensinaram na arte da guerra por meio da cavalaria, como os romanos eram hábeis na antiguidade, manuseando espada e lança.
- Assim o fizeram para que eles aprisionassem as demais nações indígenas que dessem problemas à Coroa da Espanha. Porém, os Guaicurus eram arredios.
- Foi difícil ao Exército Imperial Brasileiro dobrá-los, sendo melhor: mata-los, como o fez os americanos como os Apaches.
CAPÍTULO 9:
PROBLEMAS DOS MEUS SOLDADOS COM ÍNDIOS

À medida que o coronel coloca os fatos ao jornalista Onório Lemos, as batalhas terrestres delineiam-se: Tuiutí, Humaitá e Campo Grande são as contumazes, no que concerne às forças terrestres. São vários efemérides de guerra que guardam estórias dentro deles.
As aldeias indígenas são um ponto importante para quebrar a rotina dura dos acampamentos militares.
HERMES FALANDO PARA HONÓRIO:
- A língua indígena foi um obstáculo com estes índios, para nós, habitantes do Litoral brasileiro, acostumados somente com tronco linguístico tupi. Não éramos conhecedores do interior brasileiro, salvo pelos relatos das milícias bandeirantes e das missões jesuíticas: ambos, uns caça dotes de ouro, por assim bem dizer, mas que possuem vários méritos também.
- Os do litoral falavam tupi, uma língua já entendida por causa do Padre Anchieta e outros clérigos que escreveram gramáticas, as quais li na Biblioteca Real, no Rio de Janeiro, estudando nos tempos de cadete. Mas os que nos deparamos vinham de um tronco misturado ao dos países andinos: o chamado guarani. Somente os padres jesuítas os entendiam, pois muitas missões estavam naquela região. Mesmo assim, um dos meus homens traiu a tropa com duas índias e desertou.
JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Como assim, Hermes?
HERMES:
- Houve um soldado nosso, Onório, de nome Pedro Cavalcanti, um excelente esgrimista que eu convoquei lá mesmo no Rio de Janeiro, depois de vê-lo duelar com um desafeto, na Praia Vermelha, em 1864, em dezembro. O tal Pedro, porém, Onório, abusou de uma índia de 14 anos, aproximadamente, pois índio não sabe idade.
- Ele matou um índio Bororo, pai da menina, para morar com a mãe dela, outra índia da mesma tribo.
- Ele desertara, abandonando o posto de sentinela, da minha guarnição já precarizada, para raptar as duas gentis para morar com ele, numa região próxima ao Rio Ivinhema, um pouco mais abaixo da área de Dourados, na Bacia do Rio Paraná.
- Como reza o direito penal militar, decretei lei marcial e constitui um corpo de militares e, ao acharmos, apliquei o fuzilamento como pena, mirando o coração. Realmente é muito difícil ser comandante em chefe de homens que estão vários meses sem mulheres, que estão feridos fisicamente e emocionalmente, sendo pior: motiva-los!
- Isso para uma causa que ainda não estava bem clara: a unidade territorial do Império Brasileiro.
- Por fim, percebemos que mãe e filha estavam grávidas de um soldado, que era de origem portuguesa, o infeliz. Elas nos acompanham como ajudantes gerais, pois precisava de mão de obra, na falta de uma enfermagem e intendência de campanha.



CAPÍTULO 10:
O DESLOCAMENTO PARA O RIO APA (LAGUNA)

As memórias do coronel dão ciência de acontecimentos.
HERMES AINDA RELATANDO AO JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Os paraguaios haviam percebido que a guerra não poderia ser travada fluvialmente, dada à superioridade argentina na região do estuário do Rio da Prata, que nasce do encontro do Rio Paraná, Rio Uruguai com o Rio Paraguai.
- Por isso, a fragilidade da Província do esquecido Mato Grosso era de grande valia geopolítica, para fazer emboscada de tirar as atenções da marcha guarani, que era alcançar o estuário do rio da Prata e sair das amarras geográficas que lhes impunham.
- Por esse motivo, no fim de 1864, eles tomam de assalto a vila de Corumbá, Ladário e sua circunvizinhas, que são áreas de transição entre a planície úmida do Pantanal e os chaco igualmente alagadiço do Paraguai.
- Assaltam o navio Marquês de Olinda, em novembro, realizando covardias com mulheres e nativos, além de assassinar os governantes da Província do Mato Grosso que ali estavam indo para Cuiabá.
- O mentor de tudo isso foi Francisco Solano López, uma imitador barato de Napoleão Bonaparte, último este que também pretendeu desastrosamente dominar o continente, só que europeu, no começo do século XIX.
- Para o intento de López, haveria seu comandante militar mais astuto: o General Bernardino Caballero.
- Francisco Solano López havia alguns anos antes de 1864, a mando de seu pai, o caudilho Carlos Solano López, ido a Londres para negociar empréstimos com os bancos anglo-semitas e copiar projetos siderúrgicos e de estaleiros; além de contratar engenheiros ingleses para modernizarem o Paraguai.
- Como a imprensa norte-americana noticiou:
“O maior problema paraguaio não seríamos nós, os brasileiros, mas sim os argentinos, chefiados por Mitre. Os argentinos aumentaram os tributos de alfândega fluvial dos navios paraguaios que passavam obrigatoriamente por Buenos Aires, zona portuária do Rio da Prata, atravancando as exportações de algodão guarani, na virada da primeira metade do século XIX, rumo à segunda metade. Isso foi insuflando além de difíceis negociações da diplomacia, sempre manipuladas pelo Brasil e pela Inglaterra, sentimentos de nacionalismo por subjugação econômica de uma nação sobre outra: justamente a denúncia do "bolivarianismo" gestado neste momento. Se junta a isso caudilhos que governam sem parlamentos e nações ainda em processo de formação de seus Estados Nacionais tardios: gasolina perto de fogueira ou ponto de ebulição de uma guerra.”
- Meu pai já afirmara a mim, ainda adolescente, nos tempos que estava nos flancos da Revolta dos Farrapos, que não pagaria para ver os erros do Império, que simplesmente governava para o Litoral:
- ... Esquecendo-se do Rio Grande e das fronteiras terrestres ainda não consolidadas.
Que o federalismo seria a solução:
- ...mas que a monarquia não dava sinais para tal, pois mantinha um Estado unitário, num país monumentalmente extenso.
JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Seu pai estava correto...
HERMES:
- Quando ainda das enormes dificuldades de frear o avanço dos oficiais paraguaios até o Paraná, recebo ordens diretas do estado maior do General Osório, que diz: “para descer ainda mais no território do sul da esquecida Província do Mato Grosso: a região do Rio Apa, no povoado de Bela Vista e Amambai, já na Bacia do Rio Paraguai. Para tanto, viria uma guarnição argentina que nos tirariam do cerco paraguaio, atacando com canhões pelo extremo oeste.”
- Dessa forma, chego ao Rio Apa, em 1865, no mês de fevereiro.

CAPÍTULO 11:
UM EXÉRCITO FORMADO POR NEGROS E ÍNDIOS

HERMES AINDA RELATANDO AO JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Foi realmente a Guerra do Paraguai que expôs o problema da monarquia brasileira, segundo minhas críticas.
- Isso como oficial que participou diretamente dos combates; problemas de diplomacia e de condução da nação, que o meu comandante sempre me manifestou por carta: o tenente coronel Paulo Armando:
“- Nós estávamos sem um exército profissional, como bem já disse Maquiavel ao Príncipe, que era não confiar em mercenários e milícias, como fez Francisco Solano López ao criar militares que amavam a bandeira e não a moeda, como todo estado maior de Dom Pedro II dizia pelos corredores, longe dele. O problema é que o soldado vem do povo, mas o povo era cativo: o brasileiro ainda não considerado brasileiro mesmo. Ai morou o problema: o povo era o índio e o negro, os quais não participavam da sociedade branca, aristocrática por compra de título, "bacharelizada", ruralizada e sem um projeto; índios e negros eram a maioria esmagadora da população e, obviamente, seriam as fileiras de um exército nacional aguerrido. O Império foi, num primeiro momento, uma invenção de um monarca lusitano, para arranjar seu filho, sendo que D. João VI estava em franca perda de prestígio, fragilizado pelo liberalismo do Porto. Logo, o sistema de governo não representava um povo ainda em formação, que foi requisitado a proteger uma fronteira.”
HERMES:
- As margens do Rio Apa quem me foi útil foram os indígenas, especialmente um bororo que apelidei de Tupã.
- Eles, especialmente o que mencionei, sabiam tudo sobre fauna, flora e farmacopeia natural, que muito foi necessário para acamparmos e resistirmos diante dos paraguaios, que sabiam muito bem como era aquele terreno, ao contrário dos nossos negros de senzala, como bem via em Nézinho e Vintém, que coloquei como cozinheiros, tamanha a má vontade de lutar.
- Nem pude contar muito com uruguaios e argentinos também, como era a guarnição do Major Hernandez, que mais aos dois anos antes desta guerra acabar, nos abandonaram, quando nós já estávamos dentro do território do Paraguai, com enormes dificuldades para chegarmos a Assunção.
- Abandonaram não por deserção, mas por ordem de seus generais.
- Um episódio que muito me marcou, foi num dia de muita chuva, às margens do Rio Apa.
- Já estávamos frente a frente com os paraguaios, vindos da porção oeste.
- Era realmente olho no olho, quando não conseguimos, nem nós, nem eles, socar pólvora nas armas.
- Assim sendo, todos tiraram suas facas, dentre os quais, primeiramente, o meu sargento Mariano.
- Depois veio mais ou menos 300 soldados, sendo uns 200 paraguaios, e foram correndo, aos gritos de ódio, rumo uns aos outros: foi um lamaçal de sangue o que ficou, o que nos obrigou a recuarmos com metade dos nossos homens, pois os demais foram mortos pelos paraguaios, após rolar no chão com estocadas as cegas.
- Havia uma coisa que mais fazia os meus soldados tomarem ira dos paraguaios, mesmos aqueles que não tinham ideologia nacionalista: os soldados brasileiros eram degolados, quando as batalhas eram por espada, e suas cabeças fincadas no caminho, para que víssemos e diminuíssemos nossa moral de tropa.



CAPÍTULO 12: FRANCISCO SOLANO LÓPEZ CONHECE ELISABETH LYNCH

HERMES RELATANDO AO JORNALISTA ONÓRIO LEMOS, QUE ANOTA TUDO FRENETICAMENTE:
- Parece jocoso afirmar que a Guerra do Paraguai foi o desejo de um homem em impressionar uma mulher, numa demonstração de virilidade: mais foi isso sim!
- É verossímil afirmar que Francisco Solano López queria impressionar Madame Lynch - ou Elisabeth Lynch, nos bordéis de Paris - com um feito digno de Napoleão Bonaparte, mesmo sem nenhuma carta ou documento histórico que prove isso!
- Carlo Antônio López, o pai de Francisco, havia incumbido seu “menino” a ir a Inglaterra.
- Era uma missão de buscar financiamentos e de trazer projetos, juntamente com cientistas e engenheiros, capazes de acelerarem o desenvolvimento econômico paraguaio.
- Trouxeram também militares mercenários britânicos, como os marinheiros Robert Carl e Philipe Mann, que muito colaboraram nas adaptações das chatas mercantes guaranis em receptáculos de canhões navais  - chatas são embarcações de baixo calado e extensas, geralmente graneleiras.
- Isso ocorre, pois o Paraguai não teve tempo de fazer estaleiros e ter uma fragata, mas contou com essas “gambiarras”, e ainda com muitos canhões às margens do rio Paraguai.
- Colocaram também, sob orientação dos ingleses citados, correntes enormes que impediam a navegação das fragatas brasileiras, que vinham do Rio de Janeiro e adentraram o estuário do Prata, sob o véu argentino, aliado.
- Todo país pobre da América do Sul assim o fez: pegam, empenhando safras e mais safras de sua agricultura, migalhas financeiras.
- Com isso financiam sucatas de maquinaria fabril para ensaiarem uma parca Revolução Industrial, que nunca chega a termo: o bafo da sociedade oligárquica ainda chega até o nariz dos minoritários industriais nacionais dependentes, desfigurando-a em dois polos: antigo e “moderno”.
 - Os López, seguindo esta cartilha, assim o fez também ou era a única via, que obviamente os britânicos souberam explorar.
- Mesmo pelo motivo de a época os Estados Unidos estarem já nos climas da secessão entre sul e norte; muito ocupado, por assim dizer, em também manterem sua unidade geopolítica, com estava ocorrendo, igualmente, na América do Sul.
- Dessa forma, antes de 1864, Francisco Solano López desembarcara em Londres, juntamente com uma missão composta de seus assessores mais íntimos. Lá, López visitara bancos, universidade e siderúrgicas.
- Todavia, López decide ir até Paris, para visitar Napoleão III, seu amigo. Lá vai a elegantes restaurantes e também aos bordéis, na qual se encanta por uma irlandesa, de nome Lynch.
- Reza a lenda ser uma mulher alva, muito afeiçoada e experiente da arte de amar.
- López foi enfeitiçado por Lynch, que, arrebatado por uma tórrida paixão, passou a oferecer para cortesã amostras do seu espólio familiar, ofertando-lhe tudo que o dinheiro pode para encantar uma mulher com aquela mentalidade de época.
- López consegue trazer Lynch para Assunção, onde manda construir uma réplica da corte francesa em termos de arquitetura e jardinagem.
- Assunção passa a ter uma vida digna de cortes europeias, pois era a única forma de López manter Lynch na América do Sul: imitando o clima parisiense.
- Lynch o acompanhara entre os anos de 1864 até 1870. Isso até quando López e seu filho são mortos em Cerro Corá, norte paraguaio. Ela é poupada e volta para Paris.
- Perdendo a Guerra, em 1870, o Paraguai paga pesadas indenizações aos países aliados e Lynch tem seus bens confiscados pelos vencedores. Todavia, morre sabendo onde López enterrara o tesouro do palácio que ia ser saqueado pelos brasileiros, mas não pode voltar para desenterrá-lo.
Para o leitor entender, eu coronel Hermes Gonçalves, me ponho a contar esta estória, conforme os relatos que vi e ouvi nas frentes de combate.

CAPÍTULO 13:
1864: MATO GROSSO E RIO GRANDE DO SUL SOBRE A MIRA DE FRANCISCO SOLANO LÓPEZ

HERMES RELATANDO AO JORNALISTA HONÓRIO:
- Em minha opinião de veterano dos Voluntários da Pátria, o culpado da Guerra foi Mitre, o caudilho da Argentina.
- Ele humilhava os paraguaios. Isto acontecia com pesados impostos aduaneiros nos portos fluviais argentinos.
- Eles encareciam as mercadorias daquele país cravado no meio de lobos. O estuário do rio da Prata é formado pelo encontro dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, todos vindos do Brasil, sendo os dois primeiros limítrofes também ao país de López.
- Por um capricho do destino, o Brasil colonial, herdou, depois de 1822, uma posição geográfica privilegiada.
 - Isto em relação aos países em formação no cone Sul.
- Militarmente falando: o território afunila-se e a imensidão hidrográfica brasileira permite manejar bem a diplomacia com os inconstantes hermanos.
- Pode-se falar em imperialismo brasileiro no cone sul, como bem mostra a questão da intervenção de Dom Pedro II em colocar Flores, no poder, no agitado Uruguai, alguns anos antes de explodir a Guerra da Tríplice Aliança.
- Uruguai este que se separa do Brasil na Guerra da Cisplatina, ainda nos idos de Dom Pedro I, mas é cooptado pela influência diplomática do 2° Império.
- Todavia, é bom que se diga que este imperialismo brasileiro, na realidade, pode ser manejado ou pelo Inglaterra ou pelos EUA, por meio de teias financeiras: este era o papel de dois embaixadores, um dos EUA, outro da Inglaterra. Thoedor Mikel e Smith Arms, que passaram todo o conflito entre Montevidéu, Buenos Aires e Rio de Janeiro.
- Não se faz uma guerra de vulto, meu caro, sem muito, mais muito dinheiro!
- O saldo final da Guerra da Tríplice Aliança foi uma dívida impagável com bancos londrinos, que fizeram da América do Sul um quintal dos interesses financeiros dos países do Hemisfério Norte.
- O coronel Mangabeira, com quem tive o prazer de conviver, já nos tempos do acampamento de Tuiutí, no extremo sul do território paraguaio, nos idos de 1865, me contara:
“- López havia mandado a Dom Pedro II uma carta antes de invadir o Mato Grosso e o Rio Grande do Sul. Na carta, ele pede que Dom Pedro II convença Mitre a não mais cobrar tão caro para os navios paraguaios passarem pela Argentina. Mas Dom Pedro II não responde a carta, fazendo menoscabo de López, o que antecipa sua atitude sanguinária...”
- Foi isso mesmo: sanguinária!
HERMES FALANDO AO JORNALISTA:
- López passara o fim de 1864 e a primeira metade de 1865 invadindo vilas brasileiras, que estavam nas cercanias paraguaias, limítrofes.
- Dentre as quais, a de Corumbá, que fica às margens do rio Paraguai, porto que dá entrada até Cuiabá, sede da Província do Mato Grosso; fez barbáries com suas tropas também em Dourados/MT.
- De outro lado, invade por terra Uruguaiana e São Borja, no Rio Grande do Sul, promovendo, seus soldados, saques e estupros; mandado escravizar autoridades locais e decapitar aqueles que se rebelavam, seja por gestos ou palavras.
- Não houve somente, por parte de López, a missão de ocupar com sua infantaria os terrenos e deixar suas chatas passarem pelos caminhos até o estuário do rio da Prata: López queria sangue, o que acabou fazendo nascer o sentimento de ódio das populações brasileiras por ele dominadas, do que necessariamente patriotismo como sentimento de luta.
- Seria uma vingança a meta de Dom Pedro II: e assim o foi, até Duque de Caxias entrar em Assunção, nos anos finais da Guerra.
- Assim o foi na Batalha Campal de Acosta Ñu, no mesmo hiato, na qual Conde d’Eu manda os soldados brasileiros decapitarem crianças paraguaias que resistiam no lugar os adultos mortos.
- Meus soldados, que tiveram em Assunção em 1869, afirmaram que vazara uma notícia de Francisco Solano López havia mandado enterrar todo ouro do Banco do Paraguai, para que os brasileiros não o saqueassem.
- Isto provocou deserções entre alguns soldados brasileiros, que se puseram a cavar, cavar e cavar diversas pistas que os nativos diziam, muito por torturas. Todavia, existia um mapa que estaria nas mãos do seu General Bernardino Caballero e de Madame Lynch, que nunca se teve acesso.

CAPÍTULO 14:
O ACAMPAMENTO DE TUIUTÍ E A QUEDA DO FORTE DE HUMAITÁ

HERMES RELATANDO A ONÓRIO:
- Recebo uma carta do estado maior do Exército Imperial Brasileiro, sediado na capital do Império: o Rio de Janeiro.
- Ela estava me dizendo para ir com meus comandados nos deslocarmos, pela Província do Paraná, até engrossarmos as fileiras do acampamento de Tuiuti, na primeira metade de 1866, no sudoeste do Paraguai, juntamente com os militares uruguaios e argentinos, que nos aguardavam lá.
- Era uma posição conseguida com muito luta, em especial, da Marinha Imperial Brasileira, comandada pelo Almirante Barroso.
- Alguns meses antes, o almirante Barroso, com a esquadra brasileira, no rio Paraná, nas imediações de Corrientes, na Argentina, conseguiu destruir a esquadra paraguaia, que o atacara procurando desbloquear o acesso ao Estuário do rio da Prata: tratava-se da Batalha do Riachuelo.
- Isso se torna um fato que permite agora irmos até Assunção e matarmos López: o sonho dos militares brasileiros, uruguaios e argentinos - mais dos brasileiros, por causa de Corumbá, Dourados, São Borja e Uruguaiana.
- Deslocamo-nos num tempo de frio na Província do Paraná. Alguns dos meus soldados, que eram negros de senzala, acostumados com regiões quentes do Nordeste do Brasil, ficaram doentes com pneumonia e tuberculose: os soldados Nezinho, Vintem, Paraíba e Baiano foram os afetados.
- Baiano havia adotado um cachorro, que ele trouxera de Dourados, lá no Mato Grosso.
- Quando atrasou a entrega de mantimentos ao nosso pelotão, por parte do comando do RJ, fomos obrigados a comermos o cãozinho, para não passarmos fome, antes de chegarmos ao acampamento de Tuiutí.



CAPÍTULO 15:
O ACAMPAMENTO DE TUIUTÍ

Região pantanosa do sudoeste do Paraguai, às margens do Lago Tuiutí.
O ano é de 1866, no primeiro semestre.
HERMES RELATANDO AO JORNALISTA:
- Quando vejo o acampamento de Tuiutí, fico admirado com seu tamanho, que não esperava de um acampamento militar!
- Sinto-me aliviado em ver tantas pessoas amigas, entre elas civis que estavam fazendo os serviços não militares, mal sabendo eu o que me esperaria depois: uma das mais sangrentas batalhas de infantaria campal que este continente conheceu, até aquele momento; quem sabe: nas gerações vindouras.
- Vi mais de 20 mil pessoas, num primeiro momento, amontoadas em barracas.
- Vi fumaça de fogão a lenha, gente tomando chimarrão e toda uma vida de um povoado formando-se.
- Muitas mulheres também estavam lá, o que seria bom para meus soldados.
- No acampamento também tive um ferimento que quase me levou a óbito, alguns dias depois de chegar: um tiro na região do meu tórax, dado por um sabre paraguaio.
- Ainda bem que sem ser do lado do meu coração, já tão fatigado de guerra e encantado por uma estrangeira.
- Uma linda enfermeira argentina foi quem me tratou: Ramirez, com a qual cheguei a enamorar, tendo um problema com um de seus admiradores: um capitão do exército argentino: Júlio Caldeira.
- Um dia ele, o oficial, veio me interpelar no bar, antes mesmo de ser ferido em combate. Isso quando bebíamos altas horas da noite, no acampamento: acabamos duelando, de madrugada, mas os homens que estavam perto nos separaram, pois não poderíamos morrer na falta de soldados naquele front.
- Ramirez era filha de um fazendeiro argentino, da região correntina (Corrientes), onde criava gado de origem europeia e comercializava erva-mate vinda das ervateiras do sul da Província de Mato Grosso, por meio do rio Paraguai.
- Dela lembro-me das canções que cantava, embalada pela harpa guarani, instrumento que lembrava um violoncelo adaptado como um piano de calda, um cravo – não sei definir bem.
- Quando a vi no bar que havia naquele acampamento de Passos da Pátria: cravado no sudoeste paraguaio, esperando uma emboscada de López, pensei comigo: quero uma noite de amor com esta mulher linda!
- Aliás: a harpa guarani foi um dos mais belos instrumentos que eu já vi, mais belo que um piano de calda. Som de cravo.
- Que maravilhoso “mirar” aquela argentina linda cantando canções maravilhosas que nunca ouvira no Brasil! As chamadas polcas e guarânias, que são suaves como veludo.
-  Ainda mais embalada por voz tão maravilhosa de uma “rúbia” mulher, de olhos tão negros e profundos, da qual esqueci um pouco das agruras da vida militar.
- Minha tropa precisava de mantimentos e de médicos para alguns males, por isso fiquei muito empolgado ao ver aquele acampamento amigo, após tantas dificuldades que passamos na marcha da Província do Mato Grosso, pela do Paraná, até chegarmos aqui.
- Precisávamos também de veterinários para nossos cavalos, que já estavam exausto e precisando de medicação: o cavalo é uma ferramenta preciosa numa guerra: que animal abençoado!
- Os cavalos eram muito importantes para levarmos o armamento, como os sabres e a munição, que eram de origem belga e britânica.
 - A munição era feita por nós e fazíamos questão de colocarmos pimenta do reino junto da pólvora, para fazer arder o ferimento dos soldados guaranis de López.
- Eram rifles que nós mesmos preparávamos os projéteis, sendo muito difícil fazer o mesmo quando chovia; e estávamos em meses chuvosos naquela região.
- Chego com 100 comandados ao acampamento, pois foi um embaralhar constante que tive que fazer: como num jogo de cartas que se perde e se ganha novos naipes.
- Uns soldados morreram, e enterramos pelo caminho mesmo.
- Chegamos a comer as vísceras de um, morto por ferimento em combate, que não resistiu: parece até mentira, mas passamos fome demais nos campos de batalha da Província do Mato Grosso.
- Fiquei sabendo que um de nossos comandantes, o Coronel Camisão, passara um ano comendo laranjas de plantações, após ser cercado pelos paraguaios, na região de Laguna, que Visconde de Taunay fez livro.
- Ele fora obrigado a fugir, pois não teve condições de chegar até a Assunção: mas foi muito corajoso ao tentar isso, por incursão por terra, vindo da Província de Mato Grosso.
- Nós tentaríamos isso, pelo sul do Paraguai, apoiados pelos uruguaios e argentinos, com mais chance de êxito do que o Coronel Camisão.
- Outros dos meus soldados desertaram, e nem tivemos como ir atrás, pois as ordens eram expressas para chegarmos o mais rápido possível ao acampamento Passos da Pátria.
- Muitos deles eram negros que vinham de senzalas das plantações de café e cana, do Vale do rio Paraíba e do Agreste do Nordeste, que aproveitaram a ausência de cativeiro para se embrenharem na mata e fazerem seus quilombolas.
- Houve soldados meus que morreram em combate, lá na região de Dourados, pois os paraguaios estavam melhores equipados e estavam alimentados com víveres que saqueavam das fazendas que ocuparam na Província de Mato Grosso.
- Uns dos meus soldados eu cedi lá mesmo para o Coronel Camisão, que, heroicamente, perpetrara a invasão da Laguna, não logrando sucesso, sendo obrigado a comer um laranjal todo, por meses, para não morrer de inanição.
- Fiquei sabendo pelos relatórios que os soldados que deixei com o Coronel Camisão, acabaram sendo massacrados pelas tropas paraguaias.
- Muitos deles foram índios que treinamos ali mesmo: para alguns chegamos de dar patente até de sargento, a toque de caixa mesmo.
- Há os que morreram de doença, picados por cobra ou atacados por onças quando foram urinar na mata. O terreno sempre é inóspito.
-  Quando cheguei aqui foi uma imagem que até hoje não esqueço:
- Vejo às 7 da manhã o acampamento Passos da Pátria, pois andamos pela madrugada mesmo, para evitar qualquer emboscada paraguaia, pois estávamos em território de Francisco López e suas tropas.
- O sol forma uma neblina espessa, que vai sendo dissipada com o avançar da alvorada.
- Ouço a corneta que desperta os soldados do acampamento, que recebe o nome de Passos da Pátria por causa da iniciativa de invadir o território paraguaio para lavar a honra dos aliados, numa inscrição em madeira a sua frente.
- As bandeiras do Brasil, do Uruguai e da Argentina estão no mastro improvisado e marcam o avanço sobre López.
- A Batalha Naval de Riachuelo havia destruído a armada de López, mas não era o bastante: era preciso humilhar o Paraguai.
- Minhas botas atolam num lamaçal espesso, pois o terreno era alagadiço ali, pois era um pântano as margens do lago de Tuiutí, que lembrava demais o Pantanal da Província de Mato Grosso, nas cercanias do Corumbá e Ladário.
- Preciso secar a bota, pois a constante umidade provoca fungos que acabam com os pés de qualquer soldado, como vinha acontecendo no nosso caminho.
- Precisava também manter a integridade da minha bota, pois não tinha bota para substituir, dada a precariedade do orçamento do Rio de Janeiro, que mantinha os pelotões com privações, esperando o auxílio financeiro dos ingleses.
- Encontramos dois soldados paraguaios feridos, antes de chegarmos ao acampamento, lá pelas 3h da manhã, naquela marcha epopeia.
- Quando fomos verificar como estavam, para pegar armas e munição para nosso pelotão moribundo, pois os paraguaios se encontravam deitados na capoeira, um de meus soldados toma uma estocada de espada no coração.
- Bem típico dos paraguaios agirem como serpentes traiçoeiras, armando emboscadas para nossos pelotões.
- Pelo caminho vimos várias cabeças, antes, dependuradas em árvores, como que enfeitando a paisagem para nos aterrorizar e tirar nosso moral de tropa.
- Ai eu fiz o que eu deveria ter feito desde que vi os desgraçados: eu dou um tiro na cabeça do infeliz, e um de meus homens termina de esfaquear o outro.
- A noite, no acampamento, pude conferir que havia até prostituição por parte de argentinas e uruguaias, tolerada pelos generais, desde que não houvesse brigas: o que era impossível, onde há mulheres e bebidas.
- Não era eu casado. Apenas deixara no Rio de Janeiro uma namorada, mas a Guerra já estava me fazendo esquecê-la.
- Era a filha de um Coronel, Mário Cézar, de nome Maria Lurdes. Às vezes chegava para mim cartas dela. As lia, mas depois passei a não responder mais.
- Ela me contava das agitações do Rio de Janeiro: principalmente, me mandava recortes dos jornais noticiando a Guerra, de maneira a insuflar no povo um sentimento de lealdade ao Imperador Dom Pedro II.
JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- O Imperador ajudou vocês?
HERMES:
- Um pouco atrasado, mas sim: os canhões chegavam em boa hora, vindos do Rio de Janeiro, encomendados da Europa e feitos em algumas siderúrgicas. O Barão de Mauá também os fez em sua siderúrgica.
- Chegavam também muitos mulatos e índios, chamado de “voluntários”, por nossos oficiais superiores, aqui no nosso acampamento. Os oficiais superiores isolavam-se nas barracas para eles construídas, onde olhavam mapas.
- Na verdade, não havia uma cartografia exata do Paraguai. Mais adiante: o Duque de Caxias, ao substituir o General Osório, trouxe balões de observação dos Estados Unidos.
- As missões de reconhecimento anteriores as estes balões eram feitas por incursões, praticamente suicidas, pela madrugada, adentrando os pântanos de Tuiutí: missão relegada a negros e índios brasileiros.
- Nossa engenharia militar havia construído alguns anos antes, o Forte que protege Assunção: o forte de Humaitá, que agora era nosso principal inimigo, alguma centena de quilômetros após Tuiutí.
- Havia muito gemido no acampamento.
- Ele era ouvido o dia todo dentro das barracas onde havia moribundos ou mesmo soldados fingindo-se de moribundos, como depois, num levantamento criterioso que fizemos a mando de Caxias, pudemos constatar.
- Muito cheiro de cadáver, que lembra cheiro de peixe apodrecido. Um cenário caótico e ao mesmo tempo instigante, pois havia solidariedade entre todos que estavam ali.
- Escolas foram improvisadas, pois os órfãos eram vários.
- Os pais ou morreram nas invasões paraguaias às vilas argentinas e brasileiras, ou morreram de tifo e doenças infecciosas que se disseminavam pela precariedade sanitária.


CAPÍTULO 16:
A BATALHA CAMPAL DE TUIUTÍ

HERMES RELEMBRA QUE FALA A TENENTE RAMIRO NA ALVORADA:
- Tenente! Mande alguns soldados ajudar a cavar as trincheiras com os uruguaios!
TENENTE RAMIRO:
- Sim meu comandante! ...
TENENTE RAMIRO:
- Acordar negrada, não ouviram o comandante?
CABO ISIDORO:
- Tenente, há muitos nossos nos hospitais de campanha aqui. O Duque de Caxias disse que é tudo fingimento.
HERMES OUVE E GRITA:
- Mande estes negros virem logo ou eu mando fuzilar!!!
(...)
HERMES RELATANDO AO JORNALISTA ONÓRIO LEMOS:
- Alguns dias antes, os paraguaios armaram uma emboscada.
- Lutamos quase 12 horas contra 3 mil destes infelizes.
- O General Sampaio teve grande trabalho para liderar a cavalo.
- A sorte que tínhamos uma artilharia de canhões ingleses que nos ajudaram a deter a horda.
- Era uma horda sanguinária.
- Chovia muito. Quando chove fica difícil usar arma de fogo.
 - Ai a coisa é resolvida na faca mesmo.
- Os paraguaios acabavam perdendo tempo degolando os que eles conseguiam matar.
- Era onde meus soldados vinham por trás e atiravam.
- As trincheiras eram muito importantes também, pois davam para nós a possibilidade de guarnecer nossas vilas.
- As mulheres nossas também ajudaram a fazer emboscadas pelas costas contra os paraguaios.
- Muitas delas tinham ódio deles, pois eram viúvas dos primeiros tempos de invasão no sul do Rio Grande.
- Muitas mulheres foram mortas por eles!
- Eles não poupavam nem as crianças do acampamento
- Depois do fim da batalha campal, começa o processo de enterrar os mortos, para que a decomposição não alastrasse doenças entre nós.
- Perdemos nosso tão admirado General Sampaio.
- Sampaio tornou-se, depois do conflito, o patrono da minha arma de infantaria.
- A coisa foi tão séria em TuiutÍ, que o nosso comandante em chefe, o General Osório, morre.
- Ele será substituído pelo Duque de Caxias, o qual muda todo contexto do nosso estrategista.
- Duque de Caxias era coronel no meu tempo de academia.
- Já tínhamos por ele uma admiração militar pelo que escrevia e pelo que falavam sobre sua inteligência.
- Caxias manda que façamos um levantamento dos soldados que estão fingindo ferimento e manda fuzilar os covardes como exemplo.
- Caxias faz que escravizemos os militares paraguaios que prendemos. Os coloca para construir uma precária linha de ferrovia para levarmos todos nossos materiais e avançarmos rumo ao Forte de Humaitá. Ai sim: tomávamos Assunção.
- O forte de Humaitá havia sido construído pela nossa engenharia militar. Um colega meu de academia, o tenente Marcos, foi um dos encarregados alguns anos antes.
- Eu conversei muito com ele no front.
- Caxias mandou trazer balões de observação para podermos ver o que os paraguaios estavam fazendo.
- A marinha brasileira avança e termina de destruir o Forte de Humaitá.
- O problema de avançar com os navios é que o rio Paraná e Paraguai estavam todos cheios de grossas correntes de ferro que os atravessavam para impedir o avanço dos nossos barcos.
(...)
Na última visita, no dia seguinte, Onório Lemos recebe a notícia do falecimento do Coronel Hermes Gonçalves.


SEGUNDA PARTE :
O COTIDIANO DE FRANCISCO SOLANO LÓPEZ
CAPÍTULO 1:
PALÁCIO DE FRANCISCO SOLANO LÓPEZ EM ASSUNCION

O palacete de Francisco Solano López lembra-nos o rosto do Palácio de Versalhes, monumento que existe na França. Versalhes, nos arredores de Paris, abrigara várias dinastias de nobres francos. Isso até a Revolução Francesa de 1789, que instaurou a Republica e o Regime de Terror contra os representantes do Antigo Regime. Mesmo assim, manteve-se perene.
Já seu correlato, menor, o palacete dos López, tem frente impetuosa. Foi construído mais no começo da segunda metade do século XIX, diferentemente do palácio francês.
O palácio paraguaio é do estilo neoclássico, com abóbadas limpas que dão leveza ao edifício. As janelas são de vidros que chegam a reluzir de tão limpos, possível por uma vasta criadagem calada e obediente. Há jardins idílicos, com flora exuberante de várias partes do Mundo, nos quais sempre era possível ver López a passear com Madame Lynch, luxosamente vestida, mesmo no cotidiano mais ordinário.
Há também fontes d’água em várias partes, nas quais esculturas mitológicas jorram água pura em vasos ou pela venta.
(...)
A cena passa-se no quarto de Francisco Solano López e de Madame Lynch.
Um quarto com cama folheada com ouro e seda indiana cortinando-a. Há neste quarto uma escarradeira de porcelana chinesa, na qual López tossia nos dias frio, procurando limpar seus pulmões.
As fotografias e quadros eram presença de Carlos, o pai de López. Havia também uma grande pintura de Napoleão Bonaparte, que Napoleão III o ofertara quando vivera na Europa, buscando instrução.
Francisco Solano López é um homem de barba bem aparada, nos altos dos 30 e poucos anos e moderadamente obeso. Trata-se de uma pessoa que recebeu boas instruções e amante do luxo e do poder.
Ambos fazem amor no momento da cena, no comecinho da madrugada em 1868.
A empregada os acorda. Ambos colocam suas pijamas. A empregada quer falar que um de seus filhos dos López está com febre, por causa de uma dor de garganta.
Madame Lynch a dispensa, mandando que o médico do palacete seja acordado imediatamente.
Nisto Madame Lynch vira-se para Francisco.
LYNCH:
- López, nossa menina está com dor de garganta...
LÓPEZ:
- Fale para acordar o Dr. Pancho.
Lynch, uma mulher manipuladora e ciumente, aproveita a oportunidade e diz a marido.
LYNCH:
- López, você mandou executar aquela governanta que estava dando em cima de você na minha frente?
LÓPEZ:
- Não sei, Lynch. Estou muito ocupado com as investidas dos brasileiros, juntamente com uruguaios e argentinos, junto a minha fortaleza de Humaitá.
- Se eles conseguirem passar pela fortaleza, teremos muito trabalho aqui em Assunção. Perdemos muitos homens nas batalhas para acabar com o acampamento dos inimigos no extremo sul.
- Outro problema é que alguns dos meus oficiais conspiram contra mim, com ajuda de familiares meus que querem tomar meu comando. Preciso que Bernardino Cabalero prenda esta gente e quero todos fuzilados. Por isso, não me incomode com seus ciúmes bobos, pois eu vou te dar mais uma corrente de diamantes que mandei trazer de Londres.
O casal se abraça e volta a fazer amor novamente.
Lynch e López tiveram seis filhos, sendo apenas uma menina.
(...)
O Paraguai tornou-se independente em 1811, onze anos antes do Brasil. Devido a não ter uma saída litorânea própria, os paraguaios mantivera-me isolados e num regime econômico semi-feudal. Com uma população diminuta, numa pequena extensão territorial, não foi difícil para o país manter bons níveis de vida, por várias década; no entanto, após a Guerra, o país mergulhou numa profunda crise, cuja democracia e a soberania foram sempre abaladas.
 
CAPÍTULO 2:
REUNIÃO DE FRANCISCO SOLANO LÓPEZ COM O GENERAL BERNARDINO CABALERO PELA MANHÃ, NA SUA SALA DE COMANDO.

A reunião ocorre pela manhã, com Assunção encoberta por uma neblina de frio de beira de rio. Nos corredores do palacete estão sempre soldados perfilados com os pavilhões em mão, com o brasão dos López e os símbolos nacionais paraguaios. O brilho do chão vitrificado reflete a fronte dos poucos nacionais que podem pisar ali. Ouve-se sempre o som das continências, de luvas brancas e mangas de rendas, dos soldados ao passarem os altos oficiais.
López está com o café da manhã ao lado de sua mesa, servido luxuosamente numa bandeja de prata. Toma chá com limão e come doces finos feitos por suas criadas trazidas da Europa.
Bernardino Cabalero, seu general mais importante, entra na sua sala e o faz reverência.
López pede para que sente e começam um diálogo.
LÓPEZ:
- Bernardino, como está a nossa resistência na fortaleza de Humaitá? Não podemos perder nunca a fortificação, pois é a entrada para nossa capital de quem vem do extremo norte da Argentina. Os brasileiros erraram em ter dado a nós esta fortificação. Foi muito bem alimentada com vilas e armadas. Sem ela eu nem pensaria em começar este conflito. Só que eu não vou ser humilhado pelos argentinos, em hipótese alguma. Vamos sair para o mar o morrermos todos deste país. Precisamos do mar, pelo Oceano Atlântico. Depois invado o Chile e tomo para o Pacífico.
BERNARDINO:
- Péssimas, Mariscal López, péssimas notícias, que meus oficiais de inteligência trazem.Com Caxias no comando, depois da morte de Sampaio, a coisa mudou totalmente, em favor da “negrada” brasileira. Ele tem usado nossos prisioneiros para darem informações. Os prisioneiros estão improvisando ferrovias de madeira para logística das tropas, além de fazerem trincheiras para que possam atirar nos nossos soldados. Fora que a marinha de Dom Pedro II desbloqueou o rio Paraguai. Não sei não, "Mariscal", mas vamos ter que sair da nossa capital.
- Os aliados conseguiram bombardear o forte. Várias casas e os muros foram seriamente danificados. Nossos soldados ou se renderam ou estão voltando para Assunção, pensando em derrubar o senhor do poder. Acusam-no de ter colocado o povo num flagelo desnecessário.
LÓPEZ:
(irritado) – Quero que mande executar o oficial responsável por esta covardia!!! Não vamos perder território para estes traidores que assinaram tratados conosco e não honraram. Custava esta gente deixar-me sair pacificamente pelo rio da Prata? Que risco eu oferecia a Mitre?
- Vá a cada vila nas cercanias de Assunção e recrute homens para formarmos mais e mais tropas e vamos para cima deles.
BERNADINO:
- "Marical", atualmente no Paraguai só temos uma boa parte de adolescentes, pois o senhor sabe que nossa população não é volumosa como a deles. Nós somos um país que não passa de mais de meio milhão de pessoas. Perdemos muitos dos nossos homens mais maduros em Humaitá. Foi muito complicado mandar medicamentos e comida para eles.
LÓPEZ:
- Como está a situação de nossa ferrovia? Aquela que leva mantimentos para a fortaleza de Humaitá?
BERNARDINO:
- O Duque de Caxias improvisou uma ferrovia, como disse ao senhor, usando madeira e os prisioneiros nossos. Está neutralizando tudo pelo caminho, por meio da artilharia.
- Depois que Caxias entrou no lugar do Sampaio, muita coisa mudou nessa guerra. Ele trouxe balões e conseguiu passar muito pelo terreno até aqui, com a ajuda da marinha deles no rio Paraguai, que afundou várias de nossas chatas.
López curva a cabeça e dá um murro na mesa.
Parece estar enfurecido e cada vez mais isolado.

CAPÍTULO 3:
FESTA NO PALACETE DE FRANCISCO SOLANO LÓPEZ

A corte de Francisco Solano López está reunida no nobre salão, numa noite de gala. Noite esta regada a bebidas finas, gastronomia requintada e uma orquestra a tocar músicas clássicas. Os talheres e louças são prataria pura. Usa-se a mais fina porcelana trazida de Londres, nos tempos que ainda entravam chatas pelo estuário do rio da Prata, em direção a Assunção. Trata-se de uma festa, antecedida de um jantar luxuoso, para que Lynch alimente seu ego e não sinta tanta saudade da corte de Napoleão III, de Paris, onde era cortesã. Indumentária francesa são exibidas pelos convidados, grande parte engenheiros europeus e altos oficiais paraguaios, todos com suas esposas, que a invejam pela beleza e joias, coisa que Lynch sente prazer em sentir, pelos bochichos que ouve ao entrar potentemente com seu marido.
Estão reunidos generais, almirantes e familiares de Francisco Solano López, muitos dos quais invejosos e conspiradores contra o casal.
Elisa Lynch não gosta dos familiares de López.
As irmãs de López também a odeiam, mas o fingimento é geral.
Na mesa, começa o diálogo:
IRMÃ DE LÓPEZ:
- Lynch, na Europa você não aprendeu que a entrada vem primeiro e depois os pratos mais quentes? Você não sabe dar ordens aos criados?
LYNCH pega a taça de vinho e arremessa bem no rosto da irmã de López.
Imediatamente, López levanta e pega Lynch pelos braços e a leva para os aposentos do palácio.

SOLANO LÓPEZ:
- Pare com isso, meu amor!!! Não suporto mais sua cena de ódio com minhas irmãs....
LYNCH:
- Ela que me provocou, meu amor. Você deve tomar mais cuidado com seus familiares.
- Bernardino anda desconfiado que haja informações vazando aqui do palácio para Caxias, você precisa ser mais enérgico.
Realmente López estava começando a ordenar o assassinato daqueles que ele suspeitava de traição.
Assunção estava recolhida diante dos fuzilamentos diários que os oficiais de López perpetravam.
Isso ficou mais evidente após o fracasso de contenção dos brasileiros, uruguaios e argentinos na fortaleza de Humaitá.


CAPÍTULO 4:
A INVASÃO DE ASSUNÇÃO PELOS BRASILEIROS

No horizonte de Assunção começam a aparecer multidões de soldados inimigos marchando e tomando cada casa.
Os soldados entram nas casas, saqueiam, estupram e ateiam fogo no que podem.
Solano López, sabendo da notícia, manda preparar sua comitiva com alguns cavalos de carga e soldados mais fiéis a ele.
LÓPEZ:
- Lynch, pegue todas as suas joias, mulher!!! Coloque em sacos mais discretos.
LYNCH:
- Maldita hora que sai de Paris. Odeio este lugar.
LÓPEZ:
- Calma que vamos reagir, nós vamos para Cerro Corá. Lá vamos organizar mais soldados e vamos retomar Assunção.
- Este desgraçado do Conde d’Eu me pagará caro...
- Preciso reunir tudo que puder para que lá eu compre mais armas de algum mercador que consiga chegar até nós.
(...)
É fim de tarde. Assunção está cheia de pequenos focos de incêndio e muita confusão entre a população, que corre desorientada de um lado a outro, sendo massacrada.
Na frente da tropa o Conde D’Eu, marido da princesa Isabel, filha de Dom Pedro II.
Conde D’Eu fala a sua divisão:
- Matem todos os meninos. Não quero que sobre um homem neste país para lutar.
As ordens são seguidas a risca. Os soldados entram nas casas e enfiam as espadas nas crianças, lembrando muito o massacre das crianças por Herodes, no Novo Testamento judaico-cristão, que temia que o Messias tivesse nascendo para derrubá-lo do trono.


CAPÍTULO 5:
A BATALHA FINAL DE LOS NIÑOS

López está com sua comitiva, a cavalo, já cansado, e param no fim da noite para descansar, no começo de 1870, no mês de janeiro. Passam por vilarejos durante cinco dias, onde apanham víveres e outros alimentos disponíveis, dado que a escassez já era realidade no Paraguai, totalmente isolado do mercado internacional.
Os soldados que o acompanham, montam guarda ao redor do acampamento, que logo se ilumina um pouco por causa da fogueira. Poucos soldados, a maioria visivelmente abatida por conta da penúria. Muitos deles ainda adolescentes, pois as batalhas dizimaram mais da metade da população masculina.
Lynch está suja, tendo sobre si, ainda, vestido suntuoso, "enlameadíssimo". Está a se estapear por causa dos insetos.
López está a conversar com um de seus oficiais, enquanto bebem erva-mate quente, a rodar de mão em mão.
LÓPEZ:
- Você conseguiu mais homens? Não tem como pegarmos os índios aqui da região norte paraguaia? Preciso que você forme novas tropas, pois precisamos retomar Assunção das mãos dos malditos brasileiros.
OFICIAL:
- Não, meu "Mariscal". Mas conseguimos alguns meninos que encontramos pelo caminho, os quais eu raptei de famílias camponesas. Trouxemos roupas militares que sobraram. Vamos vesti-los...

LÓPEZ:
- Quero que você enterre pelo caminho os sacos que te pedi e que você marque numa caderneta o ponto, de maneira cifrada, pois ali temos como reencontrar quando eu voltar a Assunção (eram as joias de Lynch e muito ouro do Banco do Paraguai). Inverta o mapa para confundir.
A cada 1 quilômetro de marcha pelo norte do Paraguai, os ajudantes de López, sem saber que ali havia uma fortuna, iam enterrando o que ele ordenava, imaginando que fosse apenas documentos militares ou acreditando noutra coisa que os oficiais queriam que acreditasse.
As tropas dormem num bosque, alimentando-se de víveres conseguidos das populações camponesas.
Ao acordarem, por volta das seis horas da manhã, com leve neblina, observam uma cavalaria de brasileiros em direção a eles, por volta da alvorada.
Os soldados brasileiros, na sua grande maioria, mulatos, gritam:
- Matem o desgraçado do López....
López ao ouvir isso, foge, correndo e escorregando, já que era um homem obeso e sem muita agilidade por isso.
No entanto, o Cabo Diabo, um negro brasileiro, o detecta, por ser ele obeso, e todos os demais não.
Neste momento, Lopez cai e diz:
LÓPEZ:
- Invasores do meu país, eu vou destruí-los...
Nisto, o cabo brasileiro desfere um tiro no coração de López, quase que num impulso, pois a ordem era prendê-lo e fazer humilhações a ele. Levá-lo para ser preso no Rio de Janeiro e conseguir confiscar seus bens para saldar as guerras.
Lynch está com um de seus filhos ao colo, como uma Pietá, chorando sobre o rosto do pupilo morto. Está vivendo por lembranças.
Enquanto isso, os soldados brasileiros chutam o corpo de López e colocam a bandeira brasileira, com o mastro, pela garganta dele, empalando-o.

TERCEIRA PARTE:
PIERRE, O CAÇADOR DE TESOUROS
CAPÍTULO 1:
O ENCONTRO DE PIERRE COM LYNCH EM PARIS ALGUNS ANOS DEPOIS DA GUERRA

Em dezembro de 1874, um ex-militar da Marinha francesa, de nome Pierre Levy, está em Paris, bebendo café, depois de almoçar, na área central da cidade, num restaurante aconchegante.
Alguns anos antes, Pierre sofreu um processo penal militar por vender informações do projeto de um navio de guerra franco, por mais de um milhão de libras, para os ingleses. Porém, como não haviam provas robustas, mas apenas testemunhos de seus subordinados que não conseguiram convencer a corte marcial, seu advogado fulmina a acusação, o que também foi acompanhado pelo "parquet".
Todavia, ele realmente era culpado. Pierre Levy era um calculista. Agia de maneira tal que não deixava suas digitais, usando luvas e máscaras sobre o rosto. Com o dinheiro que recebeu dos britânicos, Pierre nem no banco deposita, guardando-o no porão uma casa abandonada, na qual, na periferia parisiense, retira apenas pequenas quantias apenas para pagarem suas despesas e viagens.
Pirre teme que os agentes do serviço secreto francês estejam o acompanhando, por isso, ele sempre procura usar disfarces e documentos falsos, não ostentando. Um camaleão era Pierre, mostrando-se um ótimo oficial treinado nos disfarces de um homem de informações, que são os militares que não se fardam e usam personagens para obterem material em prol dos relatórios ao alto comando.
Pelos jornais franceses, Pierre lê sobre o fato da viúva do ditador paraguaio, Francisco Solano López, estar morando em Paris, e reivindicando indenizações pessoais junto ao Império do Brasil. Lynch havia contratado advogados no Brasil para pedir indenizações milionárias que viraram notícia nos jornais da Europa.
Ele procura saber onde está Elisa Lynch, que já está adentrando a meia idade da terceira idade. Descobre que Elisa vive, com seus filhos, num luxuoso apartamento, perto do rio Sena, região muito valorizada em Paris.
Durante alguns dias, Pierre Levy cerca e observa a rotina de Elisa Lynch. Ela saia a tarde para passear com seus filhos adolescentes e alguns de seus criados mais íntimos, que trouxe de Assunção. Passeava por cafés e pelas belas praças da Paris da “Belle Epoque”.
Pierre toma coragem e se dirige a Lynch, num destes passeios às margens do Sena:
PIERRE:
- Boa tarde, Madame Lynch?
LYNCH:
- Boa tarde. Se você for jornalista, pode ir embora. Estou cansada de dar entrevistas e depois ver que o jornalista mudou tudo. Praticamente colocam-me como uma prostituta que se deu mal. Que está mendigando.
PIERRE:
- Não, Madame. Apenas quero oferecer meus préstimos a senhora...
LYNCH:
- Mas o quê o senhor faz?
PIERRE:
- Sou um ex oficial de espionagem do Governo Francês. Fui oficial da Marinha. Posso ser útil a senhora de alguma forma.
Lynch pensa por alguns minutos e diz:
LYNCH:
- Olha, eu estou num processo enorme contra o Dom Pedro II e aquele paizinho de negros que é o Brasil. Eu quero minhas terras novamente, principalmente os que tem erva mate nativa, lá no meridional da Província do Mato Grosso, que estão ocupadas por um português. Solano me deu de presente estas terras do sul da Província do Mato Grosso. Quero minhas joias e tudo que tenho direito, pois sai daqui para ir para aquele fim de mundo. Você não tem ideia das humilhações que eu passei.
PIERRE:
- Madame, diga o que eu preciso fazer para recuperar este espólio que roubaram de ti?
LYNCH:
- Olha, como é seu nome mesmo?
PIERRE:
- Pierre Levy, minha senhora.
LYNCH:
- Eu tenho uma caderneta de anotações do Francisco Solano López, que ele marcou algumas posições nas quais ele enterrou boa parte do tesouro do Banco Central do Paraguai e outra fortuna em metais preciosos, mas ele sifrou tudo, colocou em código. Eu preciso que alguém vá até o norte do Paraguai e tente encontrar esta fortuna. Eu contrato os seus serviços. Fazemos um acordo celebrado por um advogado aqui de Paris. Caso você encontre, o remunerarei com quarenta por cento de tudo que encontrar. Mas já te digo: tá tudo em código. Nem mesmo o General de confiança dele, Bernadino Cabaleiro, sabe onde esta codificação. Bernadino hoje mora no Rio de Janeiro. Casou-se com uma brasileira. Mas já fiquei sabendo que ele quer o poder no Paraguai.


(...)
Após o fim da conversa, ambos vão ao apartamento.
Conforme o prometido, Lynch o passa a caderneta de López, cheia de rabiscos e simbologias, as quais somente López poderia entender.
O advogado de Lynch chega, depois de algumas horas, com sua valise com modelos de contratos, e ali celebram um acordo no qual Pierre Levy fica encarregado de encontrar a fortuna dos López, no norte paraguaio, podendo ser preso por apropriação indébita, em qualquer lugar do Mundo, caso não honre esta cláusula contratual. O contrato fica arquivado num cartório de Paris.


CAPÍTULO 2:
A IDA DE PIERRE AO LOCAL DA BATALHA DE CAMPO GRANDE

Pierre Levy, depois de um mês do diálogo com Lynch, embarca num vapor em direção ao Rio de Janeiro, a capital Imperial do Brasil, em 1883. Leva consigo a caderneta com as anotações de Francisco Solano López, a qual ele procura estudar, analisando cartografias do território Paraguaio. Tenta refazer os passos da caravana que López guiou até ser morto na Batalha de Cerro Corá.
Porém, Pierre Levy não percebe, mas um agente do serviço secreto britânico, Michel Look, embarca com ele, em Paris, observando todos os seus passos, sem que ele note.
Dentro do navio luxuoso, estão muitos comerciantes de café e fazendeiros, além de estudantes brasileiros que estavam na Europa cursando universidades, num clima de glamour: bem típico dos navios da época.
As noites do navio são requintadas. Mas Pierre fica trancado nos seus aposentos, somente lendo e tentando decifrar as anotação de Francisco Solano López.
Numa questão de tempo, Levy suspeita que López colocou de trás para frente o desenho rudimentar da paisagem do norte do Paraguai, percebendo também que o nome dos filhos de López estavam abreviados e podiam ter dado o nome de cada cova que López enterrou o tesouro do seu palácio.
O espião inglês procura um disfarce de camareiro no romper do dia. No navio mesmo, o espião consegue adentrar aos aposentos de Pierre, fazendo fotografias sobre todos os documentos que encontrou. Pierre nem nota, pois tomava seu café da manhã no restaurante do navio.
O espião inglês revela as fotos, mas não entende nada das anotações de López na cadernetinha de capa de couro, e, por essa razão, manda um telegrama, ao chegar ao porto do Rio de Janeiro. Depois de trinta dias, a Inteligência Inglesa responde que é o mapa do tesouro de Solano López, e pede que o agente siga Pierre Levy de qualquer forma.
Pierre Levy desembarca no porto do Rio de Janeiro, juntamente com todos os passageiros do navio à vapor, que veio da França, procurando um hotel nas imediações do Teatro Municipal. No hotel, o qual também hospeda o espião inglês, que o persegue, Pierre conta as libras que ele pegou do golpe que dera na França, para poder criar toda a logística da exploração do terreno do suposto tesouro.
Pierre Levy precisa embaraçar novamente num vapor, desta vez para a cidade de Buenos Aires, capital argentina. O caminho em direção a Assunção, capital paraguaia, ainda obrigava o cruzar a Estuário do Rio da Prata, antes pegando mar bravio que é uma das características do encontro do Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico.
Após algumas semanas, juntamente com o espião inglês que embarcou junto, Pierre desembarca em Buenos Aires, no porto que tanto desgosto deu a Francisco Solano López, com suas altas taxas alfandegárias.
Novamente pega um vapor portenho, desta vez para a cidade brasileira de Corumbá, no Rio Paraguai, extremo oeste da Província do Mato Grosso, onde, junto com o agente novamente (que o segue como sombra), vai cruzar o chaco paraguaio, numa viagem difícil.
Pierre chega a Corumbá e contrata um índio aculturado, Nino, o qual o guia até o Paraguai, por meio de chata e de lombo de cavalo.


CAPÍTULO 3:
A FRUSTRAÇÃO POR NÃO ENCONTRAR O TESOURO

O índio Nino e Pierre Levy descem o Rio Paraguai numa pequena chata alugada pelo mercenário franco. O rio extenso e de águas mansas, com tom marrom, somados ao calor, dão a viagem um ar de aventura. O índio como piloto da embarcação e Pierre estudando os mapas, juntamente com o diário de López.
Neste momento, o espião inglês perde-se de Pierre. O espião contrata uma chata, mas ela apresenta fissuras que impedem o prosseguimento da navegação, perto do Forte Coimbra, uma vila militar no rio Paraguai, a quase 100 km de Corumbá.
Pierre desce o Rio Paraguai e depois, ele e o índio, cada qual com seu cavalo, dão-se a "palmilhar", sem que o índio saiba, o território por onde López percorrera com os remanescentes do seu exército. Os planos de Pierre era de assassinar o índio, caso fosse encontrado o tesouro. A desculpa que Pierre dera ao índio é que era arqueólogo e estava atrás de vestígios de civilizações andinas que poderiam ter vivido naquela área, o que para o índio não tinha muito sentido: cavar para encontrar coisas que não fossem metais preciosos ou o que o valha.
Após cavar, parar, cavar de novo, de maneira ensandecida, Pierre percebe que o tesouro de López é uma lenda.
Na verdade, o mito de López, da grandeza do Paraguai, é um mito presente no imaginário dos povoados da Bacia do Prata e do Paraguai.
Pierre retorna a Paris, alguns anos depois, mas já encontra Lynch morta de causa natural.

fim
LUCIANO SILVA DE MEDEIROS
Enviado por LUCIANO SILVA DE MEDEIROS em 05/05/2017
Reeditado em 19/05/2017
Código do texto: T5990138
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LUCIANO SILVA DE MEDEIROS
Barreiras - Bahia - Brasil, 41 anos
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LUCIANO SILVA DE MEDEIROS