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CHAPEUZINHO VERMELHO UM POUCO DIFERENTE


     De sobrenome LOBO - LUPO na certidão.  E muito exibido.  Dizia-se dele que dizia de si próprio ser exímio devorador de frágeis e inocentes CORDEIRINHAS.
     PIETRO CESARE.  Brasileiro, palrava em gestos típicos e quase gritos “de descendência muito forte e valente”.  Dominador, coração de pedra, insensível.  (Por quanto tempo ainda?)  Mas, na verdade, “lobo bobo”... cantado em tempos (velhos) de bossa nova.  A signorina que ele amava em segredo, passava ás sete da manhã carregada de livros, um tanto rebolativa, resmungava um desinteressado  (irônico?) ‘bon giorno’ e era só isto.  Vizinha a distância de sete casas.  Tentado, chamou-a para ajudar na venda do pão.  (Brás, B”i”ga ou Barra Funda:  Não sei.  Certo mesmo em ambiente ítalo-macarrônico na cidade capital onde corre o rio Tietê.)
     INÊS, como a chamavam - AGNES MARIA RAMALHO na certidão.  Descendente realmente do famoso bandeirante?  ELA chegava da faculdade pública (só podia se Administração), chuveiro quente, reeição em casa, rápido descanso e ia trabalhar.  “Meio expediente apenas”, ELE propôs, só que acabava sendo um “meio” longo, pelo indefinido horário de cerrar as portas de aço a perder de vista (ou de cálculos?):  boa freguesia, bom dinheiro;  incrível:  ELA parecia gostar muito porque nunca reclamou - somente sugeriu  (mulher quando sugere mansinha, está ordenando!) tevê na padaria para as novelas.  “Claro que sim!  E bem grande!”  A padaria era famosa pelas várias fornadas, tanto pela manhã como à tarde, mas neste horário é que saíam assados melhores, como pães doces com creme pães com recheio salgado, sanduíches abertos especiais, pizzas variadas e em apenas um mês bolos e biscoitos de fabricação própria - trouxe receitas da família dela, imaginem...  Frangos e pernil ainda sob encomenda.  Tempos depois carneiro - ELA ensinou:  “Em março ou abril, e setembro.  Com hortelã.”  Do balcão (fácil embrulhar em papel de rolo e jogar num saco  plástico), ELA pesquisou segredinhos culinários, foi promovida para outros trabalhos e se tornou especialista em temperar com ervas ora frescas ora secas os diferentes tipos de carne, encaminhava para o forneiro, depois desossar, fatiar, estes caprichos femininos...  Freguesia maior.  Trabalho aumentou muito:  mais três novos contratados.  Agora serviam almoços ligeiros incluindo arroz e maioneses.
     “Pode ser o início de uma bela amizade...”  Não, setenta anos depois, frase de cinema, mito eternizado não:  início de uma bela prosperidade, isto sim.  Na ausência do patrão, quando ESTE ia a bancos ou comprar farinha de trigo que ELE exigia sem mistura (demais compras pedia por telefone - ELA fiscalizava minuciosamente o que chegasse e exigia pontualidade ou “Dona INÊS” trocaria de fornecedor:  todos acatavam e obedeciam!), a JOVEM maduríssima o substituía na caixa registradora e acabou se definindo nesta nova função.  Duas promoções em menos de dois anos?  Pois é.           Quem sabe numa terceira ELA não virava dona de uma grande e próspera padaria?
     De um lado, prateleira alta na parede com um Santo Antônio (luso-italiano casamenteiro nunca se deve esquecer) para o qual eram feitos, uma vez ao dia, bem cedinho, sete pães pouco menores que bola de gude.  Do outro lado, prateleira um pouco ais baixa, com um lobo de louça, coroa de milenares dourados “louros da vitória”, marrom, boca aberta, e dava para ver uma enorme língua vermelha em tom forte fluorescente.  Era o símbolo da padaria.
     ELA detestava guarda-chuva.  Aconteceu uma longa temporada em que São Pedro vivia lavando a Terra “30 horas” por dia, a loja da esquina só dispunha de poucos modelos e cores, ELA comprou em emergência uma capinha com CAPUZ VERMELHO.  Aí, um idiota qualquer, destes que nada raciocinam e só abram a boca para dizer tolices, arriscou perguntar ao”chefinho” porque ELA  de vez em quando era promovida - ah, e devia receber talvez aumento de ordenado e outras mordomias.  LOBO foi curto e grosseiro, isto é, objetivo na mentira:  “EU estou comendo ELA...”  E caiu na asneira fatal de apontar o lobo no alto e dizer que não era língua, era um pedaço de roupa da jovem que ELE, dono da padaria, costumava tirar com os dentes na hora do sexo.  ELA escutou e viu tudo.  “Comendo, é? Esse cara me paga...” - pensou discreta e calada.  Brincadeira sem muita lógica, boato correu, mas na mínimo a rapaziada acreditou, deram parabéns, perguntando o segredo da conquista, ELA considerada uma “presa” difícil.  Homem é muito macho, mas aprecia mulher esperta e mandona, desde que saiba seduzi-lo bem seduzidinho - com delicadeza, carinho e desvelo.  ELA propôs casamento.  (Apaixonada desde muito antes da padaria.)   Namoraram por três meses apenas, sem intimidades de cama.  Jogo de gato (ou lobo?) e ratinha, ELA o provocando ao máximo com blusas super decotadas ou de alcinha, roupa bem curta ou calça comprida ajustadíssima, “traseirão” redondo e tentador.  Sugeria que ELE parasse o carro de repente numa rua escura e deserta perto de ambas as casas, avançava no lobo bobo e o abraçava.    Assanhado (“É hoje!”). metia a mão por dentro da blusa, namorada o deixava ilusoriamente empolgado por meio segundo, dava-lhe um tapinha.  Só permitia beijos.  Beijos e lambidas para lá de excitantes, nunca abaixo do pescoço.  “Não, não e não.  Por enquanto, Santo Antônio me quer virgem.  Vontade é coisa que dá e passa.  Comigo, só depois do papel assinado e aliança no nosso dedo.”  Três desesperados meses de jejum, coitado, ELE sempre ameaçado com a faca de cozinha com a qual ELA cortava certeira embutidos congelados.  “Eu que saiba que se deitou com outra...  (olhava para o alto e cantarolava) vai-vi-rar-um -gor-do-eu-nu-co...”
     Assim foi e casaram na véspera de São João.  Festa de rua, barraquinhas de jogos e brincadeiras, pau de sebo, dança de quadrilha, casamento caipira com dois noivos e das noivas, muita pantomima que ELA escreveu e dirigiu ensaios.  Todos sempre fotografados, filmados.  As pessoas acharam estranho que o padre fosse verdadeiro, da capelinha do bairro, só perceberam casamento de verdade quando chegou enorme bolo com noivinhos e muitas garrafas de champanhe.  Noivinhos?  Quem disse?  Uma bonequinha de biscuit vestida de branco e CAPUZ VERMELHO arrastando pela corrente um LOBO de smoking de gola brilhosa.  (Apareceram enfeites desse tipo em programa engraçado, boa fonte de inspiração.)  Grande platéia às gargalhadas.  O senhor LOBO, estático, só por dentro riu de si próprio.  “Caí na minha própria armadilha...”  ELA não fez por menos - lua de mel percorrendo todas as regiões da Itália.  O LOBO se tornou, coitado, um lobinho, um escravo sexual frágil e obediente.  Constantes agora chás de extratos vegetais aromáticos pois tem que “comparecer” com EU TE AMO ao café da manhã, na hora do almoço (pode substituir por três mini quindins), do lanche da tarde (ou uma orquídea lilás com etiqueta do Largo do Arouche), depois do jantar e uma vez por semana, após o jogo de quarta-feira na televisão, também na hora da ceia.  Símbolo ganhou na prateleira, lado a lado, uma esposa - loba romana nutriente alimentando gemeozinhos ainda na idade da inocência angelical - PAOLO e APOLO.
     Ave, lupo et femina!
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NOTAS DO AUTOR:
PIETRO - do aramaico, pedra, rocha.  ---  CAESARE - do latim, cabeludo, de farta cabeleira.  ---  INÊS/AGNES - do grego e do hebraico, casta, pura, honesta, virtuosa, sagrada.  ---  MARIA - do hebraico, senhora, soberana.  ---  PAOLO - do latim, em busca da paz.  ---  APOLO (reparem:  mesmas letras de PAOLO) - beleza, elegância, harmonia;  mitologia grega:  filho de Zeus e Leto - aquele que conduz o carro do sol.


                                     F  I  M
 
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 12/08/2017
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 50 anos
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