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TRAÇOS DA ORALIDADE NO TEXTO ESCRITO DO PORTUGUÊS POPULAR
  

 
 
RESUMO
  
Este trabalho aborda questões da oralidade como vetor de transformação da língua escrita, considerando os aspectos sociocultural, histórico e geográfico, que influenciaram na formação do português popular e que, pelo dinamismo da própria língua, continuam favorecendo mudanças. O corpus, em estudo, além de conter traços da fala, registra a formação de metaplasmos. Os desvios registrados retratam a realidade linguística de um falante do sertão baiano. Através de sua escrita, pôde se perceber algumas características comuns a outras regiões, cujas variações são processadas por indivíduos com baixa escolaridade. Falantes estes, com forte tendência à discriminação por aqueles que têm o domínio da norma culta.
 
  
Palavras-chave: Oralidade. Português popular. Língua. Metaplasmo.
 
 
Introdução
 
Afirmações nos fazem acreditar que Deus criou o mundo falando. O que sabemos acerca dos relatos da criação, nos remete a um parecer que seria dado por Deus. Ele diz que no início não havia nada, e que depois veio o caos. E esta passagem do caos à ordem, ou melhor, ao cosmo, se dá através de um ato de linguagem. E é por meio desta que o mundo nos é apresentado. Pois, quando Deus fala: “Faça-se a luz”, a luz foi feita, e assim Ele prossegue com as demais coisas. Podemos, então, reafirmar o poder exercido pela linguagem e mostrar o quanto esta capacita o homem a ordenar e categorizar o mundo (FIORIN, 2002, p. 73).
 
Através dos signos, o homem cria universos de sentido. Consta dos princípios fundamentais da linguística moderna que a língua falada é mais básica do que a língua escrita. Contudo, não se deve conceituar Língua como fala. Esta é uma afirmação de John Lyons (1987, p. 24), que através de seus estudos nos diz: “Deve-se estabelecer uma diferença entre os sinais linguísticos e o meio em que tais sinais se realizam. Assim é possível ler em voz alta o que está escrito e, em contrapartida, escrever o que é falado”. E mais adiante ele próprio indaga em que sentido a fala é mais básica do que a escrita.
 
Sabemos que toda Língua passa por grandes ou pequenas transformações. Para entendermos melhor as suas variações, recorremos à Fonética que se ocupa do estudo dos fonemas, ou seja, dos sons dos vocábulos; e temos a Fonologia cuja função é de organizar a fala, estabelecendo uma relação entre elementos diferentes, que se combinam uns aos outros para formar palavras e frases. No caso da formação da nossa Língua Portuguesa, oriunda do Latim e formada a partir do dialeto galego-português, não foi diferente das demais.
 
   
1 Aspectos históricos e geográficos
 
Os colonizadores portugueses, aqui chegando, encontraram uma população ameríndia composta por milhões de indivíduos, de tribos diferentes: os Tupiniquins, na região de Porto Seguro, e os Tupinambás que habitavam a região de Salvador, Bahia, como também o Rio de Janeiro. Já os Tupis, que se encontravam na costa paulista, falavam uma língua parecida com a dos Tupinambás. E na região sul, habitavam os Guaranis.
 
Há registros de que as palavras ouvidas nas selvas, pelos missionários e viajantes, com relação ao Tupi e ao Guarani, eram desprovidas do som representado por: f, l, lh, rr, v e z. E aquelas que se encontravam grafadas com v e z, é porque já tinham sofrido influências das línguas dos colecionadores europeus. Vejamos o que se registrou sobre as línguas dos povos indígenas:
 
Ortografia – O tupi e muito menos o seu dialeto o guarani não tinham escrita. Os missionários, que aprenderam, por necessidade de comunicação com os indígenas, os seus falares, escreveram de acordo com os seus conhecimentos europeus dos sons. Daí as diferenças de grafia entre os escritos de missionários portugueses e espanhóis e muito mais ainda entre os de origem francesa ou alemã. Cada qual tratou de reduzir a letras já suas conhecidas os sons que iam ouvindo diretamente da boca do bárbaro como afirma o Padre Vieira em seus tempos (BUENO, 2013, p. 15).
 
 
Afirma-se que o tupi não era língua própria de uma tribo, e que era usado para fins de catequese pelos jesuítas. Assim, José de Anchieta cria a primeira gramática, transformando o tupi na língua legítima dos índios. E o guarani – dialeto do tupi – era falado desde São Vicente (no Brasil) até o Paraguai, que muito influenciado pelo catalhano, ainda se mantém.
 
No rumo das variações linguísticas, destacamos, aqui, os aloglotas africanos que tiveram de aprender a nossa língua de forma defectiva. Neste caso, aconteceram simplificações tanto fonéticas quanto morfológicas. A necessidade de comunicação era urgente, e assim se processou o aprendizado pela “oitiva”, sem que passasse pela normatização da escola. As consequências apontaram para uma língua considerada ‘imperfeita’, fato esse que já refletia na formação do português popular.
  
Esses falares se movimentavam no sentido da costa brasileira para o interior, formando, assim, uma base para as variedades rurais e populares em tais regiões. Neste processo transitório, pontua-se como resultado da influência dos aloglotas, (mouros, índios e negros), a transformação do ˂lh˃ em uma semivogal /y/, encontrado em crioulos de Cabo Verde, Guiné, nas Ilhas Príncipes e de São Tomé. Aqui no Brasil, detentor de forte variação dialetal, esta ocorrência se dá em várias regiões do país. Observa-se tanto nas populações rurais do sul como do nordeste; é o caso de iotização de /λ/ como /ᶨ/ que ocorre em galho, cangalha e milho.
 
  
2 Escrita x Fala
 
Apresentaremos, adiante, casos de variações que fazem parte dos processos denominados metaplasmos, ocorridos na passagem do latim para o português, cuja evolução se dá de forma gradativa e contínua. Um deles foi verificado num trecho da letra da música Juazeiro, de autoria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, cuja gravação original foi feita pelo primeiro aqui mencionado.
 
Sabe-se que Luiz Gonzaga, nascido no sertão pernambucano, ao compor suas canções, tinha consciência do quanto elas representavam o cotidiano do povo humilde e iletrado de várias regiões do Nordeste. Por conta disso, ele fazia questão de grafá-las de tal modo que se aproximasse da realidade de tais falantes. São inúmeros esses registros em seus trabalhos, a exemplo deste abaixo:
 
Juazeiro, juazeiro
Me arresponda, por favor,
Juazeiro, velho amigo,
Onde anda o meu amor
 
Dessa forma, responda (norma padrão) passa a ser arresponda, (variação popular), ocorrendo alteração tanto fônica quanto lexical. Ocasionou o que se denomina  de prótese, cuja explicação teremos no capítulo seguinte.
 
 
2.1. Transformações fonéticas – análise de corpus
 
É na esteira do processo variacional do português popular do Brasil que este trabalho tem a pretensão de pontuar as influências da oralidade no texto escrito, mostrando, através da análise de um determinado corpus, o quanto tais transformações são motivadas por fatores externos, de naturezas sociocultural e histórica como também por influências geográficas.
 
O material, em análise, consta de texto escrito, uma correspondência informal (doc.anexo), redigida no interior do sertão baiano – piemonte da Chapada Diamantina –, cuja redatora aqui identificada pelas iniciais M.A., é de origem rural, com 52 anos de idade, residente numa pequena vila, onde exerce atividade na área do comércio.
 
Ao realizar estudos dos fenômenos denominados metaplasmos, notamos que eles se manifestam de várias formas: a) por aumento; b) por supressão; c) por transposição; d) por transformação. No quadro abaixo, encontram-se vocábulos grafados de duas formas, que fazem parte da análise do documento (anexo) redigido por M.A.
 
 
Linha                     Grafia padrão                               Grafia com desvio
3                             hoje                                                        hogem
5                             mandar                                                  manda
6                             depois                                                    adepois
6.a                          vier                                                         vinher
9                             pode                                                       podi*
12                           me                                                          mi*
15                           roupinha                                                 ropinha
20                           roupa                                                      ropa
23                           procure                                                   procuri*
* Não analisadas por não se identificarem com os metaplasmos mencionados.
 
Este grupo de palavras, do quadro acima, onde ocorre o desvio, está grafado de acordo o texto original. À primeira vista, percebe-se uma ruptura das normas gramaticais, e que é passível de ajuste. Porém, não objetivamos, aqui, um estudo cabal da fonética, muito menos da ortoépia. Portanto, dentro dos preceitos linguísticos, cabe-nos registrar tais casos e entendê-los como um processo natural de evolução de uma língua, cujas ocorrências de metaplasmos acontecem.
 
Nas linhas 3 e 6.a, ocorre o Metaplasmo por Transformação. Vemos que pela grafia o vocábulo hoje foi alterado para hogem, como vier ˃ vinher (este com interposição de um /ŋ/). Ocorrendo, assim, o processo de nasalização – quando um fonema oral passa a ser nasal. Ex.: até ˃ inté.
 
Na linha 5, além de o verbo passar do infinitivo (mandar) para a terceira pessoa do tempo presente (manda), dá-se o Metaplasmo por Aumento:  mandar ˃ mandá, ocorrendo apócope – ou seja – quando um fonema é suprimido no final do vocábulo. Ex. passar ˃ passá.
 
Já na linha 6, também ocorre o Metaplasmo  por Aumento. Mas neste caso ocorreu o fenômeno da prótese – quando há inserção de um fonema no início da palavra: depois ˃ adepois.  Ex. voar ˃ avoar (já registrado em dicionário).
 
Com relação às linhas 15 e 20, temos o Metaplasmo por Transformação, cujos vocábulos: roupinha ˃ ropinha e roupa ˃ ropa, sofreram o processo de monotongação – isto é, quando se dá a transformação ou redução de um ditongo em uma vogal. Ex. doutor ˃ dotor.
 
Quanto às palavras podi, mi e procuri, nas linhas 9, 12 e 23, respectivamente, embora não caracterizadas como metaplasmos, podem demonstrar o quanto a oralidade foi capaz de influenciar a autora, no processo da escrita do texto.
 
  
Conclusão
 
Estudando as transformações que afetam a nossa língua, torna-se visível o distanciamento daquilo que se considera “correto” pela gramática normativa. A ideia de uma língua ‘pura’ ou de um jeito ‘único’ de falar, vai sempre ficar no campo do abstrato, justamente por não encontrar outro espaço para se projetar. E, se quiséssemos nivelar os nossos falantes e conduzi-los a um determinado padrão de língua, seria necessário que todos tivessem a mesma origem, convivessem no mesmo local de sempre, exercessem atividades afins, desfrutassem do mesmo prestígio social e que estivessem, impreterivelmente, na mesma faixa etária. É evidente que isso seria impossível. Por outro lado, podemos afirmar que é válido o esforço de muitos gramáticos, no tocante às normas estabelecidas, pois fazem com que esses conjuntos dos falares diversos se coadunem com o princípio da unidade na diversidade e vice versa.
 
Numa língua haverá sempre a força centrípeta do conservadorismo como vai também existir a força centrífuga da inovação. Quanto ao estudo realizado e suas observações, alguns casos, aqui registrados, podem ser objeto de estudos em outros locais. E aqueles que não foram ainda dicionarizados, serão analisados daqui a alguns anos sob novos olhares, porque a fala vai sempre interferir no processo da escrita, promovendo cada vez mais novas mudanças. Vale ressaltar que as pesquisas no campo da fonética/fonologia têm contribuído bastante para que as variantes populares do nosso português não sejam motivo de ação discriminatória por parte daqueles que têm pleno domínio da norma culta.
  
REFERÊNCIAS
BECHARA, Evanildo. Lições de português: 3 ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964.
 
BOTELHO, José Mário. História e formação do léxico da língua portuguesa. Monografia. (Mestrado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica (PUC) – Departamento de Letras, Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1993 ,
 
BUENO, Silveira. Vocabulário tupi-guarani português: 8 ed. São Paulo: Vidalivros, 2013.
 
CÂMARA Júnior, J. Mattoso. Manual de expressão oral e escrita: 21 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
 
COSTA, Antônio Francisco. Abc do sertão. Salvador: Paginae, 2013
              
CUNHA, Celso e Luis F. Lindley Cintra. Nova gramática do português contemporâneo. 2 ed. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1985.
 
FIORIN, José Luiz. et. al. Luiz, Introdução à linguística: I.objetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2002.
 
LYONS, John. Linguagem e linguística: uma introdução. Tradução. Marilda W. Averbug. Rio de Janeiro: LTC, 1987.
 
SILVA, Thaís Cristófaro. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios. 6 ed. São Paulo: Contexto, 2002.
 
NOTA:
Não foi possivel anexar documento (corpus) que deu origem a este estudo. 
Trabalho publicado com intuito de auxiliar acadêmicos em suas pesquisas.
 
Vera Verá
Enviado por Vera Verá em 26/04/2017
Reeditado em 26/04/2017
Código do texto: T5981705
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