Reflexos. (Capítulo 27)
Capítulo 27 : Voltar.
Não dava pra focalizar em nada.Era o sonho mais estranho,mais subjetivo; sentia,contudo,que era o mais urgente.Alguma coisa estava pra acontecer,e,como sempre,as opções não eram as melhores.
-Não é verdade,Alice – e já era no mínimo a quinquagésima vez que Gabe repetia isso,como se de algum modo eu fosse entender tudo num estalo,ao fim de uma dessas repetições – Com certeza tem alguma coisa aí,um mínimo detalhe que a gente ainda não percebeu – apesar de tudo,não ajudava muito vê-lo andar incessantemente de um lado pra outro do quarto.
Sei lá,sabia que ele estava certo.Aquilo tudo simplesmente NÃO PODIA ser verdade,nem no mundo mais irracional e fantasioso de Carroll.Pra qualquer padrão que ainda conservasse um mínimo de lógica ou racionalidade, seria no mínimo o que,tremenda e estupendamente impossível? Mas,pensando bem,pra qualquer padrão que relevasse qualquer dos requisitos acima,eu já estaria,há muito,internada num hospício, amarrada a uma camisa-de-força numa cela branca e acolchoada, vivendo à base de remédios tarja preta.
-Mesmo assim,ALGUMA COISA tem que ter – objetei,agarrada ao meu urso de pelúcia caramelo, sentada na cama e enrolada na colcha de florzinhas,com os cabelos completamente desgrenhados e a pele ainda pálida – Pelo menos,sempre tem,não é agora que ia ser diferente.
-É.Mas nunca foi nada assim tão ruim.Não é dessa vez que vai dar tudo errado.
-Espero com todas as minhas forças que você esteja certo,Gabriel – minha voz tinha um timbre meio fúnebre e sombrio – Ou muitos de nós terão sérios probleminhas por aqui.
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Sabe,era um tormento acordar de manhã e saber que eu tinha que ir pra escola.No caso,era um tormento escutar o despertador tocar, levantar do estado zumbi pra desligá-lo e saber que minhas olheiras só estavam acumulando como camadas abaixo dos olhos.Estava cansada, e disso não tinha dúvida,mas não conseguia dormir.Era horrível pensar que eu podia ver coisas ruins que iam acontecer,porque provavelmente não conseguiria mudar nada e tudo só serviria pra aumentar o peso na minha consciência.
Essa manhã,em especial,parecia aquelas feitas pra você deitar na cama e dormir pelo resto do dia.O céu estava nublado,com umas nuvens pesadonas e cinza-escuras,e caía aquela chuvinha chata que dura um tempão,e só serve pra deixar toda a sua roupa cheia de pingos e umidade.
Se fosse possível,meu humor estava inteiramente condizente com o dia,o que significa que ele também estava péssimo,caso não tenha dado a entender.Meu corpo estava enrijecido da noite mal dormida,e meus olhos pesados teimavam em fechar.Entrei com tudo debaixo da água quente,deixando ela escorrer e tentando relaxar.
Vesti o uniforme e sequei parcialmente o cabelo com uma toalha, desembaraçando com um pente grosso,cheia de preguiça pra fazer qualquer coisa mais.Passei uma camada de corretivo (que por sinal já estava precisando ser reposto) e procurei um casaco no guarda-roupa.Acabei por pegar um verde-escuro,com umas três camadas de pano e um capuz,que minha mãe tinha trazido não sei de onde há algum tempo atrás.
“Lindo”,foi meu comentário nada sarcástico em frente ao espelho.
Desci as escadas pulando de dois em dois degraus,já que o banho me deixara apenas o tempo estritamente necessário para chegar à escola. Completamente sem fome,em um só gole tomei o suco que estava num copo em cima da mesa,e saí desembestada porta afora.
Ao que parecia,tudo havia combinado a fim de ficar num mesmo grau de monotonia.Os portões da escola estavam apinhados de gente,todos querendo contrariar a mais básica lei da física,colocando não dois,mas dez corpos num mesmo espaço.
Foi só quando a neblina ameaçou engrossar que todos entenderam que era muito mais prático e rápido se organizar pra sair logo dali,antes que chegássemos todos encharcados e pingando na sala.No meio da multidão, uma voz se sobressaía,tentando colocar ordem na baderna.
-Vamos,todos – a voz soava enjoativamente doce,como se estivesse sendo forçada a sair assim – Já deu o primeiro toque,vamos,para as salas.
Tentei me enfiar no meio de qualquer espaço minúsculo,ziguezagueando por toda brecha que encontrava.Como provavelmente você já adivinhou,não deu certo.
-Você também,amorzinho – senti uma mão se pousar no meu ombro, agarrando meu casaco com as unhas excessivamente compridas.A área instantaneamente ficou gélida,acompanhada por um calafrio que percorreu todo o meu corpo a partir do ombro.
Virei,apesar de ter a certeza de quem era a dona da mão.Clarisse me olhava com uma expressão que provavelmente passaria como preocupação para a maioria das pessoas,mas não pra mim.Era aquele olhar deliciado do caçador que fareja a presa,e a envolve numa teia suave,conduzindo-a lentamente ao que ela não sabe que será seu último suspiro,seu fim.É aquele olhar malicioso do jogador de xadrez,que move todas as peças para o seu devido lugar,quase que prevendo seus movimentos,num plano tão bem bolado que você só percebe que caiu como um pato e que não tem mais saída quando ele anuncia “xeque-mate”. O mesmo que o carcereiro dirige ao enclausurado,que transparece minimamente a soberba que a posição exerce.
“Finja que não sabe de nada”,minha consciência acudiu,mais rápida que um reflexo.Sorria.
-Desculpa – mostrei aquele sorriso envergonhado da criança que é pega quando está assaltando o pote de doces – Já estava indo pra sala mesmo,é que tá meio difícil passar por aqui.
Ela retribuiu o sorriso.Ou eu mentira bem demais ou ela era estúpida demais.Tinha comigo que,se pudesse,escolheria a segunda opção.
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-Alice,Terra chamando,tem alguém aí?
Estava sentada na última banca,a cabeça encostada nos braços, exatamente debaixo do ar-condicionado.Tentava manter a mente vazia, mas mesmo assim escutava os burburinhos que tinham se tornado cada vez mais frequentes e distintos:vozes,pensamentos e emoções.A maior parte já sabia dizer de quem era,embora com alguns ainda me confundisse.Era uma aula entediante de História,onde eu só tinha pego o lápis duas vezes pra escrever algumas frases soltas que tinha captado.Agora,Bia me sacudia,tentando me acordar do transe.
-Ah,oi – me endireitei na cadeira – O que foi que eu perdi?
-Temos um trabalho pra fazer – ela falava de um jeito estranho,quase como falaria com uma desconhecida.Me dei conta de que já havíamos perdido quase todo o contato,e elas deviam achar que eu estava ficando maluca. – O tema sorteado foi Roma,e temos alguns minutos pra discutir como vamos fazer.Vem. – Como eu não esboçasse reação,ela me içou pelos braços.
Sentados no chão,no fundo da sala,estavam umas doze pessoas,que eu supus que fosse o meu grupo.Pelas pessoas,os grupos tinham sido separados por ordem alfabética.
-Bem,a gente podia começar fazendo um a introdução assim – Jéssica, como sempre, organizava tudo – E depois complementar assim,assim e assim.
-Parece bem,mas,sei lá,não é o que todo mundo faz? – Demorei alguns segundos para fazer a conexão da voz à pessoa,pra depois descobrir que era uma menina novata,Carla – Bem que a gente podia fazer alguma coisa diferente,tipo uma maquete da cidade ou do Coliseu.
-E uma das guerras – alguém completou – Com aqueles bonequinhos pequenininhos de plástico,é só comprar um pacote e pintar.
-Certo.Vamos precisar de isopor,massa de modelar,tintas e...
E mais algumas coisas as quais eu não prestei atenção.
-Sim,mas onde é que a gente vai fazer tudo isso?No colégio é que não é.
-Pode ser lá em casa – eu disse – Quando pode ir todo mundo?
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Tínhamos marcado às duas horas,e todo mundo já havia chegado.Já eram duas e quarenta e cinco,e nada do Henrique aparecer.Lógico que ele era o único,e que ainda não havíamos começado exatamente porque faltava alguém.
-Alguém tem o número daquela criatura? – Jéssica já estava pra lá de impaciente,já que odiava atrasos.
-Ele não atende.Já liguei umas mil vezes – Dani pegou o celular e tentou refazer a ligação – Tá vendo?Nada,diz que o telefone tá desligado.
-Esperem aí um minuto.
Fui até a mesa de centro onde estava o telefone,e peguei a agenda.Não era uma coisa lá muito atual,mas bem que naquela hora veio a calhar.
Corri o dedo pelos sobrenomes na letra “M” até achar o número da casa.Disquei e esperei tamborilando os dedos na mesinha,até que uma voz feminina atendeu:
-Residência dos Macedo.Quem fala?
-É Alice,amiga do Henrique.Ele está?
-Sim senhora.Um minutinho,por favor.
-Alô?Alice?
-Henrique?
-Claro que sim,você pediu pra falar com quem?Um marciano?
-Idiota.
-Que é que tu quer?
-Tem certeza que não tá esquecendo de nada?
-Tenho.Por que não deveria ter?
-Argh,imbecil!Esqueceu que a gente marcou pra fazer um trabalho aqui em casa?Tu já tá quase uma hora atrasado!
-Ah,foi mal.Mas cê sabe que eu realmente não ia ajudar muito aí né?
-Ah,é assim?Certo. – respirei fundo. – Você tem exatos QUINZE MINUTOS pra chegar aqui em casa, contando de agora.Ou adeus nota,sacas?
-Te mato,Alice.
-Também.Quinze minutos,nem um segundo a mais.
Ficamos esperando,esparramados no sofá,por treze minutos.a tarde foi passando e passando, e, por incrível que pareça,tudo estava correndo bem.Era um trabalho que me mantinha ocupada,tanto física quanto mentalmente.Já estávamos quase terminando,quando Rita veio me chamar.Fui até onde ela estava,como se não quisesse que os outros escutassem.
-Desculpe interromper,mas o Rodrigo ta lá embaixo,disse que precisa mesmo falar com você.Tava com uma cara tão tristinha,coitado.
Não queria descer nem pra olhar na cara dele,farás conversar.Não que eu estivesse com raiva,nada disso.Mas tudo aquilo que acontecia só me fazia sentir pior,com mais e mais peso nas costas.Não tinha dúvidas de que gostava dele,mas...sempre havia um ponto de interrogação, por mais que eu quisesse que não.Eu nunca tinha certeza de nada,e isso me doía. Pode parecer egoísta da minha parte,e ás vezes até eu mesma achava que era,mas,nas minhas condições, não queria arranjar mais nada que pudesse,de algum modo,interferir na minha vida ou mudar ela de qualquer jeito.Sentia medo por mim e por ele.E não sabia se realmente tudo devia voltar,ou qualquer coisa do gênero.
Mesmo assim,desci.
Ele estava meio que lindo como sempre,o que era realmente difícil não notar.Ficava olhando pra baixo,quando parece que sentiu que eu estava ali e virou.Ao me ver,deu aquele sorriso lindo que eu adorava, todo cheio de covinhas,que é como se fosse o sol num dia chuvoso.
-Tava já ficando com medo de você não querer descer. – realmente,ele parecia aliviado.
-É,mas,bem,eu tenho que subir bem rápido.tem um monte de gente aí,estamos fazendo um trabalho.
-Juro por tudo que é mais sagrado que não vou tomar mais que dois minutos do seu tempo.
-Sim – Desculpa aí a pergunta,mas o que é que tu ta fazendo por aqui?Tipo,não é meio longe e talz?
-É que eu precisava falar com você.Fiquei adiando,mas não deu mais pra agüentar.
-Fala,então.
-Bem – ele tomou fôlego – Eu fui o maior idiota do mundo por ter terminado com você daquele jeito,e te dou toda razão se você quiser me dar um murro bem no meio da cara. Mas,sei lá,aquele dia foi muito estranho,eu não consigo me lembrar de muita coisa,é como se não fosse eu ali – pausa pra respirar – Mas enfim,minha vida sem você é um lixo.E,tipo,eu vou entender se você não quiser nem me responder ou virar e ir embora.Não vou gostar,mas vou entender.
Eu já sabia o que ele ia dizer.Com total e absoluta certeza.Era o que eu temia.E senti as lágrimas fazerem força pra sair dos olhos,então fiquei fazendo mais força ainda pra prendê-las.
-Eu preciso de você.Preciso mesmo,como nunca precisei de nada antes.E eu queria saber se você podia me perdoar por ter sido tão idiota – o pedido estava ali,não tão implícito quanto ele planejara.
-Eu...não sei.É muita coisa,e,bem,eu não sei se...De qualquer jeito,não é culpa sua,então não fique se martirizando desse jeito.São só uns... problemas pessoais.
-A gente pode passar por isso – ele pegou minhas mãos – Eu e você.Por favor,pense a respeito.
E se virou,não sem antes me dar um beijo na testa.
Foi embora do mesmo modo com viera,me deixando com um beijo,uma dúvida,várias angústias e um rosto me observando da janela.