Reflexos. (Capítulo 21)

Capítulo 21 : Merda,merda,merda.

-Que é que tu quer?

-Já disse,preciso falar contigo.Assunto sério.

-Sobre?

-Você.

Esquadrinhei ao redor procurando um sinal da presença do Gabe.Nada.Exatamente na hora que eu precisava dele,ele não estava.Merda.

E o que foi que deu no Henrique pra querer conversar comigo tipo assim,do nada?E esse assunto no mínimo,hun, estranho?Apesar dele não ter sido exatamente claro,eu tinha a singela impressão que essa conversa não iria ser das melhores.

Literalmente,fui salva pelo gongo.Ou melhor,pelo toque.Como que adivinhando que eu tinha pensado nisso,ele disse:

-Não pense que eu vou esquecer.Nós ainda vamos conversar,nem que eu tenha que te perseguir pelo resto da semana.Só vou te deixar em paz quando tiver tudo explicadinho,tintin por tintin.

O timbre era ameaçador.Não o tipo que quer brigar com você,mas aquele que não deixa margem para desobediências.Ele era assim. Quando colocava uma coisa na cabeça,não tinha santo que fizesse voltar atrás.

-Na verdade,eu não te devo explicações.

-Tenho a singela impressão que você realmente vai querer que eu mantenha sigilo sobre esses teus desmaios,incluindo o de ontem.

Tremi.Ele com certeza deve ter percebido o efeito que essa última frase causou em mim,já que virou e foi embora,exibindo um ar vitorioso.

Merda,merda,merda.

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Não consegui me concentrar na aula,nem um pouco.Meus pensamentos iam do “como ele descobriu” ao “o que é que eu vou dizer”,passando por “deixa eu pensar numa mentira pelo menos aceitável”.

Era impensável contar a verdade.Merda,logo agora que eu tinha que manter distância,aparece uma pedra no meu sapato,que inocentemente descobre um segredo que eu tecnicamente não podia revelar pra ninguém.

Sentia,por vezes,que ele estava olhando pra mim.Aquele olhar de quem sabe que você tá escondendo alguma coisa e que não pretende falar assim tão fácil.Como se ele soubesse que tinha que fazer alguma coisa,tinha que me ajudar de algum jeito.

O problema é que,mesmo querendo,não havia ninguém que pudesse me ajudar.

Foi assim que,de repente,parecia que meus sentidos tinham ficado mais aguçados.O barulho de um mosquito voando por ali passou a me incomodar. Junte isso ao barulho normal de uma sala de aula,com pessoas e mais pessoas cochichando,ou mesmo conversando normalmente. Minha cabeça começou a girar.Eu escutava todos os sons,tudo junto e misturado,tudo ao mesmo tempo.Até minha respiração parecia incrivelmente alta.Aos poucos,começaram a fluir os sentimentos e as imagens ligados àqueles sons.Estava prestes a perder o controle.”Não,isso não”.Cerrei os punhos,apertando as unhas contra a palma da mão.Com força,o máximo que eu consegui suportar sem fazer barulho.

Aos poucos,foi passando.Voltei a escutar só o que um ser humano normal escutaria,nada de imagens ou sentimentos na minha cabeça.Só as mesmas perguntas retóricas que eu fazia à minha consciência antes dessa crise de hipersensibilidade começar.

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O barulho do toque soou agourento.De um jeito ou de outro,eu sabia que aquela conversa que eu estava prestes a ter não me ajudaria em nada.Pelo contrário,só me traria no mínimo um zilhão de problemas.

A sala ia se esvaziando aos poucos.Dani veio falar comigo,perguntando se eu ia andar com elas.

-Não hoje.Acho que vu me retirar pra uma sessão de meditação – tentei fazer piada com inha deplorável situação.

-Se eu não te conhecesse,diria que você está evitando a gente – Jéssica e suas observações perspicazes.

Mas o olhar que ela me enviou mostrava que sim,ela sabia que eu as estava evitando.

Merda,merda,merda.

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Estávamos no mesmo lugar,o centro principal de todos os acontecimentos recentes.A parte isolada atrás da quadra,com seus bancos de pedra não mais seguros pra sentar,as árvores “sou mais velha do que a construção em si” e a grama mal aparada.

-Então,qual é o assunto em pauta,que pode evitar o derretimento das calotas polares? – sarcasmo,ativar.

-Nem vem.Tu pode ter conseguido esconder de todo mundo,mas não esquece que,num dia só,alguém (n/a : leiam esse alguém em itálico) desmaiou duas vezes.Coincidentemente,alguns dias depois esse mesmo alguém desmaia de novo,isso tudo sem nenhuma mudança aparente. Fora a leve mudança da cor do olho desse mesmo alguém,que num segundo era verde,uma fração de segundo depois fica preto e volta a ser verde novamente,deixando a pessoa que está vendo pensar que está ficando louca.Mas esse pensamento é expulso quando,no últimos desmaio dessa mesma pessoa,os olhos dela estão completamente pretos e ela não consegue reconhecer nem mesmo alguém que ela conhece há muito tempo.Ah,ela ainda parece estar inconsciente,ou melhor,como se o corpo tivesse sido invadido por um ser completamente estranho que imobiliza a consciência presente no corpo e fica completamente desnorteado, sem saber o que é que tá fazendo ali. – Ele despejou tudo isso sem dó nem piedade.

Nah,tem que ser o mundo conspirando contra mim.Porque,de repente,uma pessoa que só enxergava coisas piscando em neon rosa pink e verde limão faz conexões pra lá de esquisitas, junta peças de um jeito que ninguém tinha pensado antes e descobre uma verdade tão impossível que,se fosse descoberta por qualquer um antes,logo seria descartada por ter probabilidade de acontecimento de um em um bilhão.

-Então,vai me contar o que é que tá acontecendo?

-Você nunca ia acreditar.

-Eu também não acreditava que você ia,algum dia,olhar na minha cara depois de tudo que eu fiz.Mas,contra tudo e todos,aí está você.

Se eu não estivesse tão preocupada com a conversa atual,essa última declaração certamente teria amolecido meu coração tipo manteiga derretida.Tipo,foi como se ele dissesse “ei,eu sei que fiz uma merda do tamanho do mundo,você devia querer me matar.Desculpa” . Óbvio que eu só pensei nisso depois.Bem depois.Típico de mim.

-Então,me conta.Por favor.

Eu já sabia exatamente o olhar que ele estava direcionando pra mim.Sabia também que,se olhasse,seria muito difícil manter segredo.Por isso,fiquei encarando meus tênis,forçando a vista pra baixo,enquanto sentia o olhar de cachorro pidão dele.

-Eu...não posso.Sério.

-Mas por que não?

-É...complicado.E perigoso também.Não só pra mim,pra todo mundo. Acredite,é melhor você não saber – senti meus olhos encherem de lágrimas.

-Não concordo com você.

Do nada,Gabe tinha se materializado ali,bem na minha frente.Eu não fazia a menor ideia de onde ele estav desde a fracassada tentativa de concentração da noite anterior,então é óbvio que fiquei assustada.

-Como assim,você não concorda?Não foi você mesmo que disse pra não contar?

-Ele já sabe demais.A meu ver,é melhor você contar agora,pra que ele possa se preteger.

-Ave,agora é que eu não entendo nada mesmo.Por que,assim de uma hora pra outra,você muda de ideia?Não dá pra entender essa linha de raciocínio.

-Ele já fez a ligação.Se ela vagar na mente dele nesse estado, provavelmente vai descobrir muito mais do que se ele tentar se proteger contra uma possível invasão.

-Pensando por aí,você tem razão.

-Licença aí,mas,tu tá falando com quem,Alice? - o rosto do Henrique mostrava uma expressão tipo “o que foi que eu perdi?”

-Esqueci – disse Gabe – ele não consegue me ver.Provavelmente deve estar pensando que você tá falando sozinha.

-Que ótima situação que você me deixou.Só pra variar.

-Nada que você não possa resolver.Lembre:quanto antes você falar,melhor.

E ele sumiu,fácil assim como tinha aparecido.

Na minha situação,eu só tinha uma saída.

-Me diz que eu não vi a pessoa com quem você tava conversando.

-É,pode-se dizer que você não viu.

-Então,o que foi que essa pessoa misteriosa disse?

-Você venceu.Eu vou te contar,até porque agora,essa é minha única opção.

-É,mas não agora.Vai tocar.

-Merda.Enfim,sabe aquela assistente da coordenadora,aquela nova?

-Clarisse?

-Sei lá se esse é o nome dela.

-É,sim.Que é que tem ela?

-Bem,quando ela estiver perto de você,tenta pensar numa coisa sem importância.Sério,eu sei que eu tô parecendo uma doida,mas,se você realmente quer saber da história toda,vai ter que fazer o que eu disser.

-Tá certo.E já que você quer evitar ela,é melhor ir andando logo pra sala.

Juro,foram os 20 minutos mais emocionantes e lentos de toda a minha vida.

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Foi só no final da aula que eu lembrei que tinha marcado um almoço.E que,visto a urgência da situação,teria que desmarcar.

Nem bem botei o pé no pátio,vi Rodrigo encostado no carro,me esperando.Eu sabia quanto era difícil pra ele vir me levar e buscar,e uma pontada de culpa me atingiu.”Mas há prioridades”.

-Oi,amor.

-Oi.Vamos?

-Bem,vai ter que ficar pra outro dia.

-Mas por quê?

-Umas...complicações – foi a melhor palavra que eu achei.

-Mas tá tudo bem?

-Tá,sim.

Foi aí que ele viu,atrás de mim,o Henrique esperando.Putz,acho que hoje foi o dia eleito pra facilitar as conexões improváveis.

-Ele tá te esperando?

-Ele quem? – dei uma de desentendida

-Henrique.

-Nada.Eu vou fazer um trabalho que esqueci.

-Tá bom então – ele fingiu que acreditou – Tchau.

Me deu um beijo rápido,entrou no carro e foi embora.

Mais um problema pra adicionar à minha listinha.

-Ele ficou com raiva?

-Não.Pelo menos,acho que não.

-Desculpa.

-Sem problemas.Afinal de contas,a culpa não é toda sua.

Ele riu.

A escola de tarde ficava praticamente deserta.Melhor assim.

-Bem,pode começar.Temos a tarde toda.