NOVAS HISTÓRIAS JUDIAS

NOVAS HISTÓRIAS JUDAICAS

(Traduzidas, adaptadas e colocadas em versos por William Lagos,

a partir de contos do livro MORE WORLD OVER STORIES).

A GREVE DAS VELAS ... ... ... 15 JAN 2017

OS BRINCOS DE OURO ... ... ... 16 JAN 2017

OS PERGAMINHOS DO MUSEU... ... ... 17 JAN 2017

RASHI E O ABADE ... ... ... 18 JAN 2017

A PRESENÇA DE DEUS ... ... ... 19 JAN 2017

A GREVE DAS VELAS I – 15 JAN 17

(Sobre conto original de Bami)

Todos os anos os judeus celebram

a festa móvel que chamam de Hanukkah.

e que também escrevem Chanukah:

é o Festival das Luzes que dedicam.

Nessa ocasião os judeus comemoram

a reconsagração ao santo Deus Jeová

do Segundo Templo, acendendo a Menurá,

depois que os Macabeus o conquistaram.

O Templo fora, de fato, dessacrado

por gregos e sírios quando colocaram (*)

ali imagens de seus deuses pagãos.

(*) Durante o domínio dos reis Selêucidas.

O inimigo enfim fora derrotado

e as imagens estranhas retiraram,

sendo abominações tais deuses vãos.

Desde essa data, em cada lar judeu

são acesas nove velas especiais,

ao invés das sete que se conhecem mais,

pela nova tradição que se acolheu.

Não obstante, em certo dia, sucedeu

que agitadores de ideias anormais

às velas convenceram ser demais

aquele uso anual que só lhes deu

o povo, pois somente as recordavam

quando chegava tal celebração

e seus direitos assim não respeitavam;

e um protesto destarte organizavam:

que vela alguma cumprisse sua missão,

enquanto as reivindicações não aceitavam!...

Um manifesto então fôra redigido,

a Dezessete do mês hebraico de Kislev:

“Por tempo indefinido será a greve,

nenhum pavio poderá ser acendido!”

“Pois não nos dão o respeito merecido:

por oito dias só temos vida breve

e a reverência não nos dão que se nos deve;

decoração nós apenas temos sido!”

“Velas do Hanukkah de todo o mundo, uni-vos!

Até que nossas reivindicações atendam,

Nossos pavios permanecem em sono leve!”

“Em todo lar judeu hoje reuni-vos,

até o valor que temos nos entendam,

pois mão alguma nos acender se atreve!”

Todas as velas acederam ao apelo,

fossem laranja ou multicoloridas:

“Que não nos queimem crianças atrevidas,

do Festival nós somos o desvelo!”

Só uma vela demonstrou possuir mais zelo:

a vela Shammash, que proferiu compridas

exortações contra greves desabridas:

“Não estraguemos assim dia tão belo!”

“Velas unidas jamais serão vencidas!”

Contra essa vela protestaram as demais.

“São muito justas as reivindicações!”

“Louvor merecem nossas curtas vida!

Nós temos almas e somos muito mais

que a cera ou sebo de nossas formações!”

A GREVE DAS VELAS II

Entre os judeus houve consternação:

“Não poderemos nossa festa celebrar?”

Alguns disseram em nada se importar:

“Que lucro temos em tal celebração?”

Mas as crianças demonstraram comoção:

“Nossas partidas de Dreidel sem jogar? (*)

As comidas especiais sequer provar?

Não aceitamos essa situação!...”

(*) Veja anotação no rodapé.

Então foram com a Shammash conversar,

que era a mais humilde dessas velas,

erguida apenas num nível inferior.

“Shammash, queremos nossa festa celebrar,

fale com as outras, procure convencê-las!

Sem candelabros, fica a festa sem calor!...

Falou Shammash: “Pois bem, conversarei,

mas os seus líderes só querem ter poder

e todas mais conseguiram convencer,

só eu, em vão, na assembleia protestei!”

“Desde o começo deles suspeitei,

mas sou humilde, sem respeito ter,

pois só me acendem para as outras acender;

nada prometo, mas com elas falarei.”

Enquanto isso, lâmpadas elétricas sugeriam,

porém a ideia seus rabinos rejeitaram:

“Teriam também de ser acesas, uma a uma.”

“As tradições por certo quebrariam,

da almotolia o santo azeite não tomaram,

melhor que não se acenda luz alguma!”

Shammash nova assembleia requereu;

de má vontade acederam a seu pedido,

mas quando o seu discurso foi ouvido,

com assobios cada grevista o acolheu!

“Quem você pensa que é?” – um respondeu.

“Das velas todas é quem tem menos servido!

Por isso é posta em lugar mais escondido;

no nosso nível jamais permaneceu!”

“Mas das crianças vocês não sentem pena?

E dos velhinhos que a festa mais lamentam?”

“Ora, as crianças só querem brincadeiras!”

“Os velhos querem é refeição amena!

Só acenderemos depois que eles aceitam

que nessa festa nós somos as primeiras!”

“Dizem vocês que sou a mais inferior,

mas sempre a mim é que primeiro acendem;

de meu pavio vossos pavios dependem,

nenhuma as outras acendem ao redor!”

“Caso essa greve suspensa hoje não for,

pouco me importa os motivos que pretendem,

nunca mais acenderei e então as vendem

e seu destino não pode ser pior!...”

Foram as velas tomadas de pavor,

suspensa a greve antes do Festival,

que em cada casa elas amavam rebrilhar!

E é por isso que hoje ocupa o superior

lugar do candelabro, no ritual,

essa Shammash que fez a greve terminar!

O jogo de Dreidel, chamado em hebraico Sevivon, é jogado com uma espécie de cruza de pião com dado de quatro faces e um cabinho como agarrador para a fazer girar. Cada face possui uma letra hebraica correspondente às iniciais de Nes Gadol Haya Sham = um grande milagre ocorreu lá! – referente à vitória de Judas Macabeu sobre as tropas selêucidas, compostas basicamente por gregos macedônios e sírios. No Estado de Israel, a frase foi mudada para Nes Gadol Haya Po = um grande milagre ocorreu aqui!. As letras hebraicas são Shin, He, Gimel e Nun, naturalmente consideradas da direita para a esquerda.

A Chanukkah ou Hanukah (Dedicação) é uma festa móvel, conhecida como o Festival das Luzes, comemorando a rededicação do Segundo Templo, construído por Esdras e Nehemias, reconquistado aos Selêucidas por Judas Macabeu. Em 2016 foi celebrada durante os oito dias entre o pôr do sol de 24 de dezembro (coincidindo com o Natal cristão) e o entardecer de 1º de janeiro; como é marcada pelo dia 25 do mês Kislev e o calendário judaico não corresponde ao gregoriano, a data do início muda todos os anos. Em 2017 será de 12 a 20 de dezembro e em 2018 entre 2 e 10 de dezembro.

OS BRINCOS DE OURO I – 16 JAN 17

(Conforme narrativa em prosa de M. Dluznowsky, 1968)

Em Marrocos habitava um ceramista

chamado Dan bin-Sosan, que fabricava

mosaicos para as casas em que habitava

o povo árabe, que do Islam seguia a pista.

Bin-Sosan, nesse período que se avista,

vivia na comunidade que se achava

em Nagazey, onde há séculos morava,

sem qualquer perseguição desde a conquista

pelos árabes aos senhores bizantinos,

ali sempre vivendo em segurança,

só o suficiente possuindo, na verdade,

sem reunir grandes riquezas seus destinos,

mas tampouco sem sofrer qualquer vingança,

sua religião sem encontrar dificuldade.

Quando aos muçulmanos chamava o muezim

para a mesquita, os judeus se congregavam

em sua casa modesta e ali escutavam

velhas histórias que Bin-Sosan narrava assim,

pois suspendiam seus trabalhos, outrossim,

porque aos árabes ofender sempre evitavam;

nas mesmas horas também eles rezavam,

pois sinagoga jamais se erguera ali, enfim.

Dan afirmava que sua comunidade

vivia ali desde os tempos de David,

sem explicar de que modo haviam chegado

e quando algum, sem malícia nem vaidade,

essa pergunta apresentava ali,

ele explicava, com bastante agrado,

que haviam outros, que mais longe residiam,

por tempo bem maior, junto ao deserto,

da Cordilheira do Atlas já bem perto,

em cavernas, que ferozmente defendiam

dos ataques tuaregues que lá iam,

não por motivo religioso, isso era certo,

mas por pilhagem, com o motivo aberto

de escravizar a quantos conseguiam.

Há muitos séculos essas tribos beduínas

ora na Europa, ora em África vendiam

os prisioneiros que capturavam,

muito temidas por serem assassinas,

que à vida humana valor pouco atribuíam,

exceto pelos lucros que lhes davam.

Certo dia, no meio deles apareceu

um homem alto e magro, rosto curtido

pelo sol e pelo vento recebido,

que a comunidade hospitaleira recebeu.

Ele explicou que todo o povo seu

em tais cavernas havia permanecido,

que ao Faraó Nekao havia fugido

e em tal lugar inóspito se acolheu.

Barba negra ele ostentava e um turbante,

pendia um brinco de ouro de sua orelha.

Ele explicou que, na ausência de Moisés,

Pedira o povo, num ato delirante,

que um deus de ouro, por tradição já velha,

fosse forjado para alvo de suas fés!...

INTERMEDIO, SONETO DE ZIVER RITTA

Moisés descia do Sinai, nos braços,

tendo da Lei as Tábuas, junto ao peito;

mas de repente, ali detém os passos,

vendo o Bezerro, todo de ouro feito!

Diante da ingratidão do povo leito,

do austero rosto alteram-se-lhe os traços,

as tábuas ergue e em fúria, contrafeito,

as joga ao chão, fazendo-as em pedaços!

Há no seu gesto uma lição contida

a quem levanta e ao culto até destina

outros bezerros de ouro nesta vida;

que neste mundo incrédulo e bizarro

tem, tantas vezes, quebrado a lei divina

aos pés de tantos ídolos de barro!

OS BRINCOS DE OURO II

Aarão, que era o Sumo-Sacerdote,

o seu pedido esperando mesmo adiar,

até Moisés do alto monte retornar,

pediu-lhe os brincos a balançar sobre o congote!

Mas para seu espanto, um largo dote

foi-lhe trazido e assim teve de forjar

o Bezerro de Ouro e destarte celebrar

um sacrifício para o ímpio convescote!... (*)

(*) Banquete ao ar livro, piquenique.

“Mas,” – disse o homem – “apenas um punhado

recusou-se seus brincos a entregar,

só a Jeová dispostos a adorar

e era daqueles que haviam recusado

que descendia esse povo do deserto,

dos faraós a se esconder, por certo!”

“Por isso usamos, até hoje, as arrecadas

de prata e ouro dos antepassados

e aqui vivemos, mais ou menos isolados,

há milênios evitando outras estradas.”

“Também descendo das famílias consagradas

da tribo de Levi e a meus cuidados

a religião se conserva sem pecados,

mas sinagogas não possuímos levantadas.”

“Por isso hoje as aldeias eu percorro

em que há judeus e donativos peço,

para que um templo possamos construir.”

“Nós não lhes negaremos o socorro;

o seu pedido terá o nosso apreço,

embora um templo não possamos erigir...”

“Mas outras sinagogas podem frequentar

nessas cidades que se encontram perto;

somos forçados a peregrinar pelo deserto

se qualquer templo queremos encontrar!”

Um dos locais animou-se a comentar:

“Mas os seus brincos têm valor, por certo!”

“São nossos símbolos do velho concerto

e para sempre os devemos ostentar!...”

Até que o mundo venha a reconhecer

que nossas tribos sejam descendentes

dos que negaram, sequer por um momento,

a qualquer outro deus se oferecer,

que não o Único de Quem nós somos crentes,

ao Qual servimos com ardor fervente!

Um bom auxílio deu-lhe a comunidade

e o sacerdote novamente viajou;

brilho de orgulho nos olhos demonstrou,

quando sua história foi aceita por verdade.

E num gesto de devoção e não vaidade,

no seu brinco de ouro ele tocou

e para as preces então os convidou,

sendo um levita, com plena autoridade!

A sinagoga foi no deserto construída,

porem, para evitar perseguições,

foram levados para a Terra de Israel,

muito depois desta história ser ouvida,

quando extremistas de muitas nações

aos judeus perseguiram sem quartel!

A 11 de abril de 2002, um caminhão de gás, dirigido por Niser Bin-Muhammad Nasr Nawar, foi explodido na sinagoga de El-Ghriba, na ilha tunisina de Djerba. Já há décadas os judeus dali haviam partido para Israel e era agora um ponto turístico mantido pelo governo da Tunísia. Assim, nenhum israelense foi morto na explosão, porém morreram dezesseis turistas, quatorze alemães e dois franceses e os três funcionários muçulmanos responsáveis pelo lugar.

OS PERGAMINHOS DO MUSEU I – 17 JAN 17

(Versificação de um conto de Golda Kaufman)

Em mil setecentos e cinquenta e quatro, o nevoeiro

cobria Londres, mas escutaram-se batidas

à porta de uma casa, fortes e incontidas,

naquela noite de se abraçar o travesseiro!...

Solomon da Costa, um negociante ordeiro,

de origem portuguesa, ainda em lidas,

mandou um criado atender às atrevidas

pancadas de tal visitante sobranceiro.

“Sou o criado do Sr. Maas, o encadernador;

para seu amo trago mensagem bem urgente!”

O Senhor Da Costa apareceu incontinenti.

“Muito doente se acha o meu senhor

e temendo que não passe desta noite,

manda pedir-lhe que vá vê-lo com afoite!”

Da Costa e Maas eram muito amigos,

na sinagoga com frequência se encontravam;

sem mais delongas em seu quarto já se achavam,

da noite escura já enfrentados os perigos.

O Senhor Maas trabalhava com antigos

manuscritos que muitos lhe confiavam.

Perto do leito, numa estante, se empilhavam

de seu trabalho grande número de artigos.

Por sua saúde indagou o mercador.

“Não estou à morte, se foi o que lhe disseram,

mas não espero ter à frente longa vida...”

“Algumas obras de altíssimo valor

encadernei, depois que mas trouxeram

e já não posso mais lhes dar guarida...”

“Foi no tempo do rei Carlos Segundo

que os manuscritos lhe foram legados

e num depósito mantidos sem cuidados,

deteriorando-se em tal lugar imundo...”

“Até que o rei Jorge Primeiro, um profundo

conhecedor do valor desses tratados,

mandou trazê-los para ser encadernados:

trabalhei anos no esforço mais rotundo...”

“Enquanto isso, faleceu tal rei;

Jorge Segundo reina agora em seu lugar

e quando quis o trabalho lhe entregar,

“resposta alguma na Real Corte encontrei;

e se eu morrer, esta valiosa coleção

será espalhada, sem grande apreciação!”

“Assim, amigo, tomei a liberdade

de a nosso rei enviar uma mensagem,

nela pedi-lhe permissão, em vassalagem,

para vender-lhe a inteira quantidade.”

“E o rei ao recebê-la, na realidade,

mandou marcar-lhe audiência por um pajem,

logo amanhã de manhã! Tenha coragem

e se apresente ante Sua Majestade!”

“Caso o rei a aquisição lhe permitir,

terá a bondade de adquiri-los?

São duzentos e tantos manuscritos...”

“Mas que importância pretende me pedir?”

“Os meus herdeiros não ficarão tranquilos,

caso eu apenas lhe doe esses escritos...”

OS PERGAMINHOS DO MUSEU II

“Gastei anos de minha vida em tal labor,

sou obrigado a lhe cobrar o material,

a mão de obra será o mínimo, afinal;

sei que você irá guardá-los com amor...”

“Por quatrocentos guinéus dou-lhe o lavor.”

“É muito abaixo de seu valor real!”

“Da história hebraica é um verdadeiro graal,

caso os dispersem, perderão muito valor...”

“Caro amigo, a meu dispor não tenho

essa importância; só em mercadoria,

mas de algum modo para reunir me empenho...”

E assim Da Costa todo o dote empregou

de sua esposa e cem guinéus tomou

como empréstimo, dando o estoque em garantia...

Já no outro dia no castelo apresentou-se,

Por Jorge Segundo cortesmente recebido.

“Não leio hebraico,” o rei disse, comedido

“e o Parlamento a tal despesa recusou-se.”

“Senhor Da Costa, foi-me dito que dispôs-se

da quatrocentos guinéus, preço pedido

pelo conjunto de livros recolhido:

um grande investimento assim impôs-se.”

“O que pretende fazer com a coleção?

Tem realmente um tal valor exorbitante?”

“Majestade, só pela rama a examinei,

“Dez vezes mais eu faria a cotação

destes trabalhos, mesmo neste instante,

mas não foi por lucro que adquirir pensei.”

“São manuscritos em hebraico ou em latim,

ainda em grego ou aramaico alguns escritos,

os comentários de famosos eruditos,

Abravanel, Rashi e outros assim...”

“E caso os compre, o que fará deles, enfim,

já que por lucro não foram circunscritos?”

“Majestade, tais livros são benditos,

só seu estudo grande prazer dará a mim.”

“Além do estudo, também tenho a intenção

de catalogar seu conteúdo inteiro,

com referências em latim, hebraico e inglês.”

“Depois, com sua graciosa permissão,

o meu propósito será, mais verdadeiro,

ao Museu Britânico doá-los, por sua vez.”

Mostrou-se o rei surpreso e satisfeito.

“Por que motivo irá fazer tal doação

a uma tão recente instituição,

que nem se sabe se funcionará direito?”

“Majestade, a meu melhor conceito,

muito além será da imaginação

que o museu cumprirá a sua função:

para muitas gerações trará proveito.”

“Pois muito bem, aprecio sua nobreza

e a dinastia, por este documento,

mão abrirá de qualquer outra pretensão!”

Assim, em Cinquenta e Nove, com certeza,

todos os livros acharam seu assento

nesse museu e até hoje ali estão.

Embora Jorge Segundo não fosse um erudito como o rei seu pai, Jorge Primeiro, o fora, sua educação lhe dava margem a apreciar os pergaminhos por seu devido valor. Solomon da Costa efetivamente os doou ao Museu Britânico em Junho de 1759, apenas seis anos após sua fundação, em que formaram o núcleo da Coleção Hebraica na Seção de Manuscritos e Livros Impressos em Línguas Orientais, onde até hoje se encontram à disposição dos estudiosos.

RASHI E O ABADE I – 18 JAN 2017

(Conforme narrativa em prosa de M. Dluznowsky, 1968)

Vivia em Troyes, no coração da França,

rabino jovem, que podava sua parreira;

cuidando as uvas com mão hospitaleira,

de preservá-las jamais ele se cansa...

Feito o labor, ao estudo ele se lança,

a Torah cantando a tarde inteira, (*)

para melhor a decorar, sua voz ligeira

nos ouvidos a chegar de uma criança.

(*) Torá é a lei hebraica, basicamente o Pentateuco da Bíblia.

Era Rashi o nome do rabino

e de François chamavam o menino,

que sofria de moléstia persistente.

Algumas vezes, escrevia no jardim

e a criança contemplava assim

aquelas letras quadradas de outra gente...

Aconteceu que, num dia de verão,

alguma abelha picou o garotinho,

seu ferrão mais violento do que espinho,

a provocar-lhe real lamentação...

Rashi escutou o seu choro na ocasião;

era a videira que atraíra o insetinho:

talvez mesmo o culpasse o seu vizinho!

Mas movido também por compaixão,

atravessou com rapidez o parreiral

e do menino chegou até a janela

e num instante arrancou-lhe o tal ferrão

e com unguento de origem natural

curou o inchaço e a dor que havia nela,

não mais sofrendo a criança na ocasião!

Logo a família veio a ajuda agradecer

e então o rabino pediu-lhes permissão

para tratar dos sintomas que ali estão

da doença em que o via padecer...

Em pouco tempo, veio a suceder

que da moléstia alcançasse a remissão,

sem que aceitasse qualquer compensação

pelo trabalho realizado com prazer.

Quando François pelos campos já corria

a cada vez que com ganso se encontrava,

algumas penas depressa lhe furtava;

um saquitel de penas logo enchia,

que a seu benfeitor então levava:

era com cânulas que nesse tempo se escrevia! (*)

(*) A parte oca da pena, que absorvia tinta.

O bom Rashi agradecia em profusão

e o menino observava os pergaminhos,

letras quadradas lhe pareciam garranchinhos,

tão diferentes dessa escrita de um cristão!

Porém temendo que ocorresse conversão,

por tanto tempo a ficar os dois sozinhos,

talvez pensando em certos atos mais mesquinhos,

de um monastério buscaram a proteção.

Assim François foi por monges educado

e muito em breve aceitou sua vocação,

alguns anos depois sendo ordenado,

na hierarquia rapidamente alçado,

fez-se famoso por sua devoção

e também por seus dotes de letrado.

RASHI E O ABADE II

Eventualmente, como abade foi nomeado

de Metz, uma cidade da Lorena,

que com a Alsácia constituiu a cena

de muitas guerras, seu país sendo trocado,

por Áustria, França e Alemanha disputado;

François Théoger, o abade, em grande pena

assistindo essa disputa que envenena

os ânimos do povo a seu cuidado.

Durante séculos à Áustria pertencera,

depois sendo pela França conquistada.

Quando a Alemanha foi unificada,

para o Império Alemão se convertera;

a voz do povo preferia o alemão,

pelo francês não demonstrando aceitação.

Enquanto isso, Rashi se transformou

em um rabino da maior reputação,

seus comentários da Bíblia em aceitação,

até o presente, por eruditos que formara.

Também François, por sua vez, muito estudara,

de medicina tendo certa formação;

muitos doentes já curara na ocasião,

de milagroso a fama até granjeara!...

Naquela época, pouca higiene havia,

as cidades entre muros apertados,

sem ter esgotos nem água corrente

e nos sótãos e porões então se via

grande número de ratos apressados,

alimentos a roubar da pobre gente!...

Assim, de tifo ocorreu epidemia,

até François sofrendo da doença.

Por entre o povo veio a correr a crença

de que um judeu veneno espalharia!

De fato, o tifo, entre eles não se via,

devido às leis da higiene mais intensa,

que a observância da Lei assim compensa,

sem que em seu bairro prosperasse a rataria!

Porém fugira da cidade a autoridade

e ao leito de François foi comissão,

solicitando que ordenasse a expulsão

de todos os judeus de sua cidade

e lhe pediram que assinasse o referendo,

pena de ganso e pergaminho lhe trazendo.

O pergaminho e a pena recordavam

o rabino de seus tempos de criança

e declarou, com base em tal lembrança,

que os ratos eram que tal mal causavam!

E enquanto os moradores os caçavam,

tomou a caleça, cheio de esperança,

para Troyes se dirigindo sem tardança,

de onde notícias de Rashi ainda chegavam.

Mas realmente, a rataria destruída,

os judeus já não foram perseguidos

e sua comunidade prosperou;

e junto a Rashi, François achou guarida,

os seus cuidados em breve recebidos

e ao bom abade mais uma vez curou!

Shlomo Yitzhaki ou Salomon Isaacides, nascido a 22 de fevereiro de 1040 e falecido a 13 de julho de 1105, viveu toda a vida em Troyes. É mais conhecido pelo acrônimo Rashi, de “Rabbi Shlomo Itzhak”. Foi autor de um amplo comentário abrangendo a maior parte dos Trinta Tratados do Talmud, escritos por eruditos judeus durante o exílio na Babilônia. Também comentou os textos do Tanakh, especialmente o Chumash, que refere o Pentateuco, os cinco livros atribuídos a Moisés. Seus comentários são inapreciáveis e indispensáveis ao estudo do hebraico e da religião judaica, sendo estudados até hoje, também por eruditos cristãos e maometanos. O Abade François Théoger, nasceu em Troyes por volta de 1050 e faleceu na Abadia de Cluny, em 1120, em que se refugiara por ter tomado o partido do Papa contra o Imperador da Áustria durante a famosa Querela das Investiduras, sobre qual deles teria o poder de nomear os prelados. Isso não era questão religiosa, mas política, já que vários deles, inclusive o Príncipe-Abade de Metz, participavam da eleição do Imperador.

A PRESENÇA DE DEUS I – 19 JAN 2017

(Sobre narrativa em prosa de Deborah Offenbacher)

Quando Joel era menino ainda,

ele pensava que Deus Jeová vivia

naquela sombra que sobre a Arca havia,

na Sinagoga de Frankfurt, a linda

construção, que muitos afirmavam

ser a mais bela em toda a Alemanha;

e sensação feliz a sua alma banha,

a cada vez que ele e os pais ali chegavam.

Certo dia, a conversar com o Sacristão,

que chamavam Reb Justus, ele falou:

“Você percebe é o poder da Shekinah,

“a Presença do Deus Santo de Abraão,

que em cada templo judaico se assentou:

é a paz e a bênção que ali encontrará...”

Sempre que as aulas do garoto terminavam,

ao invés de ir a casa, ele chegava

na Grande Sinagoga, em que tanto admirava

os imensos vitrais que ali se achavam.

Vinha ajudar o Sacristão, pois colocavam

os livros de oração nos bancos; ou os retirava

após os ofícios e sobre um móvel os empilhava,

conforme as ocasiões o indicavam.

Ou o ajudava a estender cortina

sobre os portões que de dia protegiam

a Santa Arca com os velhos pergaminhos,

que diariamente era trocada, uma sina

que seus olhos infantis não entendiam,

mas ambos tratavam-nas com iguais carinhos.

Enquanto trabalhavam, o Sacristão

contava histórias sobre a gente antiga;

fôra o avô de Joel da inicial liga

que a Sinagoga erigira com paixão.

Pelos vitrais da melhor coloração

havia arabescos para que a luz consiga

sobre os rostos projetar-se em cor amiga,

mais alentando a sua devoção.

Igual que meu avô um dia serei,

Dizia Joel, dentro em seu coração.

Ano que vem será meu Bar Mitzvah!

Irei à Estante Bíblica e lerei

santas palavras da maior veneração,

grande honra para mim então será!...

Porém as coisas diferente transcorreram:

Em Abril de Trinta e Três, no dia primeiro,

foi Hitler nomeado, para do país inteiro

ser Chanceler, pelos votos que o escolheram.

Logo a seguir, perseguições vieram

e as Leis Raciais proclamaram bem ligeiro,

para os judeus foi-se o sossego derradeiro,

que alguns deles depressa encarceraram

nesses KZL, Campos de Concentração

e a alguns outros em seguida fuzilaram,

não por crimes comuns, mas em razão

das leis incompreensíveis que criaram,

os bens de muitos em confiscação,

enquanto outros ao país deixaram.

A PRESENÇA DE DEUS II

Alguns foram à Dinamarca, outros à França;

para os Estados Unidos outros partiram;

e a cada ofício, mais vazios se viram

aqueles bancos, antes cheios de pujança.

Ao seu rabino a mão injusta alcança;

de Joel os pais a seu irmão escreveram

e um telegrama dele logo receberam:

passagem e documentos lhes avança.

“Semana que vem, nós partiremos,”

disse-lhe o pai. “Esta será a última vez

que a Sinagoga vamos frequentar.”

“No porto de Hamburgo logo embarcaremos

e já estaremos, antes do fim do mês,

em New York, nova vida a começar...”

Enquanto seguia a família pelas ruas,

Joel a cada prédio observava,

seria a última vez que os contemplava;

do calçamento via as grandes pedras nuas...

Quando chegaram à sinagoga, cruas

cortinas de estopa cada vitral tapava.

O seu irmão a razão disto indagava:

“É por causa do blecaute.” Mas só duas

assim se achavam. E chamou-lhe a atenção

que o vento agitava essas cortinas:

Joel notou estarem os vitrais quebrados!

Antes do ofício, foi falar com o Sacristão:

“Por que quebraram essas janelas tão finas?”

“Pelos nazistas foram apedrejadas ...”

“É por isso que sinto hoje tanto frio?”

“Não, meu querido, a coisa é bem pior.

Enfraqueceu-se a Presença do Senhor

e sobre a Arca existe agora só um vazio...”

“A Shekinah agora pende por um fio

e logo emigra para um lugar melhor...”

Em lugar do rabino foi o Cantor

que presidiu ao ofício em grande brio.

E para grande espanto de Joel,

a Oração dos Mortos entoava...

“Para quem o Kaddish se cantava?”

“É para todo o povo de Israel...”

Disse-lhe o pai e logo se calava.

Mas a Presença onde agora se encontrava?

“Quando viajarmos, não mais será entoada;

não mais haverá um número bastante...” (*)

“Mas por que vamos?” – disse Joel, instante,

“Nossa família deverá ser preservada.”

(*) O Kaddish ao pode ser entoado na presença de dez ou mais judeus.

Joel não entendeu. “A prece assim cantada

seria agora pela Shekinah distante?”

“É pela bondade e decência doravante,”

disse-lhe o pai. “Delas não há mais nada.”

Nessa semana, embarcaram no vapor,

que os conduziu para o Novo Continente,

no qual viver em segurança poderiam.

Soube Joel mais tarde, para seu horror,

que a Sinagoga fora queimada inteiramente

e só carvões em seu lugar permaneciam.

Os primeiros judeus se instalaram em Frankfurt-am-Main há novecentos anos. Em 1933 havia 26.158 judeus vivendo na cidade, depois disso, milhares emigraram e pelo menos dez mil foram deportados para a Polônia; no final da guerra, o Exército Norte-Americano ainda encontrou pouco mais de uma centena na cidade, escondidos em residências de famílias luteranas (em Berlin acharam-se três mil). Hoje moram 7.300 judeus na cidade, a terceira maior comunidade na Alemanha, depois de Berlin e de Muenchen. Durante séculos eles foram mais ou menos deixados em paz, até o advento do nazismo, cuja cúpula era composta por católicos bávaros, acostumados a escutar que os judeus haviam matado Cristo. É preciso lembrar que os campos de extermínio foram localizados na Polônia, para evitar protestos dos alemães, principalmente luteranos e batistas que os consideravam como descendentes dos heróis da Bíblia e lhes deram uma certa proteção, não encontrada entre os católicos, a quem a leitura do Livro Sagrado só foi permitida pelo Papa João XXIII, que reinou de 28/10/1958 a 3/6/1969, o qual convocou o Concílio Vaticano II e promoveu o Ecumenismo.

William Lagos

Tradutor e Poeta – lhwltg@alternet.com.br

Blog: www.wltradutorepoeta.blogspot.com

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