Macaco Velho

 
 
        Grana, cascalho, bufunfa, cobre, prata, dinheiro... É ele que move o mundo? 
 
             Ser sovina não é apenas ter apego demasiado ao dinheiro: é muito mais... É usar a mesma roupa durante anos para não gastar, é apagar todas as luzes da casa e viver esbarrando nos móveis, comprar o mais barato, mesmo de baixa qualidade. É chorar, interminavelmente, para conseguir um desconto, é comprar a preço de banana e revender a peso de ouro. É guardar dinheiro só por guardar. Ou para enfrentar possíveis “maus momentos”, embora nenhum momento seja tão mau quanto se convencer de que é preciso gastar ou perder algum dindim.
 
            É esse instinto que leva o cachorro a enterrar o osso para comer mais tarde. Ser unha-de-fome é uma filosofia!
 
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          Mané Marcelino foi à cidade tratar de negócios. Andou pelo comércio, visitou a cooperativa, foi ao Banco. Levantara muito cedo e já precisava agradar o estômago:
 
          — Dona Dade, gororoba pra cinco marmanjos! — da porta da pensão já foi requestando. O bonachudo se sentou à mesa, beliscou um pão com molho de pimenta, na espera que a mulher, que era também a cozinheira, preparasse a refeição.
 
        — Pode chamar a turma! — disse ela dispondo travessas fartas, pratos e talheres sobre o atoalhado xadrez.
 
       Dona Dade, zelosa que era, retornou à cozinha para a arrumação e para deixar os fregueses mais à vontade; ao voltar ao salão...
 
      — Que é isso? Cadê os companheiros? — perguntou espantada ao rapa-pratos, que sozinho ia terminando de devorar o solicitado.
 
Quando veio a conta...
 
           — Como a senhora quer cobrar cinco pratos, um só deu conta de comer tudo!?  Num pago não. Dei conta de tudo! — reclamou o glutão.
 
          Principiou assim o desarranjo. Veio um dos filhos da pensionista, veio outro e nada de acertar o desentendimento. O escarcéu trouxe alguns vizinhos, um e outro freguês quis tomar partido, ameaçaram chamar a polícia. Nada de apaziguar os ânimos, o comilão irredutível:
 
           — Prova que tinha comida para cinco!!! Comi eu só!!! Que miséria!!! — não teve jeito! Mané conseguiu economizar seu dinheirinho...


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          O melhor presente que Mané deu à mulher foram fitas para amarrar os cabelos, porque pagar um corte, nem pensar. O gado do homem vivia invadindo cerca. Fazia visitas somente em horários convenientes... Enfim ia tocando a vida, sempre preocupado, com apego, em guardar as economias. Dizia-se seguro, não podia esbanjar porque sabia o valor de cada tostão. Nada caía do céu.
 
    Contraditoriamente, tinha muitos amigos e compadres, apesar de que ao ser convidado para padrinho, já avisava que não tinha condições de ofertar nenhum presentinho. Era simpático, dono de venda à beira da estrada rural, boa vizinhança. Domingo havia pelada e cervejada, frango com quiabo, polenta de milho verde. Era uma festança que trazia boa renda...
 
          Todavia, a sorte sofreu um revés...
 
        Segunda-feira, sete horas, sol mortiço, poucas nuvens, primeiras estrelas. Mané Marcelino escutou curioso. Quem estaria batendo à porta naquela hora?
 
            — Boa noite, compadre!
 
            — Boa!!! Que traz o compadre Zeferino?
 
           — Ô gente! Vou direto ao assunto. A colheita do café está pesada... estou na precisão. Um dinheirinho extra ia bem... e pensei que o amigo... No comércio é mais fácil...
 
            — Ih! O compadre me pegou desprevenido...
 
         Conversa ia e vinha. Comadre trouxe o bule de café e a baciada com biscoitos de polvilho. Um jurinho razoável... Prazo pequeno... Acabaram se acertando.
 
        — E o documento, compadre? — apartou seu Zeferino.
 
            — Deixa pra lá. Um fio de barba do compadre é documento para mim! Na semana entrante, eu vou à cidade, pego uma nota promissória pra nós encher no cartório. Não vamos lá só para isso. Deixa assim. — respondeu Mané, fingindo despreocupação.
 
          Bem perto da venda, estava a igrejinha do bairro. O comerciante matreiro, em conjunto com o campo de futebol, preparou um serviço de alto-falante para transmitir os jogos e pedidos de músicas feitos pelos fregueses, cada coisa com o seu preço... Tudo bem típico. Animava as festas da igrejinha vizinha, os leilões, as quadrilhas, as brincadeiras. Também anunciava os nascimentos, os casamento e os falecimentos.
 
       Naquele sábado, na mesma semana da negociata... que susto! Encomenda de um anúncio. Leu com os olhos esbugalhados:
 
                — Faleceu Zeferino Gomes!
 
             O especulador já ficou alerta. Chacoalhava as mãos, dava chutes no ar. “Isso não vai dar certo. Compadre morre de repente! Ataque do coração! E me deve... Aí vem amolação...” — era o que lhe vinha à cabeça.
 
         Velório, flores, rezas, choro, lamentação, conforto aos familiares, enterro. Mané, respeitoso e astuto, esperou a missa de sétimo dia e mais alguns dias ainda para tratar do dinheiro emprestado. Assunto melindroso. Parecia que tinha um peso em cima dele. Inquietação tormentosa, havia boatos de que o compadre devia muito.
 
        Bateu à porta do falecido. Deu os pêsames mais uma vez, abraçou cada um da casa, lamuriou o acontecido e... muito sem jeito, falou do dinheiro emprestado.
 
        — É, seu Mané... Tem documento, assinado pelo pai? Estamos acertando só desse modo. — disse um dos filhos.
 
        — O senhor desculpe, é a lei, o tal de inventário. Tem que ter documento. — completou o outro.
 
        — Tenho não. O compadre jurou que pagava direitinho. Já fizemos tantos negócios! Ele deu a palavra. Confiei nele sem cisma. Eu dispensei a promissória e agora vocês me vêm com esta... Ih!  O compadre vai revirar na cova.
 
        Mané Marcelino voltou para seu dia-a-dia, mas nada satisfeito com aquela situação. Tudo desencadeado. Queixou-se com a mulher, com os filhos, nervoso. Somente dentro de casa, porque se o pessoal do compadre achasse que estava falando mal deles, seria mais difícil recuperar seus bens. Havia de ter um modo de resolver aquilo. Era finório, sobretudo tratando-se da sua poupança. Como os filhos do compadre traíram assim os valores com que foram criados? O amigo, onde estivesse, haveria de estar muito magoado. Nunca que ele deixaria de pagar suas dívidas. Mané continuava cuidando dos afazeres, porém sempre incomodado com aquele dinheiro, não podia perder nada. Foram as semanas mais longas da vida dele. A vida era um jogo, ele sabia quem dava as cartas. Sempre fora manhoso, haveria de encontrar uma solução...
 
 
                Era tempo de quaresma. Época de orações e de, mais ainda, supertições para o povo daquelas bandas. Sexta feira, dia das assombrações, das mulas-sem-cabeças, dos lobisomens e de outras crendices. Meia noite. Mané pegou o velho megafone com que, às vezes, animava as festanças e foi para próximo do sítio onde morava a viúva e os filhos do finado amigo. Deu uma grande volta contornando o cercado da casa para que ninguém o visse por ali. Adentrou na matinha, escondeu-se bem amoitado em um ponto que a serrania fazia um eco e esperou o momento adequado:
 
        — PAGA O MANÉ MARCELINO, QUE EU TÔ SOFRENDO!!!!
 
      De casa, a gente do seu Zeferino ouvia claramente a voz rouca, sofrida. O que acontecia? Todos se indagavam, assustados, descrentes. A fala gritante, cavernosa, foi ouvida por mais duas ou três vezes. A família não conseguia entender o que se passava... Ninguém se moveu lá dentro até que a normalidade se reestabeleceu.
 
                A semana correu na calmaria, apenas um comentário a voz baixa — a alma do finado não teria encontrado sossego. Sem resultado na empreitada, o inconformado emprestador voltou ao mato vizinho à casa da família endividada. Sexta feira seguinte, meia noite, a queixa agoniante, ecoa misteriosa ao longe:
 
        — PAGA O MANÉ MARCELINO, QUE EU TÔ SOFRENDO!!!!
 
         Nada aconteceu. Apenas o falatório, talvez iniciado pelo próprio agiotador, de que o espírito do Zeferino não conseguira realmente ter descanso. Alma penada. Estava sofrendo no purgatório por erros que não eram dele.
 
            Terceira sexta, meia-noite; o espetáculo ainda se repetiu no grotão. E, então ocorreu o fato esperado. O filho de seu Zeferino, logo na manhãzinha do sábado, surgiu na venda de Mané Marcelino:
 
         — Viemos aqui porque papai, de lá do outro lado, mandou um recado pra gente acertar com o senhor.
 
          — Ah! Eu sabia que o compadre não ia falhar comigo! Nem morto, ele ia me deixar na mão! Homem de palavra que eu sempre respeitei! — comentou aliviado o vivaldo, o peso saindo... Um esquisito e doce prazer. Resmungou mais um pouco. Aproveitou o calor do momento e acrescentou todos os juros pelo tempo transcorrido.

           — NÃO COMBINAMOS ASSIM NÃO! — ribombou a voz rouca e misteriosa! — NÃO ABUSA, COMPADRE...

 
        Mané desnorteou-se! “O que acontecia? O megafone estava bem ali, no cantinho de armário. Seria mesmo o amigo falecido?” Por via das dúvidas, para evitar confusão, o melhor seria refazer as contas...
 
             O sujeito escolado teria levado uma lição?

 
 

 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 19/09/2017
Reeditado em 19/09/2017
Código do texto: T6118606
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